Obama encara encruzilhada de simbolismos em roteiro de visita a Israel

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Presidente dos EUA confronta a realidade de que em um país tão apegado aos seus símbolos, qualquer local que ele escolha visitar - ou não - pode provocar alvoroço

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O presidente Barack Obama planeja visitar a Igreja da Natividade, mas não o Muro das Lamentações em sua viagem para Israel nesta semana. Ele falará no Centro de Convenções de Jerusalém, mas não no Knesset, parlamento de Israel. E inspecionará uma bateria de defesa antimísseis móveis, mas não os que se encontram no campo protegendo Israel de inimigos.

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Presidente Barack Obama e premiê israelense Benjamin Netanyahu se encontram em Salão Oval da Casa Branca, nos EUA (foto de arquivo)

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Essas e uma série de outras decisões foram feitas pela Casa Branca e se destinam a orquestrar cada minuto da primeira visita de Obama a Israel como presidente. Mas antes mesmo de partir, Obama está enfrentando a realidade de uma terra tão carregada por simbolismo - qualquer lugar que ele escolher visitar ou não visitar poderá ser motivo de alvoroço.

Autoridades israelenses expressaram decepção pelo fato de que o presidente americano não visitará o Knesset, enquanto especialistas do Oriente Médio têm questionado como ele pode visitar a Igreja da Natividade, um dos locais mais sagrados do Cristianismo, sem parar no Muro das Lamentações, sagrado para os judeus, ou na Mesquita al-Aqsa, sagrada para os muçulmanos.

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"Qualquer visita presidencial a Israel é muito delicada, porque Jerusalém é crucial para as três religiões mundiais, e tudo sobre a Terra Santa é altamente simbólico e normalmente contestado", disse Martin Indyk, embaixador dos EUA para Israel.

O simbolismo é ainda mais central nessa viagem, porque a Casa Branca reduziu as esperanças de que Obama levará consigo uma nova iniciativa para reaviver o diálogo de paz entre Israel e a Palestina. 

O itinerário de Obama, como é com toda a viagem presidencial, é produto de exaustivas negociações entre a Casa Branca e o governo do país a ser visitado. A brevidade da estada - Obama ficará em Israel por menos de 48 horas - e as restrições rigorosas da segurança levaram à rejeição de algumas ideias.

Indy, agora o diretor de política externa no Instituto Brookings, tem experiência pessoal com os conflitos diplomáticos envolvendo uma visita presidencial a Israel. Em 1996, ele preparou uma visita do presidente Bill Clinton, que estava ansioso para ir aos três locais religiosos.

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As esperanças de Clinton foram por água abaixo quando Ehud Olmert, um ex-premiê israelense que havia sido prefeito de Jerusalém, insistiu em acompanhá-lo à Mesquita al-Aqsa. Esse plano foi vetado pelas autoridades palestinas que possuem a custódia da mesquita, e Clinton cancelou as três visitas. 

Embora a Casa Branca não queira discutir sua agenda, um oficial de alto escalão disse que o Muro das Lamentações, que Obama visitou em uma viagem a Israel durante a campanha de 2008, não pode ser incluido no itinerário devido a extensa quantidade de segurança que seria necessária para que isso acontecesse.

Quanto à Igreja da Natividade, segundo uma autoridade, a visita é apropriada uma vez que a Basílica, que data de 327 a.C. e é tida como a mais antiga igreja cristã ainda em atividade no mundo, tem um profundo significado para milhões de cristão. Também simboliza os direitos das minorias cristãs no mundo árabe.

A geografia tem um papel importante também: a igreja fica em Bethlehem, na Cisjordânia, controlada pela Palestina. O presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, seria o anfitrião mais provável para Obama.

"Cria um senso de paridade para os palestinos", disse Ghaith al-Omari, diretor executivo da Força Tarefa Americana na Palestina. "Dá à visita um componente cultural, em vez de simplesmente uma série de encontros a portas fechadas com a autoridade palestina em Ramallah."

Para os israelenses, há muito o que se aproveitar do itinerário de Obama. Além de Yad Vashem, o memorial do Holocausto, que é uma parada obrigatória para qualquer chefe de Estado, o presidente vai colocar uma coroa de flores no túmulo de Theodor Herzl, o escritor que é considerado o pai do sionismo moderno. Ele também visitará o Museu de Israel, onde vai ver os pergaminhos do Mar Morto, uma coleção de textos hebraicos que simbolizam uma ligação antiga entre o povo judeu e a terra de Israel.

A Casa Branca optou que Obama fizesse o principal discurso da sua visita no Centro de Convenções Internacional de Jersualém em vez do Knesset. Uma autoridade de alto escalão disse que a escolha reflete o interesse do presidente em atingir os israelenses mais jovens. De acordo com autoridades israelenses, a Casa Branca também se preocupa com a possibilidade de Obama ser vaiado dada a reputação de indisciplina do Knesset.

O premiê Benjamin Netanyahu disse na última semana que esperava mostrar a Obama "uma Israel diferente". 

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O embaixador de Israel nos Estados Unidos, Michael Oren, disse estar "muito satisfeito" com a forma como a viagem foi planejada. Ao levar em consideração que a visita de Obama ocorrerá na semana antes da Páscoa, Oren não resistiu em comparar a ocasião a um Sêder - refeição tradicional do Pessach, a Páscoa judaica.

"Tudo sob a mesa do Sêder – desde o pernil de cordeiro à salsa – está repleto de simbolismo", disse. "Assim, também está cada item no itinerário do presidente."

Por Mark Landler

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