Após séculos, farsa sobre retrato de mulher de Lincoln é revelada

Segundo especialistas e restauradores, retrato de Mary Todd Lincoln e a comovente história por trás da pintura são falsos

The New York Times |

Durante 32 anos, um retrato de Mary Todd Lincoln, ex-primeira-dama dos EUA de 1861 a 1865, esteve pendurado na mansão do governador em Springfield, Illinois, assinada por Francis Bicknell Carpenter, um pintor famoso que viveu na Casa Branca durante seis meses em 1864.

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À esqueda, o retrato alterado que seria de Mary Todd Lincoln; à direita, a imagem restaurada, que mostra uma mulher desconhecida sem o broche de Lincoln

A história por trás da imagem era intrigante: Mary Todd Lincoln pediu que Carpenter secretamente pintasse o seu retrato para que ela pudesse fazer uma surpresa para o presidente, Abraham Lincoln (1861-1865), mas ele foi assassinado antes que ela tivesse uma oportunidade de dar seu presente.

Agora, segundo especialistas, aparentemente tanto o retrato quanto a história que está por trás dele são falsos.

A tela, que foi comprada pelos descendentes de Abraham Lincoln antes de ser doada à biblioteca histórica do Estado na década de 1970, foi revelada como uma farsa quando foi enviada para um restaurador para que fosse limpa, disse James M. Cornelius, curador da Biblioteca e do Museu Lincoln em Springfield. O museu pretende apresentar as suas conclusões em uma conferência no dia 26 de abril.

"Foi uma farsa para fraudar a família de Lincoln", disse Cornelius. Os Lincolns não foram os únicos enganados. Desde que o The New York Times anunciou a descoberta do retrato em 1929, no dia 12 de fevereiro, aniversário de Lincoln, os historiadores e o público simplesmente assumiram que a pintura retratava Mary Todd Lincoln.

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Ela foi reproduzida no jornal The Chicago Tribune e na revista National Geographic, e ainda acompanha pelo menos duas biografias, incluindo a última edição em brochura de 1932 assinada por Carl Sandburg: "Mary Lincoln: Esposa e Viúva".

Na verdade, a pintura retrata uma mulher desconhecida e foi pintada por um artista anônimo do século 19, disse Barry Bauman, o conservador independente que descobriu a fraude. O golpe, no entanto, remete-se ao final dos anos 1920, quando o retrato foi reformulado como sendo o de Mary Todd Lincoln, disse.

Bauman identifica o culpado por trás do fraude como Ludwig Pflum, que mudou seu próprio nome para Lew Bloom e participou do tipo de auto-invenção que fez com que a América fizesse sua fama durante a era industrial. Ele trabalhou como jóquei, palhaço de circo e boxeador antes de se tornar um colecionador de arte.

Quando morreu, menos de um ano depois da divulgação pública da pintura, o obituário em um jornal de Reading, Pensilvânia, observou que ele "estava envolvido com pinturas a óleo". Aparentemente, ele se envolveu mais do que qualquer pessoa na época podia perceber.

Bauman, que oferece os seus serviços gratuitamente para museus e grupos sem fins lucrativos, disse acreditar que Bloom alterou as características faciais da personagem; pintando alguns acessórios por cima, incluindo um colar com uma cruz, e acrescentando um broche com a imagem do presidente.

Bloom inventou uma história para acompanhar sua obra, dizendo que Mary Todd Lincoln pediu a Carpenter que pintasse a imagem quando ele morava na Casa Branca, trabalhando em sua pintura "A Primeira Leitura da Proclamação de Emancipação", que se encontra no Capitólio. Ela tinha planejado uma festa, na qual presentearia o marido.

Mas, de acordo com a história, depois que John Wilkes Booth matou o presidente no Teatro Ford, no dia 14 de abril de 1865, a aflita viúva pediu que Carpenter se livrasse da pintura. Carpenter, segundo Bloom, a vendeu para uma família rica da Filadélfia, os Neafies, que por sua vez deram a pintura para a irmã de Bloom, Susan, como agradecimento por ela acompanhar um de seus parentes durante uma longa doença.

