Mau preparo de professor atrapalha ensino de literatura afro

Educadores afirmam que há boas obras e materiais didáticos disponíveis, mas docentes ainda não sabem como trabalhá-los em sala

Marina Morena Costa, iG São Paulo | 20/11/2010 06:01

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Uma menina negra, com vasta cabeleira, tenta entender por que seu cabelo não para quieto. Ela encontra um livro sobre países africanos e passa a compreender a relação entre seus cachos e a África. A história é contada no livro “Cabelo de Lelê”, de Valéria Belém, e segundo a pedagoga e pesquisadora Lucilene Costa e Silva, um dos bons exemplos de literatura afro-brasileira infantil. “Nas séries iniciais, as crianças estão construindo a identidade. Ter acesso a obras que mostrem personagens como elas é fundamental”, avalia.

Lucilene dá aula há 20 anos na rede pública de ensino do Distrito Federal e conta que sentia falta da imagem negra nos livros de literatura infantil. “Cheguei a contar a história ‘Chapeuzinho Vermelho’ usando uma boneca negra com capuz vermelho. Hoje sei que isso não é mais necessário. A África tem histórias, personagens e enredos lindíssimos.”

Atendendo à lei 10.639, que determina o ensino de cultura afro-brasileira nas escolas, o Ministério da Educação (MEC) e as secretarias municipais e estaduais de ensino têm cada vez mais distribuído obras e vídeos protagonizados por personagens negras ou que abordam a diversidade étnico-racial. “É visível o aumento na quantidade de material didático e para-didático disponível sobre o tema após a implantação da lei”, afirma Luciano Braga, professor de Artes há 15 anos das redes municipal e estadual de São Paulo e co-autor, junto com Elizabeth Melo, do livro “História da África e afro-brasileira – em busca das nossas origens”, lançado em 13 de maio de 2010.

Foto: Thinkstock

Educadores afirmam que a literatura infantil sobre diversidade étnica ajuda a combater a discriminação racial

O professor conta que obras com contos e lendas africanas são uma novidade recente nas duas escolas onde dá aulas. “Estamos recebendo livros nos quais o herói é uma criança negra ou onde há personagens brancos e negros. A questão não é valorizar uma cultura ou outra e sim fazer com que a criança se sinta pertencente ao meio. É assim que combatemos a discriminação”, ressalta. Da mesma forma que contos de fada e histórias europeias são narrados em sala de aula, histórias e lendas africanas e indígenas devem ser apresentadas, defende o professor.

No livro infantil “Betina”, de Nilma Lino Gomes, uma avó trança os cabelos da neta e conversa sobre seus ancestrais. “Na África as tranças têm diferentes significados e o cabelo é muito importante para a mulher. Está ligado à identidade”, explica Lucilene. Quando a professora termina de contar a história de Betina, uma menina de rosto redondo, olhos negros e cabelo todo trançado, os alunos ficam encantados. “Todas as crianças, negras e brancas, querem ser a Betina”, conta.

Formação de professores

Lucilene desenvolve pesquisa de mestrado na Universidade de Brasília (UnB) sobre a presença da literatura afro-brasileira no Programa Nacional Biblioteca da Escola do MEC, que distribui obras de literatura, pesquisa e referência para as escolas públicas brasileiras. Apesar de o ministério não ter um levantamento específico das obras que abordam essa temática, a pesquisadora afirma que os livros estão presentes no catálogo oferecido. “É um avanço, mas em muitas escolas do DF as obras chegam e ficam encaixotadas, porque os professores não sabem como trabalhá-las”, afirma.

Em São Paulo, Braga promove palestras e oficinas sobre diversidade étnica e encontra o mesmo problema: materiais didáticos deixados de lado porque os professores não sabem como usá-los.

A coordenadora da área de diversidade do MEC – Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) –, Leonor Franco, reconhece que o principal entrave para a aplicação da lei é a formação dos professores. “O nó da questão é a qualificação, a formação de professores e gestores. Não basta capacitar só os professores, tem que sensibilizar todos os funcionários da escola, os diretores, o secretário de educação. Não adianta colocar livro na escola se o professor não souber o que fazer com aquilo”, afirma.

Segundo Leonor, grande parte do problema está no ensino superior. A temática e o conteúdo da diversidade étnico-racial não estão nos cursos de licenciatura: “Nossa formação continuada é quase uma formação inicial”, critica. Outro desafio é a ampliação de parcerias para oferecer cursos de capacitação. Atualmente os editais do MEC são voltados apenas para instituições de ensino superior federais e estaduais. “Temos secretarias de ensino que têm condições de promover capacitação. O resultado é que a gente tem tido dinheiro (na Secad), mas poucos projetos bons para formação de professores.”

