Apartheid deve ser perdoado mas não esquecido, diz irmã de ícone de Soweto

Por Gustavo Abreu , de Johanesburgo* |

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Antoinette Sithole foi capa dos jornais do mundo há 37 anos, ao lado do corpo do irmão de 12 anos. Morte virou estopim de movimento estudantil conhecido como 'Levante de Soweto'

Reprodução / Sam Nzima
Baleado, Hector Pieterson é carregado por colega ao lado de sua irmã, Antoinette. Foto, que percorreu o mundo, foi a faísca do Levante de Soweto, em 1976

“Você pode perdoar, mas nunca esquecer.” É com essas palavras que Antoinette Sithole descreve o acertar de contas exatos 37 anos após a morte de seu irmão, em 16 de junho de 1976, durante um protesto estudantil contrário ao apartheid (regime de segregação racial) em Soweto, na cidade de Johanesburgo, África do Sul.

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Hector Pieterson tinha 12 anos quando foi baleado pela polícia em frente da instituição de ensino Orlando West High School, na rua Vilakazi. Ao lado da irmã e de centenas de outros jovens sul-africanos, ele lutava contra a decisão do governo de impor o inglês e o africâner como línguas oficiais nas escolas negras do país.

Os 10 mil protestantes reivindicavam pacificamente o direito de estudar em suas línguas nativas (são 11 idiomas oficiais na África do Sul), após ser decretado em 1974 que ciências e matérias práticas deveriam ser ensinadas em inglês, enquanto matemática e estudos sociais deveriam ser ensinadas em africâner. O movimento ficou conhecido como o “Levante de Soweto”.

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Clicada por Sam Nzima, a foto de Hector sendo carregado nos braços do colega Mbuyisa Makhubu, ao lado de Antoinette aos prantos, percorreu o mundo inteiro. A imagem atuou como uma faísca, desencadeando uma série de protestos em outras townships (cidades criadas para alojar os negros) país afora.

Em homenagem a Hector e a outros cem estudantes que foram mortos durante os embates entre a polícia e os protestantes, a África do Sul celebra em 16 de junho o Dia da Juventude (“Youth Day”). A comemoração foi criada após o fim do apartheid, em 1991, e até hoje é uma das datas mais significativas na história do país.

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Na praça onde Hector foi morto, a 500 metros da casa onde Nelson Mandela morou até ser preso, dois anos antes, foi inaugurado o Hector Pieterson Museum, em memória às vidas daqueles que um dia sonharam com um país mais justo.

Antoinette seguiu sua vida. Casou-se, teve filhos, netos, e hoje trabalha como guia do museu. Todos os dias recebe grupos de estudantes e turistas querendo aprender sobre sua história, que ela faz questão de contar. Leia, a seguir, os principais trechos de sua entrevista ao iG.

Gustavo Abreu
Antoinette Sithole, irmã de Hector Pieterson: estudante foi morto em 1976, aos 12 anos, durante protesto estudantil antiapartheid em Soweto

iG: O que passa por sua cabeça quando vê a foto que está na frente do museu?
Antoinette Sithole: No começo não olhava muito para a foto. Ela me partia em pedaços. Mas um dia me sentei e pensei que não há nada que possa fazer, não posso fugir disso. Devo achar uma alternativa. Para olhar para a foto e falar sobre ela sem me entristecer. Então o que fiz foi: me distanciei da foto e digo a mim mesma que conheço aquelas pessoas, mas não sou uma delas. Tive de tentar isso e funcionou muito bem.

iG: O que a senhora fala para seus netos sobre a história desse lugar?
Antoinette Sithole: Não falo muito com eles sobre isso, mesmo porque ainda são pequenos. Nas escolas, aprenderão sobre isso, mas as escolas geralmente são breves sobre o assunto e por isso os trazem aqui (ao museu) para entender a história completa. Alguns pais não gostam de falar sobre isso, alguns acham que estariam influenciando os filhos a fazer o que fizemos. Mas no museu nos certificamos de que eles saiam diferentes.

