Reportagem da "CNN" conversou com refugiadas nos EUA, que contaram como é a vida das mulheres na Arábia Saudita e denunciam sistema de tutela

Número de mulheres que desejam sair da Arábia Saudita não tem relação com o baixo número de pedidos de asilo
Reprodução/CNN - 16.01.2017
Número de mulheres que desejam sair da Arábia Saudita não tem relação com o baixo número de pedidos de asilo

“Então é isto”, diz Arwa assim que se senta no escritório de imigração dos Estados Unidos, localizada em Houston, Texas, no último mês. Ela voou para o país norte-americano há dois anos e, agora, aguarda a resposta para seu pedido de asilo – ansiosa por saber se foi bem-sucedido ou se será forçada a deixar o território americano. A reportagem é da "CNN".

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“O que eu realmente quero é apenas viver uma vida normal, sem medo. Não quero fingir ser outra pessoal, é tudo o que eu desejo”, conta a mulher da Arábia Saudita em sua reunião com os oficiais.

Ainda de acordo com ela, o que realmente a amedronta é ter de voltar ao seu país de origem. “Tenho medo de não conseguir meu asilo, de ter de retornar e, então, morreria jovem. Eu perderia tudo que tentei construir até agora, eu falharia”, afirma.

Quando é confirmado seu asilo, a saudita assina os papeis e, feliz, afirma. “Não preciso ir para outro lugar”.

Arwa chegou aos Estados Unidos para estudar e, depois disso, acabou voltando para a Arábia Saudita. Porém, ela diz que começou a questionar os pais sobre as restrições impostas às mulheres na sociedade saudita. Suas frustrações cresceram tanto até que uma noite ela decidiu que deixaria sua casa e família, atravessaria a fronteira para Bahrain, onde poderia pegar um voo para terras norte-americanas. A decisão difícil foi contrária à vontade do pai – e protetor legal – e a desobediência poderia, inclusive, leva-la para a prisão.

Sistema de tutores

Cada mulher na Arábia Saudita, independente da idade, tem um homem como guardião legal, frequentemente sendo um pai ou um irmão. Esses tutores têm o poder de fazer qualquer tipo de decisão e podem dar “orientações” sobre seus comportamentos. Assim, as mulheres precisam de suas permissões para fazer viagens internacionais, casar e trabalhar.

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Segundo a ONG Human Right Watch, o sistema de tutela é o mais significante impedimento para que as mulheres tenham seus direitos no país. Por isso, está sendo realizada uma campanha desde julho do ano passado para que as mulheres sauditas possam chamar e alcançar o fim deste sistema opressor.

Desde julho até agora, muitas mulheres sauditas têm reclamado, tuitado e detalhado pela internet as injustiças vividas por elas em seu território – e, dessa maneira, arriscam-se diante dos olhos de seus tutores legais e do governo também. Em setembro de 2016, a maior autoridade religiosa da Arábia Saudita, Grand Mufti, se manifestou contra a campanha da ONG e das mulheres, afirmando que “se trata de um crime contra o país e contra a sociedade muçulmana”.

Mas, elas não pararam.

A reportagem da “CNN” conversou com cinco mulheres envolvidas nesta campanha contra o sistema de tutores. Uma delas, chamada Moudi, deixou seu país e, desde então, assim como Arwa, requereu e conseguiu o asilo nos Estados Unidos no último mês. Além dos EUA, nações britânicas têm aceitado as refugiadas.

Renunciaram à religião

Diferente do estereótipo de refugiados, estas mulheres sauditas são altamente educadas, bem vestidas e, frequentemente, pagam advogados para conseguir imigrar – podendo pagar hotéis, por exemplo.

Moudi deixou a Arábia Saudita e, desde então, requereu e conseguiu o asilo nos Estados Unidos no último mês
Reprodução/CNN - 16.01.2017
Moudi deixou a Arábia Saudita e, desde então, requereu e conseguiu o asilo nos Estados Unidos no último mês

Segundo as refugiadas conversaram com a rede de TV americana, o número de mulheres que aguardam para sair da Arábia Saudita e que temem por suas vidas não tem relação com o baixo número de pedidos de asilo que acontece hoje. “Muitas simplesmente não conseguem sair", disse uma ativista. "Elas não têm os meios e, portanto, precisam da permissão de seu guardião para sair de sua casa ou para deixar o país”, explica.

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Além de deixar a família e amigos, estas mulheres refugiadas ainda contam que mais um aspecto em suas vidas muda: muitas acabam abandonando a religião islâmica. O líder da instituição Ex-Muçulmanos da América do Norte, Muhammad Syed, explica que as sauditas que renunciaram à religião decidem se realocar para países vizinhos onde poderiam conseguir mais liberdade devido a escolha.

Sorte para aquelas que conseguem juntar dinheiro para a viagem, como é o caso de Arwa e Moudi, que tinham uma qualidade de vida financeira alta na Arábia Saudita. Porém, elas explicam por que decidem abandonar o conforto e fugir para outros países: "De que valem os materiais e a riqueza quando não podemos ser livres?", questionam.

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