Troca de favores garante a ex-presidente influência em política do Senegal

Distribuição de recursos acumulados durante governo faz com que ex-líder Abdoulaye Wade domine manchetes dos jornais e ainda seja centro das atenções no cenário político senegalês

The New York Times |

Ele sofreu uma esmagadora derrota eleitoral há menos de três meses, rejeitado por quase dois terços do eleitorado. Alguns de seus principais defensores políticos o abandonaram. Além disso, ele recentemente completou 86 anos de idade e uma vida inteira na política senegalesa.

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Mesmo assim, Abdoulaye Wade, ex-presidente senegalês, ainda é o centro das atenções no cenário político nacional. Wade continua a dominar as manchetes dos jornais dia após dia, ameaçando e defendendo a si mesmo e sua comitiva.

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Ônibus passa por mural com pôsteres de campanha do ex-presidente Abdoulaye Wade, em Dacar

No jogo de sombras da política da África Ocidental, o espírito e a maneira de Wade fazer as coisas ainda persistem, mesmo na ausência de um verdadeiro poder. Assim como a estátua gigante de bronze que ele construiu, mais alta que a Estátua da Liberdade, no topo de um vulcão extinto em Dacar, capital do Senegal, Wade continua a pairar sobre o seu pequeno, porém influente país. Assim, seu secretário de imprensa ainda envia comunicados assinados "presidente".

Wade, um advogado, ainda convoca os jornalistas a ouvi-lo opinar sobre o novo governo (embora não esteja mais vivendo no palácio presidencial). E o jovem político que o derrotou – que não chega a ter nem a metade de sua personalidade – ainda acredita ter de dar satisfação para ele.

E um dos motivos pelos quais Wade não desaparece dos noticiários, segundo analistas, é também a principal razão de sua influência sobre a imaginação das pessoas. O ex-presidente e seus parceiros parecem ter acumulado recursos consideráveis durante seu mandato. Eles usaram esses recursos para consolidar seu controle sobre o poder e para conseguir manter um estilo de vida relativamente confortável.

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Mas isso não é algo bem visto especialmente em um país em uma das piores posições no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. E, com isso em mente, uma agência anticorrupção especial foi trazida de volta à ativa pelo presidente Macky Sall, o ex-protegido de Wade que o derrotou na eleição presidencial de março.

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O governo de Sall disse estar na trilha de bens escondidos no exterior. Além disso, há a frota de veículos que foram colecionados pela presidência senegalesa durante o mandato de Wade, muitos distribuído aos chefes de aldeia como favores. Sall disse que eles pertencem ao Estado e os confiscou.

Para alguns analistas, os carros são símbolos do poder de Wade. "O ex-presidente Wade possui muitos recursos", disse Mamadou Diouf, diretor de estudos africanos na Universidade de Columbia e especialista em Senegal. "As centenas de carros que o Estado possui hoje realmente aponta para a centralidade dos recursos no sistema político. Enquanto ele estiver distribuindo recursos, ele permanecerá no centro do jogo."

*Por Adam Nossiter

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