Bloom anexou uma declaração autenticada que comprovava essa história na parte de trás da pintura antes de exibi-la como um "retrato nunca antes visto" em 1929, na Galeria Milch, em Manhattan. "Bloom sabia que conseguiria se safar com esta história, pois todos os indivíduos mencionados no depoimento estavam mortos", disse Bauman. "O que o entregou", explicou ele, "foi que a irmã de Bloom tinha apenas 5 anos de idade quando o parente Neafie morreu".

Cornelius explicou que a família de Lincoln era um alvo fácil naquela época. O único filho sobrevivente do presidente, Robert Todd Lincoln, morreu em 1926. A viúva de Robert, Mary Lincoln Harlan, ainda estava tentando acabar com a publicidade negativa sobre os Lincolns e até pagou para reimprimir uma série de artigos que falavam que Robert tentou internar sua mãe mentalmente instável contra a sua própria vontade em 1875. Assim Bloom viu que a possibilidade de explorar a ideia de retratar Mary Todd Lincoln como uma figura querida iria apelar para a família, disse Cornelius. A filha de Robert, Jessie, comprou o quadro por um valor de US$ 2 mil a US$ 3 mil.

Ele permaneceu nas mãos da família até 1976, quando o último descendente vivo de Lincoln, seu bisneto, Robert Todd Lincoln Beckwith, deu o retrato para a Biblioteca Histórica do Estado de Illinois (desde então, rebatizada Biblioteca e Museu Presidencial de Abraham Lincoln).

A pintura foi então enviada para o Instituto de Arte de Chicago, onde os conservadores rapidamente perceberam que uma boa parte dela havia sido retocada.

O retrato subjacente, segundo ele, era de um de uma mulher diferente, mais simples, e pintado em um estilo diferente. Ela estava usando uma cruz, que teria sido um pouco estranho para Mary, uma protestante. Eles também reconheceram que o broche com a imagem do presidente que Mary Todd Lincoln usava na pintura tinha sido retocado e acrescentado depois.

Harold Holzer, um estudioso de Lincoln, disse que Mary Todd Lincoln sempre odiou a fotografia tirada em 1857 na qual o retrato que estava dentro do broche tinha sido baseado, queixando-se da "condição desordenada de seu cabelo."

"Se Frank Carpenter houvesse pintado um quadro com essa imagem, Mary o teria quebrado em sua cabeça", disse Holzer.

Mas se os conservadores do Instituto de Arte suspeitaram da fraude, não há nada em suas correspondências que indique isso, disse Cornelius. Cartas escritas entre 1977 e 1978, sugerem que as mudanças foram resultado da “mão pesada” de restauradores que os precederam.

Quanto à falta de semelhança com Mary Todd Lincoln, um conservador escreveu que "muitos artistas idealizam suas musas."

O historiador do Estado na época, William Alderfer, instruiu aos conservadores que deixassem tanto o broche com a pintura de Lincoln quanto a cruz intactas e a pintura acabou sendo pendurada na mansão do governador.

Bauman se lembra da pintura ter sido restaurada quando ele era curador assistente no Instituto de Arte, entre 1977 e 1978. Embora não haja menção da assinatura do artista nas cartas, ele disse que seus antecessores devem ter notado que "F. B. Carpenter" foi adicionado mais tarde, porque claramente tinha sido colocado em cima do verniz original.

Quando tentou imaginar o motivo pelo qual os restauradores não se aprofundaram nas inconsistências da pintura, Bauman disse que muitas vezes eles acabam considerando os objetos com o qual eles estão trabalhando como filhos adotivos. "Eles não são propriamente nossos mas de alguma forma se tornam parte de nossas vidas e queremos vê-los bem", disse.

Em maio passado, Cornelius visitou o estúdio de Bauman e os dois homens discutiram o que Bauman havia encontrado. Eles olharam para o retrato e Bauman lembrou que logo em seguida Cornelius disse: "Essa não é Mary Lincoln."

Bauman respondeu: "Além de não ser Mary Lincoln, tampouco é uma pintura de Francis Carpenter.”

O retrato restaurado não será devolvido para a mansão do governador, disse Cornelius. A pintura original da mulher desconhecida deve ser pendurada na biblioteca de Lincoln. Ela perdeu a maior parte de seu valor (que estava assegurado valendo US$ 400 mil), disse, mas ainda vem com uma história intrigante. E essa história tem a vantagem de ser verdadeira.

Por Patricia Cohen

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