Para vítimas de estupro na Índia, polícia também é parte do problema

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Mulheres que foram violentadas sofrem com o descaso de agentes, que na maioria das vezes se preocupam mais em reconciliar a vítima com o agressor do que investigar o crime

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Pouco tempo depois de contar à polícia que havia sido estuprada, uma mulher de Nova Délhi, capital da Índia, olhou pela janela de seu apartamento e viu o homem que a violentou rindo junto a um policial que havia lhe dado uma carona de volta da delegacia.

"O policial me perguntou por que eu queria apresentar uma queixa", disse a mãe de 30 anos de idade em uma entrevista recentemente. "Ele disse que eu não seria levada a sério a menos que concordasse em resolver as coisas sem uma investigação."

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Depois de sofrer meses com a intimidação do homem que a violentou e com a indiferença da polícia, por conhecer seus direitos, ela conseguiu com que seu suposto estuprador fosse finalmente preso. Um processo judicial está em andamento.

Um caso muito mais proeminente, o estupro brutal em um ônibus em Nova Délhi e a posterior morte da vítima em dezembro, fez com que a postura do país em relação à violência contra as mulheres fosse reavaliada. Mas apesar de o país estar lidando com a questão, uma força poderosa fica no caminho de qualquer mudança fundamental: a polícia, corrupta e facilmente suscetível à interferência política, predominantemente masculina e insatisfeita.

"Se você é uma mulher em perigo, a última coisa que você quer é recorrer à polícia", disse Vrinda Grover, uma advogada de direitos humanos de Nova Délhi.

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Em muitos casos de violência sexual, a polícia passa mais tempo tentando reconciliar o estuprador e a vítima do que investigando os fatos. Normalmente, de acordo com especialistas, a polícia é mal organizada para lidar com crimes graves, especialmente aqueles contra as mulheres.

O tratamento dispensado às mulheres pela polícia é tão preocupante que hoje as leis proíbem que policiais prendam ou até mesmo levem as mulheres para serem interrogadas durante a noite. Em muitos casos, a polícia tem usado sua autoridade para entregar mulheres vítimas de abuso nas mãos de seus agressores.

Reformas policiais foram propostas ao longo de décadas, mas poucas foram postas em prática, pois muitas delas determinam que os oficiais estejam menos suscetíveis à interferência política - algo que não interessa aos políticos.

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Dentre todos os problemas que afetam a polícia, defensores dos direitos das mulheres apontam a tradição cultural como o mais difícil de ser solucionado.

No dia 26 de dezembro, uma mulher de 18 anos de idade de Punjabi cometeu suicídio depois que policiais se recusaram, durante cinco semanas de insistência, a prender os homens suspeitos de estuprá-la e, em vez disso, a pressionaram para que se casasse com um dos agressores.

Dessa forma, muitas mulheres indianas acabam se casando com seus estupradores e a polícia desperdiça as primeiras horas de uma possível investigação buscando apenas essa resolução, disse Ravi Kant, presidente do Shakti Vahini, um grupo de defesa sem fins lucrativos. "Esse primeiro dia de investigação é quase sempre desperdiçado com isso."

Suman Nalwa, um vice-comissário da polícia de Nova Délhi, disse que mudar a mentalidade da maioria dos policiais, muitos deles nascidos em pequenas aldeias no subúrbio de Nova Délhi, "é um processo difícil, (que) não dá para ser feito num estalar de dedos".

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Mais de 80% dos policiais da Índia não têm poder para investigar crimes ou mesmo emitir multas - na maioria das vezes esse poder é atribuído a forças paramilitares que normalmente não costumam fazer o trabalho mais tradicional da polícia. Apenas 5% dos policiais são mulheres embora o governo tenha anunciado recentemente que contratará mais policiais mulheres.

"É uma triste realidade que a polícia não seja confiável neste país", disse Nirmal K. Singh, um ex-diretor adjunto do Departamento Central de Investigação.

Conspirações entre a polícia e os políticos são comuns. Centenas de moradores foram mortos em tiroteios policiais com motivações políticas e flagrantes de prisões políticas ocorrem com freqüência.

Duas mulheres que vivem perto de Mumbai foram presas recentemente por uma publicação no Facebook que educadamente questionava a deferência dada a um falecido líder político. Um professor em Calcutá foi preso depois de encaminhar uma charge por e-mail, e um agricultor em Bengala Ocidental foi detido depois de ter realizado uma pergunta difícil ao ministro-chefe do Estado em um comício político.

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Para a mulher de Nova Délhi que disse que a polícia se recusou a levar a sério sua queixa de estupro, a politização da polícia significa que a Justiça é feita apenas para aqueles com contatos.

Quando seu estuprador ameaçou sua filha de 12 anos, ela virou-se para um de seus irmãos para que entrasse em contato com um político poderoso. Eventualmente, a polícia entrou em ação.

Quando perguntado sobre o caso, um supervisor da polícia disse que iria verificar os detalhes, mas até o momento não houve resposta de sua parte. "Durante todo esse tempo, eu vivia com medo de o meu marido ser morto ou meus filhos serem sequestrados, pois eu sabia que a polícia não ajudaria se isso acontecesse", disse a mulher.

"Eu não confio na polícia. Se você tem dinheiro ou contatos, você terá Justiça. Se não tiver, pode esquecer. "

Por Gardiner Harris

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