Bloqueio arruinou economia de Gaza antes das bombas

Embargo de três anos, que Israel agora ameniza, causou desemprego de mais de 50% da população do território palestino

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

AP
Foto de 12/06/2009 mostra funcionário israelense mexer em suprimentos de organizações humanitárias direcionados para Gaza
Em janeiro do ano passado, logo após a ofensiva militar israelense de 22 dias contra a Faixa de Gaza, a destruição não se restringia ao evidente colapso de prédios, casas e fábricas. Era evidente também na economia do território palestino. Estive como repórter por oito dias na região, na semana seguinte ao fim do conflito, e percebi que, ainda mais eficaz que as bombas, foi o bloqueio imposto por Israel contra o grupo extremista Hamas, um ano e meio antes, o maior responsável pela ruína econômica da Faixa de Gaza. É esse bloqueio que o governo de Israel anunciou nesta quinta-feira pretender amenizar .

O embargo começou há três anos, em junho de 2007, depois de o grupo radical islâmico Hamas expulsar as forças do partido laico Fatah e assumir o controle da área. O bloqueio foi uma maneira de sancionar o grupo, que não reconhece o direito de existência de Israel e lançou foguetes Qassam contra território israelense, provocando cerca de 20 mortos antes de dezembro de 2009 – seriam mais vítimas não fossem os bunkers e a tecnologia israelense, com radares e sirenes para identificar os rudimentares e imprecisos projéteis.

Também foi reação ao seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit por milícias palestinas, em 2006. Seis anos antes, por causa do aumento de atentados terroristas em Israel, Jerusalém já fechara as fronteiras e cancelara os vistos para milhares de palestinos trabalharem diariamente no país.

O ataque de comandos israelenses a uma frota de navios com ajuda humanitária à Faixa de Gaza , que deixou nove mortos em 31 de maio, tem como pano de fundo esse rígido bloqueio econômico de Israel ao território palestino.

Idealizado para enfraquecer o Hamas também junto à opinião pública palestina, o embargo asfixiou e desmantelou a economia e empobreceu a população civil da Faixa de Gaza. Em um pedaço de terra de 360 km² a sudoste do território israelense, vivem 1,6 milhão de palestinos.

Situação uniu palestinos ao redor do Hamas

De alguma maneira, o bloqueio uniu os palestinos ao redor do grupo radical. Um ditado árabe repetido em Gaza diz que somos “eu e meu irmão contra meu primo; somos eu, meu irmão e meu primo contra o estranho”. Contra o “estranho” Israel, os palestinos se uniram ao Hamas.

Os bombardeios que mataram mais de 1,3 mil palestinos, a maioria civis, destruíram instalações da ONU e usaram bombas de fósforo branco – material incendiário proibido como arma de ataque – contra áreas densamente povoadas não ajudaram a mudar essa opinião. Crianças que viam seus pais e amigos morrer não alimentam simpatia por Israel.

Cimento, ferro, vidro e uma infinidade de produtos são vetados por Israel sob a alegação de que podem ser usados para fins militares pelo Hamas. Na prática, quase nada entra no território, afora as 15 toneladas de material humanitário que o país permite entrar por semana. Com pouco território para produção, as opções de comida eram escassas e a luz, racionada.

A proibição de importar e exportar destruiu uma nação essencialmente de comerciantes. Dos 15 empregados do marceneiro Zurer Abed, que importava madeira do Brasil, não sobrava nenhum depois de 18 meses de bloqueio; o mesmo aconteceu com os dez funcionários de Falah El Elkhilili, cujo estoque de granito brasileiro se esgotou. Ambos passaram a viver do que tinham ganhado antes. “Os empregados pediam dinheiro e, enquanto eu tinha dava. Agora acabou”, disse Abed. Todos engrossaram a lista dos pelo menos 50% de desempregados que Gaza já tinha antes do conflito. Depois, o número aumentou. Como a tradição palestina é trabalhar em família, a derrocada de um negócio é a falência da família toda.

AFP
Palestinos atravessam ponto de controle em Erez, na fronteira entre Israel e o norte da Faixa de Gaza
Para os próprios palestinos, o embargo e suas naturais conseqüências – desemprego e revolta – estimulam a radicalização e garantem seguidores para o Hamas. “No início a fronteira abria só para comida, agora nem para comida. A maioria das pessoas em Gaza quer trabalhar, viver normalmente, como em qualquer lugar do mundo. O fim do bloqueio enfraqueceria o Hamas”, disse o empresário Omar El Jamal, cujo irmão vendia 50 tapetes por mês antes do bloqueio e no início do ano passado negociava três. A loja exibia apenas quatro tapetes.

Mercadorias e pessoas têm restrições de ir e vir

Os impedimentos não são apenas para a circulação de produtos, mas também de pessoas. Os moradores não podem sair do território, a não ser em casos excepcionais, com autorização específica, para ir a outros países, ou em casos sérios de saúde. Uma das expressões mais ouvidas por quem visitou Gaza depois do conflito era que o lugar é “uma prisão a céu aberto”.

