Cardeais procuram 'papa Rambo 1º': deve ter charme magnético e determinação

Por NYT | - Atualizada às

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Participantes de conclave de novo papa, que começa nesta terça, querem encontrar alguém com o carisma de João Paulo 2º e com postura firme para lidar com problemas do Vaticano

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Nenhum candidato a papa pode ser completo. Mas os cardeais que elegerão o próximo pontífice da Igreja Católica a partir desta terça-feira parecem estar em busca de alguém que combine o carisma do papa João Paulo 2ª com a determinação que um analista do Vaticano chamou, com um pouco de ironia, do "papa Rambo 1º".

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Basílica de São Pedro é refletida em poça d'água perto do Vaticano (11/03)

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Embora seja muito cedo para falar dos candidatos, dicas sobre as características procuradas em um pontífice podem ser captadas pelas declarações dos cardeais que passaram a semana passada em reuniões no Vaticano. Antes de quarta, quando pararam de dar entrevistas, os cardeais frequentemente citavam atributos que a igreja precisa: um comunicador convincente que conquiste almas por meio das palavras e de seu comportamento santo e ao mesmo tempo seja um xerife destemido que possa enfrentar a desordem e o escândalo no Vaticano.

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Seu foco em comunicação e na boa governança é em muitos aspectos um reconhecimento das deficiências de Bento 16, que partiu em um helicóptero para uma aposentadoria inesperada no dia 28, depois de um complicado mandato de oito anos. Mas é também um sinal da nostalgia por João Paulo 2º, uma presença magnética que comandou os holofotes em viagens ao redor do mundo e até mesmo enquanto agonizava.

Sob o mandato de Bento 16, a Igreja perdeu influência na Europa, nos EUA e até mesmo na América Latina. A burocracia central em Roma, na Cúria, ficou ainda mais disfuncional e enfrentou até mesmo corrupção. Cardeais de vários países comentaram na semana passada que estavam seriamente preocupados com os recentes relatos na mídia italiana sobre um dossiê secreto dado a Bento antes de sua partida, que continha provas explosivas de chantagem sexual e financeira. A documentação deve ser mostrada ao próximo papa.

Poucos candidatos vêm com todos os talentos esperados, e os meios de comunicação italianos até cogitaram a possibilidade de que os cardeais considerem montar uma "dobradinha" que junte um papa pastoral com um experiente secretário de Estado que poderia atuar como um administrador e, se necessário, como alguém que faça cumprir a lei.

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Área das bênçãos é vista atrás de estátua de São Pedro na praça homônima no Vaticano (11/03)

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O próximo pontífice pode não precisar reprimir as brigas e delitos do Vaticano, mas deve ter pelo menos a inteligência administrativa para nomear um vice suficientemente destemido para enfrentar a entrincheirada burocracia do Vaticano.

"A primeira coisa que ele terá de fazer é colocar ordem na administração central da Cúria", disse o cardeal Edward Egan, arcebispo emérito de Nova York. "Ele tem de estar disposto a aceitar as críticas."

E, ao mesmo tempo, "ele precisa ser um homem que entenda a fé e pode anunciá-la de uma forma atraente e descomplicada", disse Egan, que votou no conclave que elegeu Bento, mas agora está um pouco além do limite de idade de voto de 80 anos.

Na quinta, todos os 115 cardeais com direito a voto haviam chegado a Roma. Desde a semana passada, eles se reúnem a portas fechadas para ouvir uns aos outros sobre os desafios enfrentados pela Igreja. Para aqueles cujos nomes foram levantados como possíveis candidatos a papa, os discursos servem em parte como audições.

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Qualquer sério candidato papal tem de estar sempre em oração, ter alto conhecimento teológico e ser fluente em italiano, a língua do Vaticano e de Roma, que é, afinal, a diocese do papa.

Vários cardeais também disseram que o próximo papa deve ter tido experiência como bispo de uma diocese. Essa descrição poderia excluir alguns cardeais que serviram a maioria de seus anos na Cúria e aqueles com pouca experiência pastoral, como o cardeal Gianfranco Ravasi, o italiano erudito a quem Bento deu a honra de pregar no recente retiro quaresmal do Vaticano.

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Chaminé por onde sairá fumaça anunciando eleição de novo papa é vista no teto de Capela Sistina, na Basílica de São Pedro, Vaticano (11/03)

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O cardeal Donald Wuerl, arcebispo de Washington, disse: "Ser um pastor de uma igreja local, acho, seria um fator muito importante se há essa ideia de renovação espiritual da Igreja."

Vários cardeais também enfatizaram que um papa deve ser capaz de aproximar-se de outras religiões, melhorar as relações com os bispos de todo o mundo e apresentar a doutrina católica com rigor.

Muitos daqueles mencionados como possíveis candidatos dizem ter talentos comprovados como administradores, seja em suas arquidioceses, na Cúria ou em ambas. Entre esses estão os cardeais Angelo Scola, arcebispo de Milão; Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo; Peter Erdo, arcebispo de Esztergom-Budapeste e primaz da Hungria; Leonardo Sandri, argentino com longa experiência na Cúria; e Marc Ouellet, canadense que lidera a poderosa Congregação do Vaticano para os Bispos.

Mas muitos desses têm pouco carisma. Erdo e Ouellet ficam mais confortáveis lendo discursos preparados do que falando espontaneamente diante de multidões ou em entrevistas.

Outros cardeais, entretanto, viram suas reputações crescerem com sua capacidade de comunicar com as massas. Um deles é Luis Antonio G. Tagle, das Filipinas. Mas sua idade, apenas 55 anos, não o beneficia. Ele é o segundo cardeal mais novo atrás apenas de Baselios Thottunkal, da Índia.

A idade é um critério importante, especialmente após a renúncia de Bento 16, que tem 85 anos. Muitos cardeais concordam que o futuro papa deveria estar na casa dos 60 anos. O cardeal Wilfrid F. Napier, da África do Sul, sugeriu em uma entrevista que era hora de um longo papado para levar a cabo os esforços para fortalecer a Igreja.

"Você precisa de mais tempo para construir sobre esses alicerces", disse Napier. "Precisamos de um papado mais longo para produzir energia e manter o ritmo." Ele acrescentou: "Percebi por meio de conversas informais que alguns dos outros cardeais também estão seguindo nessa direção."

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Sol se põe atrás de estátuas no topo da coluna Bernini na Praça de São Pedro, Vaticano (04/03)

No passado, teria sido impensável ter um sério candidato papal dos EUA, mas os observadores do Vaticano dizem que, pela primeira vez, há entusiasmo em relação a dois americanos que têm carisma e fortes características administrativas: o cardeal Timothy Dolan, de Nova York, e o cardeal Sean Patrick O'Malley, de Boston, um frade franciscano.

Apesar de ainda ser pouco provável que qualquer um deles se torne papa, em grande parte porque os EUA ainda são vistos como uma superpotência global cujos interesses nem sempre se encaixam perfeitamente com os da Igreja Católica, esse conclave é o primeiro a quebrar o tabu. "Pela primeira vez os americanos estão sendo seriamente considerados, e isso é novidade", disse Marco Politi, um veterano vaticanista na Itália.

Por Laurie Goodstein e Daniel J. Wakin

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