Salloma Salomão, músico e doutor em História Social pela PUC-SP, atua na formação de docentes pela rede de educadores Aruanda Mundi. Nos últimos cinco anos, cerca de 3 mil professores de mais de cinco Estados diferentes foram capacitados. “Faltam investimentos das secretarias em projetos formativos sistemáticos e de longa duração”, aponta. Segundo Salomão, os cursos oferecidos pela Aruanda têm duração mínima de 120 horas, mas o ideal seriam 360 horas e dois anos de duração.

O historiador destaca a importância do uso das tecnologias na capacitação dos docentes. Por meio de plataformas da internet, Salomão promove a interação de professores brasileiros com africanos, principalmente de países de língua portuguesa. “Falar de África não significa tirar o sapato e pisar na terra. Há inúmeras possibilidades com o uso da tecnologia. Eu precisava de um mapa étnico-linguístico da África e um pesquisador da universidade de Coimbra nos forneceu o material. É um processo de aprendizagem com o que há de mais contemporâneo.”
 

Veja a lista de obras de literatura afro-brasileira para crianças indicadas pela professora e pesquisadora Lucilene Costa e Silva:

A serpente de Olumo – Ieda de Oliveira – Ed Cortez Editora
ABC do continente africano –Rogério A. Barbosa – Ed. SM
Anansi, o velho sábio – Um conto Axanti recontado por Kaleki – Ed Companhia das Letrinhas
Ao sul da África – Laurence Questin – Catherine Reisser – Companhia das Letrinhas
Betina – Nilma Lino Gomes – Mazza Edições
Brinque- Book conta fabulas – Bob Hortman e Susie Poule
O Cabelo de Lelê – Valéria Belém – Ibep Nacional
Chuva de Manga – James Rumford – Ed brinque Book
O dia em que Ananse espalhou a sabedoria pelo mundo – Eraldo Miranda – Editora Elementar
Doce princesa Negra- Solange Cianni- Ed-L.G.E
Era uma vez na África – Jean Angelles – Ed. LGE
Euzebia Zanza – Camila Fillinger – Ed Girafinha
O funil Encantado - Jonas Ribeiro - Ed Dimensão
Gente que mora dentro da gente-Jonas Ribeiro-Ed Dimensão
Histórias da Preta – Heloisa Pires Lima –Ed. Companhia das Letrinhas
Ifá, o advinho; Xango, o Trovão; Oxumarê, o Arco-iris – Raginaldo Prandi – Ed. Companhia das Letrinhas
Krokô e Galinhola – Um conto africano por Mate – Ed brinque Book
O livro da paz-Todd Parr- Ed Panda-Book
Lendas Africanas. E a força dos tambores cruzou o mar - Denise Carreira - Ed. salesiana
O mapa – Marilda Castanha – Ed. Dimensão
Meia dura de sangue seco – Lourenço Cazarré – Ed. LGE
Na minha escola todo mundo é igual - Rossana Ramos e Priscila Sanson - Ed Cortez
Nina África – Lenice Gomes, Arlene Holanda e Clayson Gomes – Ed. elementar
A noite e o Maracatu – Fabiano dos Santos – Ed Edições Demócrito Rocha
Orelhas de Mariposa - Luiza Aguilar e Andre Neves-Ed Callis
O presente de Ossanha – Joel Rufino dos Santos- Ed. Global
Por que somos de cores diferentes? – Carmem Gil- Ed girafinha
Que mundo maravilhoso – Julius Lester e Joe Cepeda – Ed Brinque Book
Sergio Capparelli – Ed. Global
Tem gente com fome – Solano Trindade Ed. Nova Alaxandria
Os tesouros de Monifa – Sonia Rosa – Ed Brinque-Book
Todas as crianças da terra – Sidónio Muralha –Ed Global
Uma menina e as diferenças – Maria de Lourdes Stamato de Camilis-Ed Biruta
Viver diferente – Lilian Gorgozinho – Ed L.G. E Editora

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11 Comentários |

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  • Juliana | 19/10/2011 19:35

    Gostaria de contribuir para a discussão já que a culpabilidade sempre cai sobre os professores e eu como professora não concordo com alguns pontos.\n\n1º QUE FORMAÇÃO DE PROFESSORES não resultará em se trabalhar ou não tal literatura. A questão da diversidade étnico-racial é cultural e não é uma questão só de uma esfera a EDUCACIONAL mas de uma sociedade em todos os seus dispositivos!!!! \n2º "Apesar de o ministério não ter um levantamento específico das obras que abordam essa temática, a pesquisadora afirma que os livros estão presentes no catálogo oferecido." O ministério nem um levantamento específico tem sobre a temática então já se percebe a IMPORTÂNCIA em que o assunto é levado a sério.\n3º Já ouvi de professor aqui de São Paulo dizer que pede os livros para o ano letivo e acaba por receber outros. \n4º Eu compro os meus próprios livros pois eu sei da importância de se ter uma escola em que todos sejam representados. \n5º Creio que todos os professores já tenham lido ou visto sobre os temas transversais e um dos eixos fala da pluralidade cultural que também "não são conteúdos obrigatórios e são apenas propostas nas quais as secretarias e unidades escolares poderão se basear para elaborar"... \n\nO professor não está sozinho quando a questão é educar, as mídias educam, a publicidade educa, enfim a cultura de massa faz a sua parte também na educação!!

