Dinheiro de cartéis de drogas do México chega a corridas de cavalo nos EUA

Esquema de criação de cavalos era ponto de apoio para lavagem de dinheiro de Los Zetas, um dos mais poderosos grupos narcotraficantes do país latino

The New York Times |

Os recém-chegados raramente alcançam o círculo dos vencedores na Futurity All American, considerada a principal corrida de cavalos dos Estados Unidos.

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No entanto, em setembro de 2010, um grupo de homens com bandeiras mexicanas e pinatas miniaturas chegaram a Ruidoso, Novo México, para reivindicar o prêmio de US$ 1 milhão com um azarão chamado Sr. Piloto.

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Agentes do FBI observam rancho de cavalos em investigação em Lexington, Oklahoma

O proprietário de Sr. Piloto, José Trevino Morales, 45 anos, que afirma ser um pedreiro que cresceu pobre no México, liderava a folia na pista. Do outro lado da fronteira, Ramiro Villarreal, seu associado que havia ajudado a adquirir o potro vencedor, comemorava em um bar com os amigos.

Mas o homem que possibilitou tudo isso foi Miguel Angel Trevino Morales, que vivia uma existência clandestina por ser um dos traficantes mais procurados do mundo.

Miguel Angel Trevino, o irmão mais novo de José Trevino, é o segundo no comando da organização de tráfico de drogas conhecida no México como Los Zetas. Magro e dono de uma testa franzida, ele se tornou o principal executor da organização - famoso por esquartejar suas vítimas enquanto elas ainda estão vivas.

A corrida foi uma das muitas vitórias dos irmãos Trevino, que conseguiram estabelecer uma operação de criação de cavalos de destaque nos EUA, as Empresas Tremor, que lhes permitem lavar milhões de dólares de dinheiro do tráfico de drogas, de acordo com funcionários e policiais federais. A operação era um ponto de apoio nos EUA para uma das mais perigosas redes criminosas do México, disseram os funcionários.

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Usando o dinheiro de Miguel Angel Trevino, a residência legal de José Trevino e o conhecimento de Villarreal de bons cavalos, a Tremor comprou um rancho em Oklahoma e cerca de 300 garanhões e éguas. Os irmãos Trevino poderiam ter mantido a sua operação silenciosa, dada sua ligação com o mundo do crime, mas a sua paixão por cavalos e corridas aparentemente provou ser muito tentadora. No curto espaço de três anos, a Tremor ganhou três das maiores corridas do setor, com prêmios que totalizam cerca de US$ 2,5 milhões.

O negócio era "tão exposto, que é difícil de acreditar", disse Morris Panner, um ex-promotor que lidou com casos de drogas. "Talvez eles estivessem usando algum tipo de lógica perversa que determinava que poderiam se esconder em plena vista, precisamente porque as pessoas não iriam acreditar nela ou questioná-la."

Ação

O Departamento de Justiça abriu uma ação contra a Tremor na semana passada, despachando vários helicópteros e centenas de policiais aos estábulos da empresa em Ruidoso e seu rancho em Oklahoma. José Trevino e vários de seus associados foram levados sob custódia, disseram as autoridades.

Miguel Angel Trevino, 38 anos, e outro irmão, Omar, 36 anos, também foram acusados. Os dois continuam foragidos no México. Omar Trevino também é um membro do alto escalão dos Zetas e uma declaração do FBI apresentada na Corte Distrital dos Estados Unidos o descreve como tendo participado de lavagem de dinheiro.

A declaração afirma que os Zetas canalizaram cerca de US$ 1 milhão por mês para comprar cavalos nos Estados Unidos. As autoridades foram alertadas para atividades da Tremor em janeiro de 2010, quando os Zetas pagaram mais de US$ 1 milhão em um único dia por duas éguas de procriação, segundo o depoimento.

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Propriedade no Texas que era de José Trevino Morales, preso em 12/6 acusado de lavagem de dinheiro

O The New York Times tomou conhecimento das atividades da Tremor em dezembro de 2011 ao reportar sobre os Zetas. O jornal soube da investigação do governo no mês passado e concordou em segurar essa história até as prisões que foram realizadas na terça-feira, dia 19 de junho.

Esquema

Os irmãos Trevino estabeleceram um elaborado esquema em que empresários mexicanos pagavam pelos cavalos - alguns dos quais custavam centenas de milhares de dólares - de suas próprias contas bancárias para as compras parecerem legítimas, de acordo com o depoimento. Os Zetas, posteriormente, reembolsavam os empresários, e a propriedade dos cavalos eram transferidas para a Tremor.

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As atividades dos irmãos em ambos os lados da fronteira estabelece um grande contraste. Uma semana de maio começou com as autoridades acusando Miguel Angel Trevino por despejar os corpos de 49 pessoas - sem cabeças, mãos ou pés - em sacos de lixo ao longo de uma estrada movimentada no norte do México. A semana foi concluida com José Trevino colocando quatro cavalos da Tremor em uma corrida de prestígio na pista Los Alamitos localizada perto de Los Angeles.

Até então, a história de Villarreal já havia chegado a um fim fatal. Não muito tempo depois da vitória de 2010 em Ruidoso, ele foi detido pela Agência de Controle de Narcóticos e relutantemente concordou em trabalhar como informante. Cinco meses depois, seus restos mortais carbonizados foram encontrados em um carro queimado em uma estrada em Nuevo Laredo.

O barulho em torno das vitórias e aquisições da Tremor começou há três anos, quando José Trevino comprou cerca de US$ 3 milhões em cavalos, incluindo um chamado Cartel Number One.

Desde então, ele tem trabalhado com criadores, treinadores e corretores considerados pilares do negócio. A Tremor nem sempre coloca seu nome nos cavalos que põe para disputar corridas, presumivelmente para evitar a atenção dos cobradores de impostos e das autoridades policiais, de acordo com agentes federais.

Mas pessoas dessa indústria financeira em dificuldades não precisam de registros escritos para saber quem faz negócios com quem. E algumas dessas pessoas reconhecem que o assunto da identidade de Jose Trevino e onde ele conseguia dinheiro era tratado como tabu: as pessoas não fazem muitas perguntas ou porque não se importam ou porque não querem saber.

"Todo mundo sabe quem é José Trevino", disse um instrutor de cavalos. "Mas tudo o que importava era saber se os cheques que ele passava seriam compensados."

*Por Ginger Thompson

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