Procedimentos complexos dificultam averiguação de uso de armas químicas

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Segundo associação , o ideal é ter acesso imediato e irrestrito ao local suspeito de ter sido atacado, o que é difícil para lugares como a Síria, fechada para peritos independentes

NYT

O passo mais importante para determinar o possível uso de armas químicas é o acesso imediato e irrestrito de peritos independentes ao local suspeito de ter sido atacado, de acordo com a organização americana Médicos pelos Direitos Humanos, uma das primeiras a documentar o uso pelo Iraque de gás venenoso contra os curdos em 1988.

No conflito sírio, esse passo pode ser o mais difícil, disse Susannah Sirkin, uma conselheira sênior da organização em Cambridge, Massachusetts. As regiões onde as armas químicas podem ter sido utilizadas são de difícil acesso devido às restrições governamentais a organizações independentes que querem entrar no país.

Hagel: EUA suspeitam de uso de armas químicas por Síria, diz secretário de Defesa

AP
Presidente sírio, Bashar Al-Assad cumprimenta parlamentar iraniano em Damasco (foto de arquivo)

Kerry: Otan precisa se preparar para reagir à ameaça química da Síria

"Isso apresenta um desafio para qualquer um que tente avaliar se eram ou não armas químicas, o que eram e quais lesões causaram", disse.

Em 19 de março, o governo sírio e os rebeldes sírios se acusaram de terem utilizados armas químicas no norte da província de Aleppo. A Médicos pelos Direitos Humanos solicitou que investigações imediatas fossem realizadas por peritos independentes de todos os locais onde foi mencionado o uso de armas químicas, e tanto os grupos rebeldes quanto o governo sírio solicitaram uma investigação independente da ONU.

Um mês depois, o brigadeiro-general israelense Itai Brun, chefe de pesquisa e análise na Inteligência do Exército, afirmou que forças de Assad usaram armas químicas em confrontos contra os rebeldes. Segundo ele, evidências visuais dos supostos ataques, como imagens de pessoas feridas, indicam o uso desse tipo de armamento não convencional.

Sarin: Israel acusa governo Assad de usar armas químicas contra rebeldes sírios

O secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, disse que a Inteligência americana concluiu, "com algum grau de confiança", que o regime sírio de Bashar al-Assad usou o gás venenoso sarin, que atinge o sistema nervoso, como arma contra os rebeldes que tentam depor o regime na guerra civil de dois anos do país.

Sirkin observou que o tempo estava passando e que a evidência poderia estar deteriorando. Em circunstâncias ideais, segundo ela, os investigadores realizariam exames clínicos completos de qualquer um que tenha sido ferido ou morto, e analisaria amostras de sangue, urina, solo, resíduos, roupas e quaisquer traços de sistemas de entrega de armas, como bombas ou latas. "Isso geralmente não vai acontecer pois afinal das contas, trata-se de uma guerra", disse.

Se não há acesso direto ao local, os investigadores tentam reunir o maior número possível de entrevistas de pacientes e outras testemunhas oculares.

Obama: Líder da Síria será responsabilizado se tiver usado armas químicas

As agências de inteligência analisariam quais armas químicas os combatentes eram conhecidos por possuir. Se o uso das armas for confirmado, eles procurariam, na tentativa de determinar quem as utilizou, fatores como a forma como foram entregues, quais dos combatentes possuíam essa capacidade e informações por quem as ordens poderiam ter sido emitidas.

Em um ambiente de guerra, Sirkin disse que há muitos casos "parecidos com armas químicas e osbervadores legítimos, incluindo médicos, podem legitimamente acreditar que se tratavam de armas químicas, mas que podem ou não terem sido utilizadas".

"Não é fácil saber a menos que você seja um especialista", disse ela.

Determinar o que foi utilizado em um ataque é importante não só do ponto de vista dos direitos políticos e humanos, mas também do ponto de vista de saúde pública de modo que os cuidados adequados possam ser administrados.

Qualquer pessoa com acesso a esses locais deve tentar preservar alguma evidência, pois como armas químicas são utilizadas raramente, os especialistas ainda estão aprendendo sobre novas formas de detectá-las.

Mesmo sem acesso direto e imediato a um local, os investigadores podem fazer progressos, embora não sejam sempre capazes de tomar uma decisão final. Sirkin disse que sua organização foi surpreendida no caso do Iraque pelo quanto conseguiu descobrir por meio de entrevistas com fugitivos e retornaram anos mais tarde para recolher amostras.

Ela disse que se lembrou de não ter conseguido entrar no Iraque, em 1988, e se perguntou se a questão de saber se produtos químicos foram usados nas áreas curdas jamais seriam respondidas.

A Médicos pelos Direitos Humanos acabou entrevistando refugiados que fugiram para a Turquia. Com base no relato de sintomas e descrições de pessoas a respeito do que " tinham visto, ouvido, cheirado e sentido", o grupo declarou que acreditava que o gás mostarda e um agente que atua sobre o sistema nervoso tinham sido utilizados.

Quatro anos mais tarde, quando o grupo chegou ao local, encontrou rastros de elementos em decomposição do agente sarin. "Não sabíamos que os vestígios poderiam ser detectados quatro anos depois de seu uso."

Ela descreveu uma lista dos sintomas causados por substâncias que agem no sistema nervoso, a interferência no controle muscular e funções orgânicas. "Dentro de um minuto pode-se esperar visão turva, dor nos olhos, lacrimejamento, salivação, náuseas e vômitos, perda de função da bexiga e do intestino, aperto no peito e dificuldade respiratória, alteração do estado mental, fraqueza muscular generalizada e espasmos."

"Seria melhor se elas não fizessem parte do arsenal de ninguém, pois são muito perigosas e assustadoras", disse. "Não é à toa que os líderes do governo, da ONU e da população da Síria acreditam que essas armas nunca deveriam ser utilizadas."

Por Anne Barnard

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas