Ministro ironiza imprensa ao ser questionado sobre caso de estupro na Índia

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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'Por que vocês estão preocupados?', disse Akhilesh Yadav, líder de Uttar Pradesh; corpos de jovens foram presos a uma árvore

Enfrentando implacáveis críticas da mídia e da população pelos crescentes casos de estupro na Índia, dois policiais foram demitidos por fracassarem nas investigações sobre o desaparecimento de duas primas no norte do país, nesta sexta-feira (30). Elas foram estupradas e seus corpos, encontrados pendurados em árvore.

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AP
Aldeões se reúnem ao redor dos corpos de duas adolescentes que foram estupradas e penduradas em árvore na aldeia de Katra em Uttar Pradesh, Índia (28/05)


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Mas em um país com longa história de tolerância à violência sexual, as demissões também vieram em meio a ironia de um alto funcionário do Estado ao ser questionado pelos jornalistas sobre o ataque.

"Vocês não estão seguros? Vocês não estão enfrentando perigo algum, estão?", disse o ministro Chefe do estado de Uttar Pradesh, Akhilesh Yadav, em Lucknow, capital do estado, em tom de deboche. "Então por que vocês estão preocupados?".

O estupro coletivo, que resultou em um vídeo onde os corpos das meninas aparecem pendurados em uma árvore de manga balançando suavemente sob a brisa, foi a notícia mais comentada desta sexta nas ​​emissoras de notícias 24 horas da Índia.

Mas apenas nos últimos dias, Uttar Pradesh viu outros casos chocantes, como o da mãe de uma vítima de estupro ser brutalmente atacada e uma garota de 17 anos ser violentada por quatro homens. Uttar Pradesh é o estado mais populoso da Índia, com quase 200 milhões de pessoas.

As estatísticas oficiais mostram que ao menos 25 mil estupros são cometidos todos os anos na Índia, cuja nação é de 1,2 bilhão de habitantes. Mas ativistas afirmam que esse número é muito maior, já que as mulheres são muitas vezes pressionadas pela família ou mesmo pela polícia para ficarem quietas sobre as agressões sexuais.

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Tanto a polícia indiana quanto os políticos do país, que durante décadas fizem pouco sobre a violência sexual, têm enfrentado indignação pública crescente desde dezembro de 2013, quando uma jovem foi vítima de estupro coletivo em um ônibus de Nova Délhi.

Nesta sexta, o ex-ministro-chefe do estado fez duras críticas ao governo. "Não há nenhuma lei de ordem no Estado", disse Mayawati, que usa apenas um nome para se identificar. "Vigora a lei da selva."

Horas depois, o ministro-chefe ordenou que os suspeitos do ataque fossem julgados em tribunais especiais “mais rápidos”, já que o país tem um sistema judicial notoriamente lento.

As meninas, que tinham 14 e 15 anos, foram violentadas na pequena aldeia de Katra, cerca de 300 quilômetros a partir de Lucknow. A polícia diz que eles desapareceram na noite de terça (27) depois de entrarem em um campo perto de suas casas que elas usavam como banheiro - não havia sanitário em suas residências.

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O pai de uma delas foi à polícia na noite em que elas desapareceram, mas disse que os oficiais não fizeram nada a respeito. Quando os corpos foram descobertos no dia seguinte, moradores irritados protestaram silenciosamente contra a falta de ação da polícia, não permitindo que os corpos fossem retirados da árvore.

Os aldeões só permitiram que as autoridades retirassem os corpos após as primeiras prisões serem efetuadas na quarta (28). A polícia deteve dois policiais e dois homens da aldeia e foi em busca de mais três suspeitos.

As meninas pertenciam a comunidade Dalits, conhecidas como "intocáveis​​" no antigo sistema de castas da Índia. Os policiais despedidos e os homens acusados ​do ataque são Yadavs, casta que domina parte de Uttar Pradesh. O ministro-chefe pertence a mesma comunidade.

Na quinta-feira, autoridades suspenderam os dois policiais locais por terem ignorado os apelos do pai de uma das jovens que foi à delegacia pedir ajuda. Eles foram demitidos nesta sexta. Um alto funcionário do estado, Anil Kumar Gupta, disse que os dois policiais foram acusados ​​de conspiração criminosa por terem se recusado a apresentar queixa ou fazerem qualquer ação sobre o caso.

Enquanto isso, o comentário de Yadav aos jornalistas não foi uma surpresa. No mês passado, o pai do ministro - ex-ministro-chefe do estado e chefe do partido que governa Uttar Pradesh - disse em comício eleitoral que havia se oposto a uma lei sobre executar estupradores.

“Garotos serão sempre garotos”, disse Mulayam Singh Yadav. "Eles sempre cometerão erros."

Kavita Krishnan, ativista dos direitos das mulheres, disse que esses comentários deixam claro que para a polícia, o estupro não é levado a sério. Ela afirma ainda que os comentários mostram "a banalização do estupro."

Enquanto agressões sexuais são relatadas em toda a Índia, tem havido uma série de ataques nos últimos dias específicamente em Uttar Pradesh. Na quinta, a polícia prendeu três homens sob a suspeita de atacarem brutalmente a mãe de uma vítima de estupro depois que ela se recusou a retirar a queixa.

Cinco homens - incluindo o pai, um irmão e um primo do homem acusado pelo crime – seguiu a mãe da vítima na segunda e exigiram que ela retirasse a acusação, de acordo com Dinesh Kumar, superintendente de polícia da cidade. A mulher está em estado crítico em um hospital, com vários ossos quebrados e ferimentos internos. A polícia prendeu três homens quinta-feira pelo ataque e está a procura de outros dois.

Na quarta-feira, uma adolescente de 17 anos foi atacada em um campo e estuprada por quatro homens no sudoeste Uttar Pradesh, segundo a polícia. Um deles foi preso.

*Com AP

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