iG: O que a senhora pensa dessa geração de estudantes que visitam o museu?
Antoinette Sithole: Os jovens são diferentes de nós, que acreditávamos em união. Para eles, acho que está tudo aqui, então pensam: o que devemos fazer? É como se não soubessem o que fazer. Pra mim é como se existisse uma bandeja na qual há de tudo. Eles só precisam escolher e pegar o que quiserem. Não querem suar por isso, como fizemos. Mas também acredito que mudar a cidade não foi algo que fizemos para nós, mas para as gerações que virão. Não sei se eles entendem a história, então realmente devemos enfatizar quem somos e de onde viemos. Falamos muitas línguas porque são muitas culturas. Mas, na nossa história, as culturas se uniram e viraram uma. Tem a ver com o fato de onde você veio e para onde vai. Por isso talvez eles estejam confusos.

iG: Eles não ligam para a história?
Antoinette Sithole: Lutamos por eles, para que tivessem coisas melhores, uma vida melhor que a nossa. Como para eles talvez tudo esteja disponível, sintam como se “para nós tudo bem”, mas eles não estavam lá naquela época, então não entendem o valor e qual papel deveriam exercer em seu país. Hoje em dia temos desemprego, aids, gravidez na adolescência, mas parece que eles esperam ser orientados sobre o que fazer. Eles não tomam a iniciativa de começar em suas próprias escolas. Mas devem lutar por algo melhor para si mesmos, como nós fizemos. Talvez devam se sentar e conversar sobre as coisas que precisam ser feitas e provar que serão os líderes do amanhã.

Fachada do memorial no Hector Pieterson Museum, em Orlando West, subúrbio de Soweto. Foto: ReproduçãoAntoinette ao lado da primeira-dama americana, Michelle Obama, durante uma visita oficial em 2011. Foto: Getty ImagesÁrea externa do Hector Pieterson Museum. Os tijolos espalhados pelo chão simbolizam os cem estudantes mortes durante o Levante de Soweto. Foto: Gustavo AbreuJovens se divertem na frente do museu Hector Pieterson. Foto: Getty Images

iG: Quase 20 anos após sua eleição, o que o senhor Mandela significa para a África do Sul?
Antoinette Sithole: Ele é um grande motivador. Pra começar, ficou na prisão por 27 anos. Isso significa que devemos ser pacientes, porque ele foi capaz de ser paciente. Além disso, sentimos, é claro, que ele é nosso herói, nosso ícone, nossa lenda. Então devemos seguir seus passos. Mas isso também depende dos indivíduos. Cada um deve escolher o que mais gosta de sua humanidade e usar isso para melhorar nosso país.

iG: A senhora se sente honrada por fazer parte dessa história ou a vê com pesar por ter sido um episódio tão triste?
Antoinette Sithole: É uma honra, e a vejo como uma história inspiradora. As pessoas vêm do mundo inteiro para o museu. Elas ouvem falar sobre a nossa história na TV, nos rádios, leem nos jornais, mas querem vir aqui para ter a experiência, para sentir e se colocar nos nossos lugares e entender pelo que passamos. E o museu estará aqui pra sempre e para muitas gerações que estão por vir. Ele nunca nos deixaré esquecer que esse foi um momento de virada para a África do Sul.

iG: Qual a maior lição tirada dos protestos estudantis de 1976?
Antoinette Sithole: É que você pode perdoar, mas nunca esquecer. Porque perdoar, para nós, significa que sempre teremos as mentes positivas e pensaremos além de nós mesmos. Às vezes penso nas opressões de 1976 como os israelenses que estavam no Egito. Eles saíram de lá e tiveram de encontrar maneiras de fugir. Isso significa que crescemos com o que aconteceu. Tiramos coisas boas de um episódio ruim para poder moldar a nós mesmos e a nosso país.

iG: Como os visitantes brancos reagem a essa história?
Antoinette Sithole: Alguns dizem que sentem muito, outros que não sabiam exatamente o que aconteceu.Temos de encorajar muitos e até dizer “mesmo que você tenha vivido nesse período e estado lá, não havia nada que pudesse ter feito”. Não há necessidade de se sentir mal. A vida acontece em várias formas e formatos. Então, quando eles vêm aqui, é uma honra, porque nunca achávamos que os brancos viriam. De uma certa forma, é uma lição quando vêm aqui aprender sobre nossa história.

* O repórter viajou a convite da South African Tourism

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