Em protesto contra a crise, irlandês constrói casa com notas de euro

Feito com dinheiro fora de circulação, apartamento de 'bilhões de euros' ressalta morte da soberania irlandesa com a crise financeira

The New York Times |

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O artista Frank Buckley em seu apartamento feito com notas de euros em Dublin
Como um emblema da condição de vida atual na Irlanda, Frank Buckley é quase perfeito demais. Falido, ele vive em uma casa feita de dinheiro.

Euros aqui, euros ali. Euros na lareira. Euros no chão, nas cadeiras, nas janelas. Euros sem valor, retirados de circulação pelo Banco Central da Irlanda formam o interior das paredes de um apartamento que Buckley invadiu em um edifício abandonado devido à ruína econômica do país.

Buckley, 50 anos, chama o apartamento de a casa de bilhões de euros. O imóvel foi construído com milhares de tijolos de dinheiro, e cada um deles contém, aproximadamente, o que costumava valer cerca de 50 mil euros. Ele calcula que cerca de 1,4 bilhão de euros foram usados ali, mas a piada, é claro, é que o apartamento vale muito pouco.

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"Tudo está centrado no euro, mas os euros são apenas pedaços de papel", explicou. "É o que as pessoas fazem com os euros, o valor que colocamos neles, que muda o seu significado."

Se existe qualquer dúvida sobre o que Buckley que dizer com isso, ela se dissipa assim que você entra em seu apartamento, no andar térreo de um prédio vazio em um bairro cheio de prédios vazios como aquele.

Soberania

Uma enorme lápide anuncia que a soberania irlandesa morreu em 2010, o ano em que o governo aceitou uma ajuda internacional repleta de condições onerosas pela qual os irlandeses vão pagar durante os próximos anos.

"Até aonde eu sei, estamos sendo governados pela Alemanha", disse Buckley.

Na atmosfera de desistência de Dublin, Buckley tem recebido ajuda de outras pessoas. O proprietário do edifício, Paul Ruane, disse que Buckley poderia viver lá sem nenhum custo até que um inquilino que pagasse aluguel decidisse morar no local.

"Quando você entra e se depara com os tijolos de dinheiro no banheiro, eles realmente fazem você pensar sobre todo o conceito de dinheiro", disse Ruane em uma entrevista. (O banheiro de Buckley ainda não está funcionando, ele usa um banheiro em uma academia pública do bairro.)

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Depois de perder tudo, Buckley construiu sua casa com notas que não valiam mais
Depois que Buckley encontrou o espaço, um cemitério local gravou e doou a lápide. O Banco Central doou as notas, que haviam sido tiradas de circulação e rasgadas em tiras pois eram muito antigas - "caso estivessem inteiras, elas teriam a textura de papel higiênico", explicou Buckley. Três funcionários do banco ajudaram a carregar os sacos de notas até o caminhão de seu irmão.

Seu apartamento tem eletricidade - a empresa que se mudou para o andar de cima permitiu que Buckley usufruísse de sua eletricidade - e é surpreendentemente quente, apesar de não ter aquecimento. O dinheiro é um bom isolamento térmico, disse Buckley.

Dom

Ele se diz ser um malandro e parece ter o dom de reinventar a si mesmo. Na década de 90, ele trabalhou como gerente de turnê de músicos locais. Depois disso, fundou uma instituição de caridade - a Esporte contra o Racismo na Europa - que recebeu um investimento de 80 mil euros do governo. O grupo faliu, o financiamento acabou e agora ele está vivendo de seguro desemprego no valor de 188 euros por semana (cerca de US$ 250).

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Casa de euros em Dublin foi construída com notas fora de circulação que foram trituradas
Desde então, ele começou a se dedicar à pintura. Uma exposição com suas pinturas chamada de "Expressões da Recessão" foi exposta no Hotel Radisson no outono do ano passado, mas sua arte ainda não gerou nenhum dinheiro.

Buckley deve milhares de euros em cartões de crédito e em uma casa em uma cidade próxima que comprou com uma hipoteca sem ter de dar nenhum dinheiro de entrada no valor de 365 mil euros em 2006.

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Sua ex-esposa ainda vive lá, mas eles não conseguem pagar as contas da casa que estão aumentando cada vez mais, mesmo com o declínio do mercado imobiliário. A polícia apreendeu o carro de Buckley e ele não se pode se dar ao luxo de recuperá-lo. "O governo está tirando o dinheiro do nosso bolso para dar aos bancos para voltarem e exigirem nosso dinheiro para pagar as nossas dívidas", disse.

Seu celular tocou. Número desconhecido. "Deve ser de um dos bancos", disse Buckley. Não deixaram recado.

Turismo

A casa de bilhões de euros, construída no distrito de Smithfield, em Dublin, não muito longe de vários dos grandes tribunais da cidade, tornou-se um destino turístico, um lugar onde as pessoas debatem as implicações filosóficas do dinheiro além de ser um gatilho catártico para uma população perplexa e em constante luta contra a crise.

"Eu normalmente me sento e as pessoas começam a falar sobre suas dificuldades", disse Buckley. "Na semana passada quatro pessoas vieram ao meu apartamento e me falaram que estavam a caminho do tribunal de falências."

Ele tem um livro de visitas onde os visitantes podem se expressar. "O dinheiro finalmente está sendo bem utilizado," escreveu um visitante. "Veio do nada e voltou ao nada", disse outro.

Dormir e viver no meio de todo esse dinheiro, sendo que ele mesmo tem pouco disso, deu a Buckley muito tempo para ponderar a respeito da sua situação e a da Irlanda.

"Eu sou apenas uma das muitas e muitas pessoas", disse. "Eu não estou no mesmo nível das pessoas que devem milhões. Mas o dinheiro que eu devo, para mim tem o mesmo valor. Se você não tem dinheiro, é tudo a mesma coisa. "

*Por Sarah Lyall

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