Partidos radicais ganham força às vésperas de eleição na Grécia

Relacionados à crise, partidos tradicionais perdem espaço para legendas menores, com agenda que vai da extrema direita ao comunismo

BBC Brasil |

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Com a sociedade grega fraturada por dois anos de medidas de austeridade e recessão , pequenos partidos, alguns deles radicais, dividem a preferência do eleitorado na votação de domingo para o Parlamento.

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AP
Funcionário municipal monta urna em seção eleitoral em Atenas. Gregos participam de eleições gerais no domingo
Segundo as pesquisas, mesmo unindo forças os dois principais partidos gregos, Nova Democracia e Pasok, devem ter cerca de apenas 38% dos votos. O restante seria distribuído por outros 30 partidos, com pelo menos mais 5 conseguindo representação legislativa.

"Desde os anos 70 os dois principais partidos costumavam ter ao redor de 70% dos votos", explica a grega Daphne Halikiopoulou, da London School of Economics and Politics (LSE), que está em Atenas para acompanhar a votação. "É impossível prever se uma coalizão poderá ser formada ou se teremos impasse e instabilidade, cenário agravado pelo aumento dos votos nesses grupos mais extremistas."

Entre os partidos menores com chances de eleger deputados estão o Chrysi Avgi (Amanhecer Dourado), de extrema direita, que usa em sua bandeira um símbolo semelhante a uma suástica nazista. Atraindo eleitores com um discurso que associa imigração à criminalidade, pode obter 5% dos votos, chegando pela primeira vez ao Parlamento.

Seus membros costumam advogar em favor da supremacia do povo grego e foram chamados de neonazistas, embora a direção do partido negue o rótulo. Entre suas propostas, segundo Halikiopoulou, estariam a revisão das fronteiras marítimas com a Turquia e a ampliação da influência grega no Norte do Chipre.

Já o Partido Comunista Grego (KKE) prega a retirada da Grécia da zona do euro e a derrocada do sistema capitalista na Grécia. Pesquisas indicam que o partido pode obter 10% dos votos. O KKE defende que o fim do regime soviético foi apenas um percalço na revolução comunista que ainda deve se espalhar pelo globo - partindo de países como a Grécia.

"Trata-se de um partido comunista ortodoxo, cujas propostas não mudaram muito com o fim da Guerra Fria", explica Othon Anastasakis, especialista em política grega da Universidade de Oxford.

Outro partido inusitado é o Gregos Independentes, mais moderado, liderado por um dissidente do Nova Democracia que conseguiu reunir seguidores para criar o novo partido via Facebook. Com 10% das intenções de voto, Panos Kammenos aposta em um discurso antialemão.

"A Alemanha não trata a Grécia como se fosse nosso parceiro, mas como chefe. Está tentando transformar uma Europa de Estados independentes em uma Europa sob seu domínio", disse Kammenos em entrevista recente à agência de notícias Reuters. "Berlim é responsabilizado pelas medidas de austeridade e não é difícil capitalizar um sentimento antialemão em um país com uma história de ocupação nazista", explica Anastasakis.

Outros partidos são o Esquerda Radical com algo entre 10% e 11% dos votos e o Esquerda Democrática, com 8,5%.

Voto de protesto

O que todos esses partidos menores têm em comum é o discurso contra o pacote de medidas de austeridade adotado por pressão da União Europeia e instituições financeiras internacionais.

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Só o partido comunista, porém, é abertamente a favor de tirar a Grécia da zona do euro. Para Athanasia Chalari, também da LSE, o voto nesses pequenos partidos reflete o sentimento de revolta contra o Nova Democracia e o Pasok, responsabilizados pela crise econômica.

"Mesmo quem ainda vota nos partidos tradicionais o faz por medo, não porque acredita em seus projetos políticos", diz a especialista. "A Grécia que vai às urnas é um país acuado, onde ninguém consegue apresentar uma saída viável, então cada um corre para um lado."

Segundo Anastasakis, caso os principais partidos gregos não consigam formar uma coalizão é possível que outra eleição tenha de ser convocada.

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