“Tenho dinheiro, US$ 40 mil para gastar em uma viagem à Europa, mas não posso sair de Gaza. Aqui é uma prisão a céu aberto. Somos pessoas educadas. Não queremos cupons de comida, queremos paz. Não quero sua comida, seu dinheiro, quero ter um passaporte, identidade, certidão de nascimento sem ter de passar por Israel”, disse o empresário Bassan Diazada.

De acordo com relatório de rede internacional de entidades – que inclui a Anistia Internacional, Oxfam e a Care – o bloqueio deixou metade da população local desempregada. “A política de Israel afeta a população civil indiscriminadamente e constitui uma punição coletiva contra homens, mulheres e crianças comuns. As medidas adotadas contrariam a lei humanitária internacional”.

Segundo o documento, a situação antes ao conflito era a pior desde o início da ocupação israelense, em 1967. Para as ONGs, “Israel tem o direito e o dever de se defender de ataques indiscriminados de foguetes contra sua população civil, mas a política atual não aumenta a segurança e tem levado à crescente polarização”.

Os 5% que restavam da indústria após o bloqueio foram praticamente eliminados na ofensiva de 22 dias, que resultou em mais de 1,3 mil palestinos e 13 soldados israelenses mortos.

O relatório, segundo o qual 80% da população dependia de ajuda humanitária antes da ofensiva, defende o fim do embargo. A opinião é compartilhada pelo enviado especial do Quarteto para o Oriente Médio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair (1997-2007), que afirmou que o bloqueio é “contraproducente” e não ajudou Israel a recuperar o soldado Shalit.

Soldado seqüestrado é ponto de divergência

A libertação de Shalit – e, mais recentemente, a garantia de visitas regulares da Cruz Vermelha a ele – tem sido uma condição de Israel para a suspensão do bloqueio. Por outro lado, o fim do embargo também é exigido pelo Hamas para uma trégua duradoura. “A política internacional de isolar o Hamas não trouxe nenhum benefício. Pelo contrário, levou a uma crescente polarização pelos territórios palestinos ocupados e resultou em um atoleiro político de Israel”, diz o relatório das ONGs.

Como as fronteiras estão fechadas para importação e exportação, a maior parte dos produtos é contrabandeada do Egito por túneis subterrâneos que passam sob altos muros na fronteira e ligam Rafah, Gaza, a Rafah, no país vizinho. É por eles que passam alimentos, combustível, remédios, produtos eletrônicos, roupas, cigarros e todo tipo de produto que vai parar nas prateleiras de lojas em Gaza. Até animais e motos entram pelos buracos.

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Palestinos vistoriam destroços de uma casa bombardeada durante ataque aéreo de Israel em 29 de dezembro de 2008 em Rafah, Gaza
Os túneis já existiam antes, mas se multiplicaram com o embargo e hoje têm papel fundamental na arruinada economia do território, respondendo por cerca de 80% do comércio. Pela natureza ilegal do empreendimento, os preços dos produtos contrabandeados chegam a quadruplicar, o que penaliza novamente a empobrecida e desempregada população local. Atualmente há cerca de 1,8 mil túneis na fronteira com o Egito. 

Túneis só são invisíveis para quem não quer ver

O transporte de mercadorias é cobrado por quilo, independentemente do produto. Embora irregulares, longe de serem escondidos, os túneis estão ostensivamente instalados a cerca de 100 metros da fronteira, em enormes tendas de plástico ou buracos parecidos com poços artesianos. São claramente visíveis a olho nu pelas guaritas egípcias, que chegavam a avisar aos donos dos túneis sobre a aproximação de aviões israelenses durante a ofensiva do ano passado.

De alternativa ao bloqueio, os túneis se tornaram um negócio próspero, que beneficia quase todos, menos a população de Gaza. Aos egípcios, que vendem seus produtos, não interessa fechá-los do seu lado. Tampouco ao Hamas, que coleta impostos com os donos das passagens subterrâneas.

Israel acusa os túneis de servir ao contrabando de armas para o Hamas, no que deve ter razão. Essa foi uma das justificativas da ofensiva contra o território. Para a opinião pública doméstica, o governo afirmou tê-los bombardeado durante o conflito. Na verdade, estima-se que apenas entre 300 e 400 dos túneis tenham sido atingidos, menos de um quarto do total.Estive na fronteira uma semana após o fim do conflito e vi dezenas de buracos em operação normal. Se Israel realmente quiser, não é necessária sua apurada tecnologia militar para um piloto de avião visualizar do alto os enormes buracos e destruí-los com bombas.

Mas até Israel sabe que não pode fechar a única válvula de escape da panela de pressão em que Gaza se tornou com o Hamas e o bloqueio econômico.

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