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  • Obvius | 20/11/2010 19:37


    Buscar coisas da Africa antiga, isso não leva a lugar nenhum, temos que viver a realidade afinal etamos no Brasil e a escravidçao ja acabou a mais de cem anos. Hoje se um filho de imigranre alemão ou Italiano for ao pais de origem de seus antepassados não encotrara mais raizes nenhuma, sera tratado com m estranho.
    No tempo da escravidão os costume eram outros la e aqui. O escravos eram prisioneiros de etnias rivais, e eram vendidos como fonte de renda para os brancos, Então povos negros tambem tem culpa da escravidão negra.

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    Damiana | 10/12/2010 22:24

    Cara vai se informar primeiro antes de falar asneira. A matéria em questão em nenhumn momento trata de escravidão, aliás o único tema que até pouco tempo atrás era abordado nas escolas quando se falava de África. Enquanto as crianças e jovens nas aulas de História Geral aprendiam sobre os grandes acontecimentos, invenções e conquistas dos povos europeus, a África só aparecia nos currículos em assuntos de escravidão ou para mostrar as mazelas do povo africano vitimado por fomes, guerras e doenças. O povo africano nunca era mostrado de forma positiva, com seus valores, crenças, cultura, sempre sendo atribuído um caráter exótico e caricato a suas expressões culturais. A seriedade disso é tamanha que o Egito, o qual é sempre evocado por suas grandezas, belezas, cultura e história, raramente é lembrado como sendo um país africano. È essa situação que se pretende combater e mudar. A África tem muitas contribuições para dar a humanidade. O continente africano possui belezas, riquezas, heróis, reis, princesas, lendas ,poesias, pesquisadores, grandes escritores e nossas crianças precisam tomar contato com isso, precisam se orgulhar disso. Afinal, a maneira como o negro costumeiramente é retratado nesse país sempre foi motivo de vergonha para nossas crianças, provocando abalos em suas auto-imagens, posto estas carecerem de referencial positivo para se identificarem. Que bom que as coisas estão mudando, ainda que timidamente. Oxalá que um dia todas as crianças desse país possam dormir embaladas ao som das lendas e das histórias de princesas africanas e que estas histórias possam conviver lado a lado com os contos de fada nórdicos, como Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida, entre outros, que tanto povoam o imaginário infantil há décadas.

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  • santana | 20/11/2010 15:46

    Muito bom saber que a literatura afro-brasileira, começa, mesmo que lentamente, a ser divulgada em nossas escolas. A esperança é grande quanto às mudanças no comportamento da nossa sociedade com relação ao preconceito racial e cultural, no que se refere ao povo afro. Agora esperamos que governo, em todos os níveis, e, outros organismos competentes ajudem nosso corpo docente, a ter a formação adequada para transmitir aos nossos futuros formadores de opnião, tão necessária cultura.
    Quanto antes melhor.

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  • Marcelo | 20/11/2010 15:31

    Interessante.

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  • Lucia Costa | 20/11/2010 14:46

    Concordo plenamente com o fato de muitos professores não se atualizarem, principalmente no tenge ao conhecimento da cultura afrobrasileira. Material não tem faltado. Claro que é necessário investir em capacitação, porém, alguns professores nem mesmo conhecem a origem do nosso samba e desconhecem a contribuição de muitos compositores negros, do brasil, que impulsionaram o que temos de melhor na música brasileira.Fiquei perplexa ao saber, que muitos colegas meus, não sabem quem foi Jakson do Pandeiro, por exemplo.

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    Alessandra Duarte | 11/12/2010 18:03

    Atualmente conheço professora de faculdade que não sabe se quer quem foi Paulo Freire....Entra em sala lê slides diz que é aula...Enfim os professores não têm cultura nenhuma .
    São culpados da educação está com está...estão piores mas muito piores A CADA DIA QUE PASSA..

    Fazendo com que isso reflita na qualidade do ensino...lógico!

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  • rita davidovich schubsky | 20/11/2010 14:01

    Com exceção do Dr Lomaski que é medico, todos voc~es são colegas meus de profissão-
    PROFESSOR-. Deste modo resolvi enviar uma mensagem coletiva a todos.
    Desejo-lhes muita saúde e serenidade para enfrentar mais um fim de ano escolar que sempre é neurotizante e cansativo
    Aproveito para desejar um Bom Ano a todos com muita saúde e alegrias junto a todos de
    quem vocês gostam.

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  • ADALBERTO | 20/11/2010 12:14

    VIVA ZUMBI

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  • adalberto | 20/11/2010 12:12

    Só queria saber porque a raça negra tem que ter tantas datas comemorativa.

    E a raça branca como é que fica.

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