Presidente afegão aposta em difamar EUA para anular imagem de fantoche

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No que deve ser seu último ano de mandato, Karzai intensifica a crítica contra os aliados americanos e recorre ao nacionalismo na esperança de salvar seu legado político

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Um dos maiores marcos da política afegã se encontra em um semáforo que costumava ficar na praça Ariana em frente ao palácio presidencial, local onde a milícia islâmica do Taleban enforcou Najibullah, o último presidente do governo comunista, logo depois que invadiu Cabul, em 1996.

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Essa história, e a realidade de que cada líder moderno afegão foi deposto ou morto, certamente não passaram despercebidas pelo presidente Hamid Karzai enquanto enfrenta o que deve ser seu último ano de mandato, com a retirada dos soldados americanos em andamento.

Com o objetivo de ter um fim mais nobre do que seus antecessores depois de seu longo mandato, Karzai faz uma aposta: intensifica a difamação de seus aliados americanos em fase final em território afegão, arriscando perder o apoio que eles depositam nele a fim de se salvar politicamente.

Mesmo enquanto seu governo negociava os termos para uma presença prolongada dos soldados americanos no Afeganistão, no início do mês ele ordenou a retirada das forças de Operações Especiais de uma província crítica, levantou especulações sobre conspirações da CIA, rejeitou condições americanas para entrega de detentos e, mais recentemente, até equiparou os EUA e o Taleban como forças complementares que trabalham para minar seu governo.

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Entrevistas com líderes tribais, empreendedores, analistas políticos e diplomatas retrararam um líder que tenta desesperadamente modificar a imagem de que é partidário dos EUA, apelando para sentimentos nacionalistas e invocando a soberania do Afeganistão.

Muitos, porém, acreditam que Karzai não consegue avaliar plenamente os riscos que toma ao apostar que os EUA comprometerão bilhões de dólares em ajuda militar e econômica para os próximos anos apesar das crescentes divergências com ele, dos desafios orçamentais e econômicos e da fadiga depois de uma longa guerra.

Muitos observadores afegãos disseram que Karzai tenta manter-se politicamente potente durante o último ano de seu mandato apelando pelo menos para três círculos eleitorais afegãs: sua base étnica pashtun; líderes étnicos tajiques e hazaras em seu governo, e, notavelmente, o Taleban, que rejeitarou negociações com ele.

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Em discursos prévios, Karzai tem, por vezes, adotado o tom de que deseja ser o líder afegão que poderia unir as facções do país, até mesmo incluindo o Taleban ao meio político após sua retirada do campo de batalha.

Mas já que suas palavras exerceram pouco poder sobre os americanos, muitos afegãos não acreditam nele.

"O presidente Karzai gostaria de ser retratado como um herói nacional", disse Malek Sitez, conselheiro da Sociedade Civil e Rede de Direitos Humanos do Afeganistão. "Ele adota uma política contrária aos estrangeiros, e muitas pessoas comuns no Afeganistão gostam disso. Mas Karzai não entende como ele e seu governo são totalmente dependentes economicamente da comunidade internacional, e ele não entende o impacto de seus discursos nessa relação."

Para outros, há pouca fé no governo afegão ou nos americanos.

"Agora Karzai tenta enganar as pessoas de que simpatiza com o povo afegão e também tenta mostrar aos militantes 'agora sou independente dos americanos'", disse Hajji Abdul-Majeed Khan, um líder tribal de Arghistão, um distrito na Província de Kandahar, onde Karzai já teve apoio. "Não acho que Karzai e americanos têm disputas em tudo - ambos jogam um jogo duplo para lançar poeira nos olhos das pessoas e trazer um outro governo fantoche para o Afeganistão."

Um presbítero na Província de Khost, no sudeste do Afeganistão, sugeriu que os comentários negativos de Karzai eram muito mais pessoais do que universais.

"Nem todos os afegãos compartilham de suas opiniões e ideias", disse o ancião Yusuf Entezar. "Não vamos esquecer que, durante muito tempo, houve muita discordância entre Karzai e os americanos. E ele não foi capaz de reforçar o Estado de direito, e agora tenta realizar algumas ações que possa mostrar para as pessoas."

Muitos afegãos que fazem parte do governo ou são autoridades tribais também passaram a contar com os projetos de desenvolvimento e de segurança fornecidas por soldados e civis americanos.

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Quaisquer reclamações dos EUA em relação às recentes declarações de Karzai, de que existiria um conluio entre o Taleban e os americanos, é insignificante em comparação à reação da milícia islãmica. Ela emitiu uma resposta em 11 de março, rejeitando Karzai como um hipócrita miserável, que se alimentaria e se vestiria com a ajuda dos dólares americanos.

Nacionalismo "não resgatou Najibullah e nem resgatará Karzai, a nação afegã é uma das nações do mundo que conhecem seus fantoches e seus heróis", disse o comunicado do Taleban, escrito por um homem identificado como Qari Habib.

"No final de seu mandato, Hamid Karzai recorre à mesma hipocrisia que o Dr. Najibullah", continuou a declaração. "Vamos lhe dar um conselho: não tome esse caminho, pois ele o levará à praça Ariana."

Por Alissa J. Rubin

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