Em meio à indignação popular por alegações de fraude, último líder soviético pede anulação de votação; 1 mil foram detidos desde segunda

O último líder soviético, Mikhail Gorbachev (1985-1991), pediu nesta quarta-feira às autoridades da Rússia que anulem os resultados das eleições parlamentares vencidas no domingo pelo partido do premiê Vladimir Putin e convoquem uma nova votação em meio ao aumento da indignação popular por causa de alegações de fraude eleitoral.

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O pedido para uma votação totalmente nova é um fato memorável para uma eleição que não atraiu muito interesse durante a campanha. Putin queria que o Rússia Unida (RU) fosse bem para abrir caminho para seu retorno à presidência nas eleições de março , mas poucos russos pareciam se importar com as legislativas, com muitos dizendo à Associated Press que os resultados seriam manipulados de qualquer forma.

Com 99,9% dos votos apurados, a governista RU obteve 49,3% das cédulas, o que representa 238 dos 450 cadeiras da Duma, a Câmara Baixa do Parlamento russo. O porcentual conquistado é uma grande queda em relação a 2007, quando a legenda obteve 64% dos votos.

Todos os setores opositores e observadores internacionais foram unânimes ao denunciar graves irregularidades na votação de domingo . As autoridades russas, por sua parte, dizem que a votação foi perfeitamente livres e justas e rejeitam todas as acusações de fraude.

Gennady Zyuganov, o líder do Partido Comunista, a segunda legenda mais votada, denunciou que os resultados foram falsificados para favorecer o governo. Segundo ele, o governo atribuiu a si próprio até 15% a mais de votos do que realmente obteve nas urnas.

Já o presidente da União dos Estudantes da Rússia, Artiom Khromov, disse que os estudantes universitários foram obrigados a votar no partido governista e agora são forçados a se manifestar nas ruas a favor do governo.

De acordo com Gorbachev, as autoridades têm de realizar novas eleições se não quiserem lidar com uma crescente onda de descontentamento. "Os dirigentes do país devem admitir a ocorrência de inúmeras falsificações e fraudes, com os resultados não refletindo a vontade dos eleitores", disse à agência Interfax. Por isso, acrescentou, "considero que as atuais autoridades devem adotar uma só decisão: anular os resultados das eleições e organizar novas".

O ex-líder soviético indicou que "a cada dia que passa cresce o número de russos que consideram que os resultados não foram limpos". "Da minha maneira de ver, ignorar a opinião pública é desacreditar as autoridades e desestabilizar a situação", declarou.

Primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, apresenta documentos para se candidatar às eleições presidenciais de março
AP
Primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, apresenta documentos para se candidatar às eleições presidenciais de março
As declarações do político de 80 anos, cujas reformas mudaram o mundo no último quarto do século 20, ocorrem após dois dias de protestos populares em várias cidades da Rússia, incluindo Moscou e São Petesburgo, com quase 1 mil detidos desde segunda, segundo a agência EFE. A Anistia Internacional acrescentou que, desses 1 mil detidos, cerca de 100 continuam presos.

A dura ação da polícia contra os manifestantes essa semana indica que as autoridades não estão dispostas a dar espaço para protestos, e continuarão a negar aos grupos da oposição permissão para realizar marchas.

Centenas de agentes da segurança foram colocadas nas ruas de Moscou e helicópteros cortavam o céu nesta quarta-feira. Pelo menos 51,5 mil policiais e 2 mil paramilitares estão na cidade desde as eleições.

Esquadrões da polícia fizeram uma fileira nas calçadas que circundam a praça Triunfal de Moscou, enquanto opositores tentavam se reunir. A polícia empurrou os manifestantes para trás e deteve alguns deles, que foram levados aos carros da polícia.  Os manifestantes fizeram diversas tentativas para voltar à praça, mas foram repelidos à força. O porta-voz da polícia de Moscou Anatoly Lastovetsky disse que pelo menos 20 foram detidos.

Em São. Petersburgo, manifestantes se reuniram do lado de fora de um complexo de compras na principal avenida da cidade e muitos gritavam: "Vergonha, Vergonha!". A mídia russa informou que pelo menos 70 opositores foram detidos.

Apesar da repressão, há a previsão de que uma manifestação convocada para sábado seja realizada em Moscou. Na página de convocação no Facebook, 15 mil indicaram que comparecerão, o que representaria um dos maiores protestos na capital russa em anos.

Gorbatchev tem mostrado nos últimos meses uma posição cada vez mais crítica em relação ao regime de Putin e ataca em particular a estagnação do país. As declarações dele foram feitas no mesmo dia em que o premiê registrou sua candidatura para a presidência.

*Com AP, EFE e AFP

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