Mais de 50 mil acompanharam no Vaticano a última audiência geral de Bento 16 à frente do pontificado; ele relembrou momentos de 'alegria e leveza' e tempos de dificuldade

O papa Bento 16 fez uma despedida emocionada nesta quarta-feira (27) em sua última audiência geral à frente do pontificado. Em seu discurso na praça São Pedro, no Vaticano, ele relembrou momentos de "alegria e leveza" durante seu papado e também tempos de dificuldade. O pontífice agradeceu seus fiéis por respeitarem sua decisão de renunciar ao cargo .

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Bento 16 acena no papamóvel ao chegar na Praça de São Pedro
Reuters
Bento 16 acena no papamóvel ao chegar na Praça de São Pedro


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Bento 16 surpreendeu a Igreja Católica e o mundo no dia 11 de fevereiro ao anunciar sua renúncia , a primeira de um papa em cerca de seis séculos . Ele, que se tornou pontífice em 2005, deu como justificativa para sua decisão a idade avançada e a falta de vigor físico.

Milhares de fiéis carregando faixas e cartazes com os dizeres "Grazie" ("Obrigado") se reuniram na praça em Roma para participar da despedida e acompanhar o discurso que o papa tem feito semanalmente durante oito anos com o objetivo de ensinar ao mundo sobre a fé católica.

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O papa claramente apreciou a presença da multidão, fazendo uma longa volta em torno da praça em um carro aberto e parando para beijar e abençoar cerca de cinco crianças.

Em consonância com o momento histórico, Bento 16 mudou o ritual e não pronunciou sua catequese nesta quarta. Em vez disso, aproveitou sua aparição final para explicar mais uma vez por que renunciou ao posto. "Amar a Igreja significa também ter coragem para tomar decisões difíceis e dolorosas, sempre mantendo o bem da Igreja em mente, e não a si mesmo", disse, sob efusivos aplausos.

O papa relembrou que, quando foi eleito, em 19 de abril de 2005, ele questionou se Deus realmente queria isso. "É um grandioso fardo que o Senhor colocou em meus ombros", recordou.

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Durante esses oito anos, "tive momentos de alegria e leveza, mas também momentos que não foram fáceis... momentos de águas turbulentas e ventos agitados." Apesar disso, o papa afirmou que nunca se sentiu sozinho e agradeceu aos seus cardeais e colegas por sua orientação e por "entender e respeitar essa decisão importante".

Sob um sol brilhante e céu azul, a praça estava lotada de peregrinos e curiosos. Os que não conseguiram ficar no corredor que leva à Basílica de São Pedro para assistir ao evento acompanharam o pronunciamento pelos telões. Cerca de 50 mil ingressos foram requeridos para a audiência geral final, mas a mídia italiana estimou que o número de pessoas que participou superou o dobro disso. "É difícil - a emoção é muito grande", disse Jan Marie, um romano de 53 anos que está em seus primeiros anos de seminário. "Viemos apoiar a decisão do papa."

Limpando gavetas

O papa deve passar a tarde desta quarta "limpando as gavetas" no Vaticano, como já havia feito na terça.  Segundo o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, Bento 16 está analisando documentos para verificar quais são de natureza pessoal, quais farão parte do arquivo de seu período à frente da Igreja e quais ele deixará para o próximo papa.

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Além disso, segundo o porta-voz, o papa dedicou a terça-feira "a orações e preparações para os eventos dos dois dias seguintes".

Na quinta-feira, a agenda de Bento 16 prevê um encontro pela manhã com os cardeais que já estão em Roma para a eleição do novo papa, esperada para as próximas duas semanas.

Assista ao vídeo sobre a despedida do papa:

Entre os cardeais presentes deverão estar dom Raymundo Damasceno Assis, dom Odilo Scherer, dom Geraldo Majella Agnelo, dom Cladio Hummes e dom João Braz de Aviz, os cinco brasileiros esperados entre os 115 membros do conclave que elegerá o novo papa.

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Às 17 horas de quinta (13 horas de Brasília), Bento 16 deixará o Vaticano, de helicóptero, em direção a Castel Gandolfo, residência de verão do papa a cerca de 25 km ao sul do Vaticano. Lá ele deverá fazer uma última aparição pública, da janela da residência, antes de deixar formalmente o cargo às 20h (16h de Brasília).

O cerimonial prevê que nesse horário os membros da Guarda Suíça, que acompanham o papa, deixarão seus postos para marcar oficialmente o fim do papado de Bento 16 e anunciar que seu cargo está vago.

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Segundo anunciou o Vaticano na terça, Joseph Ratzinger manterá após a renúncia o nome de Bento 16, adotará o título de "papa emérito" e continuará a ser chamado de "Sua Santidade", tratamento reservado apenas aos papas.

Eleição

Apesar da expectativa do público com os eventos desta quarta e de quinta, grande parte das atenções já estão voltadas para a escolha do novo pontífice.

"Espero que o próximo papa seja mais carismático que o atual. Acho que a figura de Bento 16 foi meio apagada, principalmente depois de João Paulo 2º, que realmente tinha uma empatia maior com o público", disse o turista espanhol Antonio Calcinas, 53 anos, enquanto passeava pela Praça de São Pedro nesta terça.

Como um de seus últimos atos à frente da Igreja, Bento 16 modificou as regras para a realização do conclave , a reunião de cardeais que elegerá o novo pontífice, para permitir que ele aconteça antes dos 15 dias após a vacância do cargo, como determina o direito canônico.

Segundo a determinação de Bento 16, os cardeais eleitores poderão escolher quando começar o conclave, desde que todos já estejam na cidade. Espera-se que o conclave seja iniciado por volta do dia 10 de março, para permitir que um novo pontífice seja escolhido e instalado a tempo de comandar as celebrações de Páscoa no Vaticano, no fim do mês.

O número exato de cardeais que participarão do conclave ainda parece incerto, após o cardeal escocês Keith O'Brien renunciar na segunda-feira ao cargo de arcebispo de St. Andrews e Edinburgo em resposta a acusações feitas no fim de semana sobre 'atos impróprios' supostamente cometidos por ele contra padres nos anos 1980.

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O'Brien manteve o posto de cardeal e poderia participar do conclave, mas anunciou que se absterá de participar para não desviar as atenções da mídia sobre a escolha do novo pontífice.

Com a decisão de O'Brien, cresce a pressão para que cardeais acusados de acobertar escândalos de abusos sexuais cometidos por sacerdotes, como o arcebispo de Los Angeles, Roger Mahony , ou o cardeal primaz da Irlanda, Seán Brady, também se abstenham do conclave.

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Outro cardeal-eleitor que já anunciou sua ausência do conclave é Julius Darmaatmadja, chefe da Igreja Católica na Indonésia, que alegou problemas de visão que o impediriam de participar.

E o cardeal ucraniano Lubomyr Husar, arcebispo emérito de Kiev, deve perder o conclave por uma questão de dias - ele completou nesta terça 80 anos, a data limite para que os cardeais participem da eleição.

Com AP e BBC

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