Feminicídio é o ato máximo da violência contra a mulher; porém, não só de agressões físicas se resume o termo violência, que pode ser mais discreto

ONG Rio da Paz organiza manifestação contra a cultura do estupro com fotografias e calcinhas no vão livre do Masp
Flávia Cruz/Agência Brasil - 10.6.16
ONG Rio da Paz organiza manifestação contra a cultura do estupro com fotografias e calcinhas no vão livre do Masp

Quando uma matéria jornalística cita a Lei Maria da Penha, o leitor logo associa a história às palavras "agredida", "espancada", "estuprada", "assassinada" ou "violentada". Nem todos percebem, no entanto, que essa lei não protege as mulheres apenas de casos de agressão física. Afinal, a violência contra a mulher pode acontecer de diversas outras formas.

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Nesta sexta-feira (25), é comemorado o Dia Internacional da Luta contra a Violência contra a Mulher. Pensando nisso, o iG selecionou uma série de notícias, publicada ainda neste ano, que retratam casos de violência contra o sexo feminino.

Com termos como "humilhada", "impedida", "criticada" ou "coagida", a lista inclui casos, nacionais e internacionais, que, em um primeiro momento, não seriam relacionados ao termo "violência", mas que nele se enquadram. Afinal, muitas dessas situações podem ser prenúncios de um feminicídio, o pior crime decorrente do machismo – mas não o único.

"O feminicídio é o ato máximo da violência estrutural e sistemática contra as mulheres. É importante deixar claro que ele é gerado por um processo anterior e que pode muito bem ser evitado", afirma Renata Tavares da Costa, Defensora Pública do Estado do Rio de Janeiro. "Há mulheres submetidas a violações sistemáticas e a violências estruturais e, na medida em que esse ciclo não é interrompido, a violência só vai aumentando”, completa. A declaração faz parte do Dossiê contra o Feminicídio, lançado em novembro pelo Instituto Patrícia Galvão.

Confira algumas casos selecionados pelo iG:

"Ni una a menos"

Reprodução/Twitter
"Se a minha vida não vale, que produzam sem mim", dizia um dos cartazes durante a greve contra o feminicídio

Em outubro, dezenas de milhares de argentinas promoveram uma manifestação e uma greve inédita na história do país para protestar contra a onda de feminicídio que atinge a Argentina. Elas se reuniram em 138 cidades e pararam de trabalhar por uma hora para alertar sobre as mortes, os estupros e o machismo que existe na sociedade local.

O movimento "Ni una a menos" ("Nem uma a menos") foi convocado por quase 50 organizações e mobilizou a nação. O protesto ganhou as redes sociais e algumas passeatas foram organizadas em outros países. No Brasil, mulheres saíram em um ato na avenida Paulista.

Humilhada pelo pai

Isabel cometeu suicídio após ser humilhada pelo pai
Reprodução/Youtube
Isabel cometeu suicídio após ser humilhada pelo pai

Após ser castigada pelo pai e ter seus cabelos cortados por ele – imagens que foram parar na internet –, Izabel Laxamana, de 13 anos, cometeu suicídio em Tacoma, na cidade de Washington, nos Estados Unidos, em junho deste ano.

No vídeo divulgado na internet, Izabel aparece desconsolada enquanto o pai, por trás da câmera, faz perguntas sobre o que ela fez. As imagens originais foram retiradas do Youtube.

De acordo com o jornal americano Daily News, a estudante saiu de um carro e pulou de uma ponte de Tacoma. Ela chegou a ser socorrida e levada para um hospital de Seattle, mas morreu no dia seguinte.

Estupro e assassinato

Mariana foi morta neste domingo dentro do apartamento em que morava, em São Luís
Reprodução/Facebook
Mariana foi morta neste domingo dentro do apartamento em que morava, em São Luís

A sobrinha-neta do ex-presidente da República e senador José Sarney (PMDB), Mariana Menezes de Araújo Costa Pinto, 33 anos, foi encontrada morta, em novembro, em seu apartamento, no Maranhão. O corpo, de acordo com a polícia, foi encontrado pelas filhas de Mariana, duas crianças de 11 e nove anos.

Acusado de estuprar e matar a vítima, o empresário Lucas Leite Porto, cunhado de Mariana, está preso. A vítima foi encontrada com sinais de asfixia. Segundo o laudo, ela morreu asfixiada por um travesseiro, depois de ter sido estrangulada. De acordo com a polícia, Lucas Leite Porto tinha marcas de arranhões pelo corpo e no rosto.

Compartilhar nudes também é crime

Grupo vinha compartilhando nudes e vídeos de conteúdo explícito
Pixabay
Grupo vinha compartilhando nudes e vídeos de conteúdo explícito

Em janeiro, três adolescentes foram detidos após um escândalo sexual envolvendo 50 alunas de uma escola em Connecticut, nos Estados Unidos. O grupo vinha compartilhando nudes e vídeos de conteúdo explícito, que depois de um tempo começaram a ser vendidos pelos acusados.

"Sentimos que os estudantes não estão cientes de que estão cometendo um crime quando compartilham essas imagens", disse a diretora da Newtown High School, Lorrie Rodrigue, ao Connecticut Post. Eles foram fichados por posse e distribuição de pornografia infantil, obscenidade e outros.

Tortura traumatizante

Vítima foi violentada pelos próprios pais dos cinco aos 19 anos de idade
BBC
Vítima foi violentada pelos próprios pais dos cinco aos 19 anos de idade

Em outubro, um casal de australianos foi preso acusado de utilizar ferramentas afiadas para torturar e abusar sexualmente da filha por 15 anos. A vítima foi violentada pelos próprios pais dos cinco aos 19 anos de idade, segundo informações do jornal britânico Metro.

As torturas incluíam manter a menina com a cabeça embaixo da água de um córrego, envolvê-la em arame farpado, forçá-la a comer pimentões quentes e ameaças até com uma motosserra. Os crimes só foram descobertos quando a vítima, agora com 21 anos, denunciou os pais em 2011, quando ela estava em um hospital psiquiátrico.

Números no Brasil

No primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, o número de denúncias de estupro feitas ao Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher – aumentou 147%. No total, foram registrados 67.692 casos neste ano, em todo o País, 13 por dia, segundo os atendimentos da central.

Mulheres fazem ato contra cultura do estupro no Rio de Janeiro
Tomaz Silva/Agência Brasil - 01.06.16
Mulheres fazem ato contra cultura do estupro no Rio de Janeiro

Neste ano, também foi divulgado que esse tipo de crime fez 125 vítimas por dia em 2015, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Pelos dados, foram 45.460 casos no ano passado. No mesmo anuário, foi divulgada uma pesquisa feita pelo Datafolha em que 33% da população diz acreditar que a vítima tem culpa em casos de estupro.

No ano passado, o Brasil foi classificado como o 5º país com maior taxa de homicídio de mulheres. O desmérito foi obtido por meio do Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), com o apoio do escritório no Brasil da ONU Mulheres, da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.

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O estudo revelou ainda que a violência contra a mulher é mais fatal quando se trata de mulheres negras. O número de homicídios de brancas caiu de 1.747 vítimas, em 2003, para 1.576, em 2013. Isso representa uma queda de 9,8% no total de homicídios no período. Já os homicídios de negras aumentaram 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas.