Futuro papa terá de 'purificar' Igreja Católica antes de adotar agenda positiva

Por Ricardo Galhardo - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Pontífice que será escolhido em conclave que começa nesta terça terá de dar conta de problemas como corrupção, disputas de poder e escândalos sexuais

O próximo papa, seja quem for, terá de dar conta do passivo de problemas que motivaram a renúncia de Bento 16, como a corrupção, disputas de poder e escândalos sexuais, antes de adotar uma agenda positiva para a Igreja. Segundo especialistas e integrantes do clero ouvidos pelo iG, há a necessidade de a Igreja passar por um processo de purificação com a chegada do novo pontífice.

Infográfico: Saiba como funciona o conclave para escolha do novo papa

Conclave: Conservadorismo de Bento 16 e João Paulo 2º deve ser mantido por futuro papa

Reuters
Basílica de São Pedro, no Vaticano, é vista iluminada a partir do Rio Tibre, em Roma (11/03)

Desafios: Disputas, rivalidades e traições do Vaticano aguardam próximo papa

NYT: Novo papa vai liderar Igreja ameaçada por escândalos e avanço protestante

“A igreja é santa e pecadora. Em todo tempo, portanto, ela é desafiada a se purificar, a se converter para responder ao mandato de Cristo. Aquele que assume o ministério petrino, em qualquer época, terá desafios e problemas a serem encaminhados”, disse o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Steiner, bispo de São Félix (MT).

Para o padre Pablo Blanco Sarto, professor do Departamento de Teologia Sistemática da Universidade de Navarra, na Espanha, o fato de os escândalos terem ficado ainda mais em evidência com a renúncia de Bento 16 pode ser o início desse processo de purificação.

VatiLeaks: Leia as matérias sobre o escândalo de documentos vazados do Vaticano

Análise: Papa de 'transição', Bento 16 enfatizou resgate da tradição católica

“Os problemas sempre acompanharam a Igreja. Esses escândalos estão levando à sua purificação. Isso é positivo e necessário. Uma vez que se eliminem essas barreiras e focos de corrupção, a Igreja tem de olhar o mundo inteiro e continuar sua missão”, afirmou. “Depois da purificação, vem a evangelização”, completou.

Para o coordenador do coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Francisco Borba, a renúncia de Bento 16 coloca os escândalos na ordem do dia para seu sucessor, mas também aponta para uma solução, facilitando o trabalho do futuro papa.

“Quando renunciou, Bento 16 jogou luzes em uma série de problemas que estavam na sombra. Isso dá uma liberdade de ação que talvez ele próprio não tivesse”, disse Borba. “Assim, ele não deixa o sucessor com o abacaxi na mão”, acrescentou.

Perspectiva: Renúncia de Bento 16 torna futuros papas mais sujeitos à pressão dos críticos

Reuters
Chaminé por onde sairá fumaça anunciando eleição de novo papa é vista no teto de Capela Sistina, na Basílica de São Pedro, Vaticano (11/03)

Cenário: Renúncia de Bento 16 redefine pontificado ao abrir precedente para futuros papas

Enquanto muitos integrantes do clero têm dificuldades em elencar os motivos que levaram à renúncia, o escritor e frade dominicano Carlos Alberto Libanio Cristo, o Frei Betto, faz uma lista objetiva: "A vocação intelectual e não administrativa de Bento 16, o vazamento de documentos sigilosos, os casos de pedoflia, a corrupção no Banco do Vaticano, a traição do mordomo e a rede de seminaristas homossexuais em Roma prestando serviços de prostituição.”

“Ratzinger cansou”, disse, referindo-se a Bento 16 pelo nome quando cardeal alemão.

Saiba mais: Veja o especial do iG sobre o conclave

Além de escândalos como o do VatiLeaks, os especialistas apontam uma série de desafios imediatos a ser enfrentados pelo próximo pontífice antes de ele entrar na chamada agenda positiva: montagem de uma nova Cúria, reforma administrativa do Vaticano, abertura do debate teológico sobre a moral sexual (homossexualidade, aborto, celibato, mulheres sacerdotes) e a flexibilização da estrutura de poder da Igreja.

“Não existem causas ocultas para a renúncia. O próprio Bento 16 disse: ‘Estou velho para enfrentar alguns desses problemas’. A reforma da Igreja exige um esforço enorme, e ele não tem tempo de vida para resolver isso”, afirmou Borba.

Vaticano: Papa Bento 16 tem marca-passo 'há algum tempo'

AP
Turistas observam a Praça de São Pedro a partir do domo da Basílica de São Pedro, no Vaticano (11/03)

Análise: Para cardeais, conclave é evento místico

Infográfico: Saiba mais sobre as vestimentas do papa

O padre José Arnaldo Juliano, historiador da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em teologia dogmática, resumiu o desafio em uma frase: “A missão do novo papa é inserir a Igreja na sociedade pós-moderna do século 21.”

Segundo o padre Arnaldo, a Igreja tem de preparar seus membros para conviver com os desafios do mundo atual, entre eles a corrupção e o sexo. “Se a casa está desarrumada, o pontífice terá que arrumar”, disse.

Embora Bento 16 tenha encaminhado a solução dos problemas com a renúncia, a tarefa do sucessor não será simples. “Uma coisa muito importante para a Igreja é a unidade. Portanto, as mudanças não podem ser rápidas demais. Se um grupo acelera e outro não acompanha, existe o risco de romper”, disse o padre Denilson Geraldo, professor de Direito Canônico da PUC-SP.

Lista: Veja quem são os cardeais mais cotados para ser o novo papa

Todos os especialistas ouvidos disseram que a agenda positiva da Igreja é o avanço na implantação das diretrizes do Concílio Vaticano 2º, especialmente nos temas da relação entre fé e razão. Convocado no início dos anos 60, o concílio tinha como principal objetivo debater o lugar da Igreja Católica no mundo contemporâneo.

Apesar da grande dimensão dos desafios e das dificuldades previstas, todos também demonstraram otimismo. O padre Pablo Blanco cita o próprio Bento 16 para, com humor, exemplificar a força da instituição. “Com ironia, o então cardeal Ratzinger falava de um prelado (autoridade eclesiástica) dos tempos de Napoleão, ao ouvir comentários sobre os planos do imperador de atacar a Igreja. Ao que o prelado respondeu com ironia e esperança: ‘Nem sequer nós mesmos conseguimos acabar com ela...”

Leia tudo sobre: conclaverenúncia do papaigreja católicavaticano

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas