MP quer atendimento padronizado para deficientes em vestibulares

Por conta de ação contra Cespe e Inep, organizadores do Enem, movida por organização de cegos, procurador quer criar documento que atenda necessidade de deficientes visuais

Priscilla Borges - iG Brasília |

Maria Eduarda Soares de Mendonça, de 20 anos, terminou o ensino médio no ano passado e, como muitos estudantes dessa etapa, estudou e se preparou para o vestibular. No entanto, ela tem outras limitações a superar além do conhecimento exigido nas questões. Existem barreiras pedagógicas no caminho dela.

Deficiente física e visual (por conta de uma doença rara, ela só possui 20% da visão), a jovem brasiliense obteve das escolas por onde passou todo o auxílio necessário para que disciplinas como Física, Química e Matemática não fossem etéreas. Mais do que difíceis, para cegos, gráficos, tabelas e figuras geométricas, por exemplo, são abstratos.

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No dia da primeira prova da avaliação seriada da Universidade de Brasília (UnB), porém, ela não encontrou o apoio que precisava para mostrar o que sabia de cada conteúdo. Sem inocência, a jovem conta que esperava por dificuldades. Mas acreditou que, antes do grande dia, seria escutada para saber o que precisava para ter as mesmas condições de disputa que um candidato qualquer.

Isso não aconteceu. Inúmeros problemas técnicos e pedagógicos ocorreram na primeira vez e se repetiram nas outras cinco vezes em que participou das seleções da UnB (outras duas etapas do PAS e três vestibulares): ledores despreparados, locais sem acessibilidade, questões inadaptadas para cegos. Ela ainda não conseguiu a sonhada vaga no curso de Direito da instituição.

A história de Maria Eduarda não é isolada. É semelhante às de dezenas de jovens que, na tarde desta terça-feira, se dispuseram a contar a representantes da Procuradoria da República no Distrito Federal, do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da UnB (Cespe) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) todas as dificuldades que enfrentam em exames elaborados por eles.

A proposta partiu do procurador Peterson de Paula Pereira, que investiga denúncias de tratamento inadequado a deficientes visuais em processos seletivos realizados por esses órgãos. A representação com as reclamações dos candidatos foi feita pela Organização de Cegos do Brasil (ONCB). Na tarde desta terça-feira, dia 7, houve uma audiência pública sobre o tema.

Barreiras físicas e pedagógicas
Maria Eduarda arrancou aplausos da plateia com suas reflexões. "Eu nunca fiz um vestibular sem barreiras físicas ou psicológicas. Eu nunca soube se as minhas notas eram minhas ou consequência dos problemas de aplicação da prova. O que eu quero é ter uma nota justa, não importa se boa ou ruim", afirmou.

Muitas das reclamações feitas pelos estudantes cegos ou de baixa visão se concentraram na falta de preparo dos ledores, fiscais capacitados para auxiliá-los durante as provas. Além de "ler" as questões para os candidatos, que muitas vezes já estão em braille, a principal função dos ledores é tentar orientá-los sobre figuras e representações que eles não são capazes de perceber nos cadernos de provas. Além disso, são eles que preenchem os cartões de respostas e passam a limpo a redação, que tem de ser ditada pelos candidatos.

Maria das Graças Ferreira de Morais, 20 anos, contou que, certa vez, uma questão era baseada em um figura que não estava "descrita" na prova dela, nem na prova do ledor, que enxerga e também não tinha a prova original. Quando há uma imagem, em geral, os examinadores colocam um texto "explicando" o que está na figura. Muitas vezes, essa descrição só complica.

"A pessoa não tinha as informações corretas para me dar. Além disso, na hora de passar a limpo a redação, temos muitos problemas. Não sabemos se a caligrafia deles é legível, se nossa nota é nossa mesmo. O ideal seria que a nossa digitação em braille ou em um computador com programa de voz valesse como a oficial", criticou.

Maria das Graças enfrenta uma rotina pesada para tentar realizar o sonho de estudar na UnB. Sai de casa muito cedo, na cidade do Novo Gama, em Goiás, no entorno de Brasília, e passa o dia em cursinhos e recebendo atendimento especializado. Ela admite que, às vezes, fica desanimada, mas não pretende desistir de chegar ao ensino superior.

"As maiores dificuldades são as questões não adaptadas e a falta de qualificação dos ledores. No último vestibular, em uma questão aberta (na qual o candidato precisa elaborar a resposta), exigiram que eu desenhasse um gráfico. Como podem exigir isso de um cego? São questões pedagógicas que precisam ser consideradas, assim como o tempo maior que precisamos para responder todas as questões", desabafa.

Próximos passos

Os representantes do Cespe e do Inep que participaram da reunião mais ouviram do que falaram. Comprometeram-se a estudar o documento com as necessidades dos estudantes e promover mudanças. O procurador Peterson Pereira quer que, ao final, o grupo elabore um documento que padronize o atendimento a deficientes visuais, por exemplo. Uma reunião técnica vai acontecer daqui 30 dias.

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"O inquérito tem um objeto específico, por isso não chamamos para o debate entidades representativas de outros deficientes. Mas nós acreditamos que a administração desses órgãos pode incluir as demandas deles também em, quem sabe, um documento futuro que padronize os procedimentos, por exemplo", ponderou o procurador.

Marcus Vinícius Soares, coordenador do Cespe, também reconheceu que é preciso melhorar os processos. Apontou dificuldades em criar "consenso" sobre alguns pedidos feitos pelos estudantes, como no caso de renovação de laudo médico a cada processo. "Em alguns casos, em que a deficência não pode ser revertida, tudo bem. Mas há outros que não são permanentes", disse.

Algumas dificuldades, segundo ele, "são crônicas", como a formação dos ledores. "Temos de capacitá-los melhor, é verdade, mas eles sempre estarão sujeitos a uma situação nova durante a prova. Por isso, estamos estudando entregar para esses candidatos uma mídia (um CD, por exemplo), com a leitura da prova inteira feita previamente. Com isso, podemos repensar o processo durante a gravação, antes da aplicação", diz.

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