Conservadorismo de Bento 16 e João Paulo 2º deve ser mantido por futuro papa

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo |

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Cardeais que escolhem novo papa a partir desta terça foram indicados pelos dois últimos pontífices, o que abre pouca possibilidade de ascensão de visão mais progressista na Igreja

Às vésperas da escolha do sucessor de Bento 16 no comando da Igreja Católica, especulações sobre quem será o novo papa tomam conta do noticiário e estimulam bolsas de aposta pelo mundo afora. Mas, para especialistas ouvidos pelo iG, a tendência é de que, independentemente do nome que seja anunciado durante o conclave que começa nesta terça-feira na Capela Sistina, a Igreja Católica mantenha um ideário muito semelhante ao deixada pelos seus dois últimos pontífices.

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Turistas observam a Praça de São Pedro a partir do domo da Basílica de São Pedro, no Vaticano (11/03)

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Por compartilhar da mesma doutrina de João Paulo 2º, de quem também era amigo, Bento 16 não promoveu alterações na teologia de seu antecessor. Durante o conclave de 2005 que elegeu  Joseph Ratzinger, especulava-se que, além do cardeal alemão, havia outro nome forte para a sucessão: o cardeal milanês Carlo Maria Martini.

Não fosse o mal de Parkinson que o acometia, Martini, morto em 2012, teria grandes chances de ter ocupado o mais alto posto na hierarquia católica. Segundo especialistas, ele pode ser considerado o último grande cardeal de linha mais progressista dentro da Igreja.

Um caso emblemático que pontua a visão de Martini foi a crítica que fez à negativa da Igreja em realizar um funeral religioso para Piergiorgio Welby, italiano que sofria de distrofia muscular e pediu a um médico que desconectasse o respirador artificial que o mantinha vivo.

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Apesar de ser contrário à eutanásia, Martini afirmou em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore que era necessária a elaboração de uma norma que reconhecesse a possibilidade de um doente terminal recusar tratamento, sem que, para isso, se legalizasse a eutanásia. “Uma empreitada difícil, mas não impossível”, escreveu em 2007.

“Quando houve essa eleição (de Bento 16), falou-se muito que, se esse cardeal (Martini) fosse eleito, haveria mudanças. Nessa eleição de agora, não há nenhum sinal de uma reviravolta, de uma guinada para um rumo diferente”, afirmou o diretor da Faculdade de Teologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), padre Valeriano dos Santos Costa.

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Dessa forma, temas caros a Bento 16 e a João Paulo 2º, como a interpretação do Concílio Vaticano 2º e a valorização da retomada da tradição católica, devem ser mantidos no próximo pontificado.

Os mais cotados

Todos os 115 cardeais aptos a votar ou a ser votados foram indicados por Bento 16 e João Paulo 2º, o que já denota a influência que os dois têm sobre o futuro papa, que sairá desse grupo.

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O cardeal de São Paulo, Odilo Scherer, durante missa realizada no domingo em Roma (10/03)

Entre os considerados favoritos, destacam-se o italiano Angelo Scola, o canadense Marc Ouellet, o brasileiro Odilo Scherer, o cingalês Malcolm Ranjith e o ganense Peter Turkson. Todos eles pertencem a linhas conservadoras que não devem encorajar atitudes consideradas “permissivas” pela Igreja.

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Scola, por exemplo, rejeita a ideia de a Igreja ter sacerdotes mulheres e é associado ao movimento conservador italiano Comunhão e Libertação, enquanto Ouellet chegou a condenar o aborto ainda que a mãe tenha sido vítima de estupro.

Scherer é considerado moderado, mas falou abertamente contra o aborto mesmo em caso de estupro e culpou a campanha de distribuição de camisinhas do governo brasileiro pela promiscuidade sexual. Ele também se posiciona firmemente contra a homossexualidade.

Ranjith é um seguidor intelectual de Bento 16, um defensor das missas feitas em latim e proibiu que padres introduzissem elementos simples de outras religiões e cultos em suas congregrações. 

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Segundo o professor Francisco Borba, coordenador do núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, o único dos 115 cardeais que estaria perto da visão menos tradicional é o italiano Gianfranco Ravasi, que foi aluno da escola de Martini. No entanto, disse Borba, ele também está relacionado a Bento 16, que o nomeou presidente do Pontifício Conselho para a Cultura no Vaticano, que tem como uma de suas funções abrir o diálogo da Igreja com o mundo da cultura e da ciência, há muito deteriorado. “Apesar de ter sido aluno da escola de Martini, está alinhado a Bento 16. Não significaria uma mudança.”

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Foto divulgada pelo jornal do Vaticano mostra o então papa Bento 16 abençoando fiéis da janela da residência papal em Castel Gandolfo (28/02)

Sintonia com a sociedade civil

Um dos principais desafios da Igreja Católica é saber dialogar e voltar a ganhar preponderância dentro da sociedade civil do mundo contemporâneo. Entretanto, em temas como o uso da camisinha e o casamento civil entre homossexuais, por exemplo, a Igreja manteve sua posição contrária e deve continuar assim por muitos anos, de acordo com analistas.

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O teólogo Valeriano dos Santos Costa aponta que, apesar da necessidade da Igreja de dialogar com o mundo laico, o pontífice não pode alterar suas posições sem ter fundamentação nas escrituras. O fato de a Igreja ter uma estrutura de 2 mil anos, segundo ele, torna as mudanças mais lentas em comparação com a sociedade civil. Hoje, por exemplo, a Igreja ainda debate a aceitação de um segundo casamento entre católicos, o que, no mundo laico ocidental, é um assunto superado.

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“Se a Igreja atendesse todas as demandas da sociedade civil, perderia força, seria uma igreja que não teria sentido no mundo", concordou Borba. "Se a Igreja quer dar conforto espiritual, não pode ser igual ao mundo. Ela tem, inclusive, de provocá-lo”, completou.

O padre Pedro Gilberto Gomes, professor de Teologia da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) acredita que, para estar em compasso com a sociedade civil, a Igreja precisa procurar interpretar a dinâmica com que as mudanças acontecem ao mesmo tempo em que mantém o diálogo com sua doutrina e ideologia. “O que deve mudar é a questão da tolerância, da acolhida e da compreensão. O respeito pela dignidade humana”, afirmou. “Estar em sintonia com o mundo contemporâneo não significa negar seus princípios, mas sim, posicionar-se com abertura.”

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