Halterofilismo feminino é motivo de orgulho nos Emirados Árabes Unidos

Mulheres lutam contra o preconceito em torno de um esporte considerado "para homens"

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Em um ginásio particular escondido no labirinto de casas do distrito de Jumeirah em Dubai, Amna Al Haddad, de 22 anos de idade, ajeitou o lenço em sua cabeça, inclinou-se e começou a levantar um peso de 45 quilos, quase seu peso corporal.

"Eu consigo levantar um menino", disse.

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Amna Al Haddad sofre preconceito por competir em um "esporte de homem"

Al Haddad é uma das 12 mulheres que treinam como halterofilistas profissionais nos Emirados Árabes Unidos, e luta contra o estigma deste que é considerado um "esporte para homens", em um país árabe, cuja tradição da população local - apesar da presença de biquínis estrangeiros já terem invadido o país há décadas – é muçulmana conservadora.

Saiba mais: Especial do iG sobre mulheres no mundo árabe e muçulmano

O halterofilismo é muitas vezes confundido com o fisiculturismo nos Emirados Árabes, e as mulheres que participam são muitas vezes vistas como masculinas demais ou lésbicas, o quê é um crime nos Emirados Árabes Unidos.

Halterofilistas mulheres foram avisadas de que o esporte irá torná-las pouco atraentes para seus pretendentes masculinos. E o casamento ainda é considerado o evento mais importante na vida de uma jovem mulher dos Emirados.

"Muitas mulheres dizem: 'Nossa, olha seu corpo", comentou Al Haddad. "Elas me perguntam como ficar magra, e quando eu digo que é através do levantamento de peso, elas ficam com medo. Mas estamos no século 21. Eu não quero me casar até eu conseguir participar dos Jogos Olímpicos."

O halterofilismo é o único esporte que possui uma equipe de mulheres das seis nações do Conselho de Cooperação do Golfo, que inclui a Arábia Saudita, Kuwait, Omã, Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos.

Os Emirados Árabes Unidos permitiram que as mulheres pudessem praticar o halterofilismo a partir de 2000. Em 2008, separaram as federações do fisiculturismo e do halterofilismo, diminuindo a aparência não feminina ligada ao fisiculturismo em comparação ao halterofilismo.

Com o apoio do Conselho de Esportes de Dubai, a federação colocou ênfase no esporte, ao focar no recrutamento de atletas que não iriam tender ao fisiculturismo.

Em 2009, contrataram um novo treinador, Najwan El Zawawi, um egípcio que competiu por seu país de origem nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000.

No ano passado, a Federação Internacional de Levantamento de Peso suspendeu a proibição do véu durante a competição, abrindo as portas do esporte para atletas muçulmanos.

Em abril, os Emirados Árabes Unidos, enviou uma equipe para o Campeonato Asiático de Halterofilismo em Pyeongtaek, Coreia do Sul, tornado essa a primeira vez que a equipe participou de uma competição internacional.

O desempenho do grupo foi bom o suficiente para garantir a Khadija Mohammed uma vaga para as Olimpíadas de Londres, efetivamente colocando os Emirados no mapa mundial do esporte.

Mas o programa ainda está mal financiado, e o estigma contra as atletas do sexo feminino é enorme.

"Nossos recursos são menores do que outros países com uma cultura de atleta femininas, como o Cazaquistão", disse Faisal al-Hammadi, o secretário-geral da Federação de Halterofilismo dos Emirados Árabes Unidos.

Ele espera que os recém finalizados Jogos Olímpicos mudem as coisas, como em 2005, quando Dubai sediou o Campeonato Asiático de Halterofilismo. Foi a primeira vez que a maioria das mulheres dos Emirados ficaram sabendo sobre o esporte.

"Depois disso, elas perceberam que era um esporte do qual elas poderiam participar ", disse ele."Amigas e irmãs entraram para a equipe."

"Pessoas como nós, quando vêem alguém como elas praticando o esporte, se identificam imediatamente." Elas percebem que "você ainda pode amar e respeitar suas crenças", e ao mesmo tempo ser um atleta.

As esperanças são altas de que a equipe feminina irá eventualmente chegar na altura da equipe masculina, que treinam no ginásio Dubai Al Shabab Al Arabi Club e possuem mais de 35 praticantes.

Em um treino recentemente, Al Haddad, na companhia de um instrutor masculino, vestia uma lycra com shorts e uma camiseta de manga curta que dizia "A Fera" em negrito, uma concessão à tradição.

O suor escorrendo pelo seu rosto, ela bebeu um suplemento de aminoácido e disse que se livrou da dor – e dos comentários negativos – ao pensar em quatro coisas: ". Foco, respiração, alongamento e Olimpíadas"

Por Karen Leigh

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