Cinema dentro do Complexo do Alemão muda rotina de moradores

Prestes a completar um ano, o CineCarioca, na favela Nova Brasília, tem a maior taxa de ocupação do País. Assista ao vídeo

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

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Festival do Rio sobe o Complexo do Alemão

Walace Xavier tem 33 anos e só há um mês entrou em uma sala de cinema. Assistiu ao “ Os Smurfs ”, no CineCarioca, na favela Nova Brasília, uma das quinze favelas que compõem o Complexo do Alemão , na zona norte do Rio.

Ocupada pelas Forças Armadas no final do ano passado, a região recebeu na mesma época seu primeiro cinema. Walace, morador da favela, pôde então finalmente saber qual é a sensação de ver um filme em tela grande. “É indescritível. Fiquei emocionado. O som, as cores, tudo é perfeito. Fiquei muito feliz, me senti uma criança”, conta o chaveiro.

Esta é apenas uma das tantas histórias que se pode ouvir pelas ruelas que dão acesso à praça do Trevo, onde está localizado o prédio que abriga o cinema. Moradores e, sobretudo, crianças ganharam uma opção de lazer e distração, sem precisar descer para o asfalto ou percorrer quilômetros até o shopping mais próximo (o Nova América fica a cerca de 20 quilômetros dali).

George Magaraia
Casais namoram à espera do filme começar
Primeiro em ocupação

A sala tem 91 lugares, incluindo acesso facilitado para deficientes físicos e projetores de última geração, com tecnologia 3D. Segundo dados da RioFilme, braço audiovisual da prefeitura, que administra o espaço, nos nove primeiros meses de operação, o CineCarioca Nova Brasília já recebeu 65 mil pessoas. É considerado o cinema com a maior taxa de ocupação do País.

“Havia uma demanda muito grande por aqui. Este número representa a força que a comunidade tem. Mas destaco também o fácil acesso à sala, próxima das residências, e principalmente o preço bastante popular. Isso pode explicar os números de aceitação”, afirma Sergio Sá Leitão, presidente da RioFilme. A inteira custa R$ 8 e, a meia, R$ 4.

O cinema, inaugurado em dezembro de 2010, é o “point” de jovens que, no final de semana, optam agora por assistirem aos lançamentos perto de casa.

Thaise Nobrega e a amiga Daniela Alves garantem o ingresso de sábado já na sexta-feira. “É que acaba rápido, a gente se reveza e vem aqui comprar cedo, logo quando abre a bilheteria”, conta a adolescente.

George Magaraia
Em 9 meses de operação, o CineCarioca Nova Brasília recebeu 65 mil pessoas
Recusa das grandes redes

O sucesso do projeto, entretanto, não foi tão simples de ser posto em prática. Welington Cardoso, gerente do espaço, conta que, ainda na fase de construção e desapropriação de imóveis, havia moradores querendo lucrar com a situação. “Tinha gente cobrando mais de R$ 100 mil pelo seu barraco, para deixar o lugar e ir para outro canto. Mas com conversas prolongadas eles entenderam que seria bom para todo mundo”, diz. Nem as grandes redes de cinema queriam investir capital – e dispor seu maquinário - na favela, que antes da ocupação tinha uma das maiores taxas de criminalidade da cidade .

George Magaraia
Welington Cardoso, gerente do cinema
“Várias redes se recusaram a entrar nessa. Não foi fácil mostrar que seria lucrativo. Os empresários tinham medo porque era uma decisão pioneira levar cinema à comunidade carente”, conta Welington. Toda a parte técnica é administrada pela Cinemagic, presente em outras seis salas no estado. O projeto em andamento levará cinema também à Vila Cruzeiro, Juliano Moreira, morro da Pedreira e no da Providência.

Aumento do comércio local

Se os empresários que se negaram a subir o morro agora lamentam por não lucrarem com o CineCarioca, quem sempre acreditou que ali estaria a solução para aumentar sua receita foi o seu José Ildo. Ele é dono de um bar bem próximo à entrada do cinema. “O faturamento aumentou, claro. Só não vendo pipoca, porque já tem quentinha lá dentro. Aqui é refrigerante, doces e biscoito”, conta.

Monica dos Santos também resolveu lucrar com a nova “mania” dos moradores do Complexo do Alemão. Com autorização da Associação de Moradores, montou uma tenda de salgados bem na saída do local. Empadas, coxinhas, quibes e bolinhas de queijo são fritos na hora, para quem sai da sala com fome. “A clientela é ótima. Movimento um bom dinheiro no final do mês”, diz a vendedora. Cada porção de salgados sai por R$ 3.

Leia também: Complexo do Alemão recebe mostra do Festival do Rio

A reportagem do iG esteve no local durante o sábado (9) e pôde constatar a grande procura que há por ali. A fila se forma uma hora antes da sessão. Os bares próximos tocam, cada um, seus próprios ritmos. Em volume ensurdecedor, a ponto de fazer crer que o som vaze para dentro do cinema. Não é o caso. Soldados do exército, sempre em grupos de três a seis homens, passam armados o tempo todo. Armas atravessadas no peito. Parece coisa de cinema, mas é vida real.

George Magaraia
Soldados das Forças Armadas ocupam a favela desde o final de 2010
Cheiro de pipoca... e de esgoto

O barulho de funk, pagode e Ataulfo Alves misturados das caixas de som “rivais” não incomoda tanto quanto o cheiro de esgoto na rua lateral. O asfalto começa a chegar nas precárias ruas de chão batido. Carros e motos, muitas motos, se confundem em ruazinhas apertadas e sem qualquer sinalização.

As crianças se divertem na pracinha, que passa por uma reforça para, até o começo do ano, ganhar um Módulo de Inclusão Digital, com cursos profissionalizantes e uma videoteca. “Quero ver o Rei Leão com óculos”, pedia um menino à mãe, sobre o filme da Disney com tecnologia 3D, que em breve chegará ao morro.

Do hall de entrada do CineCarioca é possível ver a sala – e a televisão de vinte polegadas - de Karla Matias, que mora bem em frente ao cinema. “Nem preciso atravessar a rua. Sinto como se tivesse um cinema em casa. Vejo toda semana quando chego do trabalho. É bom porque dá uma desestressada na cabeça”, afirma a contadora.

Fila com casais de apaixonados trocando carinhos enquanto esperam a hora da sessão, crianças ansiosas para verem seus personagens favoritos, o cheiro de pipoca que invade as ruas e casebres próximos... O CineCarioca, que completa no próximo natal um ano de funcionamento tem tudo para ser um longa-metragem de sucesso na vida dos que vivem e frequentam a comunidade.

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