Mais de dois anos após tremor, casa ainda é sonho para muitos haitianos

Apesar de investimentos, milhares de desabrigados pelo terremoto de 2010 ainda vivem em abrigos e acampamentos

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Desde o terremoto de 12 de janeiro de 2010 em Porto Príncipe, no Haiti, um menino de 12 anos chamado Givenson Fanfan tem dormido no chão de uma tenda montada em um acampamento dominado por uma pilha de 15 metros de lixo. Ele vive sonhando com o dia em que poderá dormir novamente em uma cama.

Em uma comunidade perto de uma montanha, Terilien Brice, um senhor de 63 anos de idade que foi gravemente ferido no terremoto, mora isolado em sua casa condenada, que foi marcada com uma etiqueta vermelha que significa que o local não é habitável, mas mesmo assim ele não sai de lá. Ele não sabe mais o que fazer.

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Menina é vista em acampamento de Porto Príncipe, no Haiti, que costumava ser depósito de lixo


Dieu Juste Saint Eloi, 68, garantiu um abrigo de um quarto com paredes de plástico, mas todo o seu clã de 12 pessoas dorme no mesmo quarto. E o abrigo fica perto das ruínas de sua espaçosa casa, na qual sua neta costuma entrar e se machucar.

Em compensação, seu filho de 29 anos, William Saint Eloi, deu sorte. Isolado durante toda sua vida por ser surdo, ele hoje possui uma nova casa e participa de uma nova comunidade, pois duas instituições de caridade cristãs acolheram as vítimas surdas dos desastres.

Dois anos e meio depois do terremoto, apesar dos bilhões de dólares em ajuda para reconstrução, a necessidade mais pertinente – habitação, segura e estável para todas as pessoas deslocadas – ainda não foi resolvida.

No que oficiais internacionais determinaram como uma prolongada crise humanitária, centenas de milhares de pessoas continuam vivendo em acampamentos com condições cada vez mais miseráveis. Dezenas de milhares habitam perigosamente edifícios condenados. E inúmeras outras, que tiveram que sair dos acampamentos, simplesmente desapareceram com suas lonas velhas e chapas de metal enferrujado para as montanhas.

Atualmente, é possível presenciar muitos sinais visíveis de atividade ao redor de todo o país - praças públicas limpas de pessoas sem-teto, reparos sendo realizados em áreas selecionadas e conjuntos habitacionais sendo construídos. Dezenas de milhares de famílias haitianas vêm encontrando soluções duradouras para as crises de habitação ao realizarem a reconstrução de suas próprias casa ou garantindo uma daspoucas recém-construídas pelo governo.

Um documento do Banco Mundial estima que mais de US$ 400 milhões serão gastos em "soluções permanentes de larga escala" – novas casas, consertos e a reconstrução de infraestruturas – atualmente em processo de planejamento, andamento e, em alguns casos, até mesmo concluídos.

Até o momento, no entanto, as soluções temporárias em pequena escala – abrigos transitórios, principalmente acampamentos, e subsídios de aluguel na cidade de um ano – têm absorvido grande parte do orçamento de reconstrução.

Ao mesmo tempo, enquanto mais de 200 mil casas foram danificadas ou destruídas, a ajuda internacional tem realizado cerca de 15 mil novos reparos e 5,7 mil residências permanentes foram construídas até o momento. A maioria das casas novas está localizada na periferia de Porto Príncipe, um local onde é mais fácil de se obter terras para ocupação.

A periferia de Porto Príncipe está repleta de edifícios semi-permanentes e semi-desmoronados, incluindo o Palácio Nacional, que um oficial humanitário descreveu como o "refúgio dos mendigos", um símbolo duradouro da necessidade do Haiti em obter ajuda.

Ninguém sabe exatamente quantos estão vivendo dentro de destroços como esse. Um estudo da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional estimou que 65% das propriedades haviam sido condenadas como não habitáveis desde o ano passado. E uma inspeção de edifícios que durou cerca de um ano marcou quase 80 mil casas em vermelho por não serem habitáveis.

Ao norte da cidade de Porto Príncipe foi construído um composto chamado de Corail Cesselesse, que está localizado perto de um acampamento improvisado construído pelos próprios haitianos. O ambiente abaixo do composto é bem mais pessimista do que o acampamento criado pelo grupo de ajuda, deixando clara a diferença entre os esforços destes grupos e as soluções improvisadas pelos cidadãos.

Na primavera de 2010, grupos internacionais realocaram mais de mil pessoas, que tiveram que sair de uma cidade de tendas considerada perigosa, para esta região. Foi uma realocação bem-intencionada defendida pelo ator Sean Penn, cujo grupo humanitário criou a cidade das tendas. Mas alguns especialistas consideraram essa ação equivocada, imposta a um grupo sem opções.

Exeline Belcombe, uma jovem de 25 anos que andava pelo acampamento e ajudava a convencer as pessoas a se mudarem para lá, serviu como uma ponte entre a comunidade e o grupo de Penn.

Hoje, disse, ela se sente um pouco culpada e decepcionada. "Este lugar não possui casas de verdade. Entre 10 e 12 pessoas morando em um abrigo de um quarto? Isso não é um jeito digno de se viver.”

Laura Blank, porta-voz da World Vision, um grupo que construiu os abrigos e uma escola no local, disse: "Construir habitação permanente não faz parte do objetivo da de nosso programa ". Ela acrescentou que os abrigos eram mais resistentes do que muitos dos outros " abrigos de baixa qualidade construídos por outras organizações "e podem durar até uma década", se bem conservados.

Por Deborah Sontag

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