Culpa por agressões não é só dos alunos, mas de docentes e de currículo defasado

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Isso é o que dizem especialistas consultados pela reportagem; para eles, escolas, docentes e alunos 'não falam mesma língua'

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Para socióloga, "é simplista culpar crianças e adolescentes por tudo o que acontece"


Professores, diretores de escolas, alunos e especialistas em educação ouvidos pela reportagem apontam para direções diversas, sugerindo que agressões contra educadores seriam fruto do histórico familiar dos alunos, da falta de políticas públicas e policiamento e também de professores mal preparados - e até mesmo agressivos.

Enquanto ninguém fala a mesma língua, o Ministério da Educação (MEC) diz não ter dados unificados sobre a violência escolar. Confrontado pela reportagem, porém, o INEP, órgão ligado ao ministério, reconheceu que o tema faz parte da Prova Brasil - avaliação nacional com respostas voluntárias de professores, alunos e diretores.

Os resultados de 2011 apontam que um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos. Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças. Aproximadamente um a cada 50 apanhou de estudantes.

"É simplista culpar crianças e adolescentes por tudo o que acontece", alerta a socióloga Miriam Abramovay, pesquisadora do tema com passagens pela Unesco, Banco Mundial e Unicef.

"A escola tem culpa, porque se isola das comunidades e não se atualiza. E os professores têm péssima formação, simplesmente não conseguem, e muitas vezes nem tentam, conquistar os alunos", diz. "No fim, todos são vítimas."

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Descompasso

Para pesquisadora, a desvalorização do ensino resumiria este descompasso. "A estrutura das escolas parou no século 19, os professores dão aulas como no século 20 e os alunos, sempre conectados, vivem no século 21", diz.

Ela diz que as escolas vivem um "processo de abertura" há 50 anos.

"Se antes havia pouco espaço para as classes populares, hoje a escola se massificou. Todos entram - nem sempre continuam, mas entram. Mas a relação professor–aluno não mudou nada nesse meio tempo e os educadores não sabem lidar com esse novo interlocutor, que antes estava na rua, do lado de fora", diz.

Abramovay diz que a violência não é consequência direta do entorno. "Há escolas em bairros tremendamente violentos que têm resultados satisfatórios. E colégios particulares, ricos, com problemas enormes", observa.

A pesquisadora aponta o trabalho participativo, envolvendo pais e alunos na construção de regras e do currículo escolar, como caminho para reduzir a resistência e a agressividade.

"Os muros das escolas não são simbólicos", afirma. "Eles são reais, ninguém penetra ali. Assim, a escola não é nem protegida, nem protetora", diz.

O educador Jorge Werthein, presidente da Unesco no Brasil entre 1996 e 2005, também diz que a escola "precisa ser acolhedora" e critica a formação dos colegas.

"Diferente do médico, que faz residência, a maioria dos professores que se forma não tem nenhuma experiência em sala. Só pisam lá no primeiro dia, encontram coisas que nunca viveram e não sabem lidar", diz.

Para Wherthein, os educadores precisam se dar conta "da violência que eles próprios exercem sobre os alunos".

"Perseguição, homofobia e exageros nas repreensões" seriam exemplos. "Outra agressão simbólica é o abismo tecnológico que existe entre professores e alunos", diz.

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Celular

Com um olho no smartphone e outro no repórter, os alunos entrevistados parecem concordar com a avaliação.

"Parece que eles vivem fora do tempo. O professor pede para a gente copiar a lição do quadro, mas eu podia tirar uma foto com o celular e prestar atenção no que ele diz", reclamou uma estudante da 8º ano de uma escola em Diadema, ao sul de São Paulo.

A seu lado, espinhas no rosto e sorriso tímido, um adolescente do ensino médio completa. "Sei que celular pode atrapalhar. Não é para usar Facebook e Whatsapp na aula. Mas quando ajuda, por que não, né?", questiona.

Eles reconhecem que as agressões são constantes.

"Na semana passada a professora chamou a atenção de um aluno bagunceiro e ele perguntou se ela não tinha medo de morrer. Ela deu risada e continuou passando a lição", contou uma estudante do 1º ano do ensino médio.

"Tem brigas combinadas também. Os alunos fingem estar dando porrada para o professor vir separar e apanhar também", completou.

Professores ouvidos pela reportagem disseram que a escola, hoje, seria "um espaço de conflito".

"Os professores não são santos que caíram do céu e vêm educar com toda a candura. Sempre que passo pelo pátio me chamam de vagabunda. O educador tenta legitimar a sua autoridade, não consegue, e aí revida", disse uma ex-professora da rede pública, que não quis se identificar.

Eleições

Para Wherthein, é uma tradição que a violência contra professores e alunos não faça parte da agenda dos principais candidatos a cargos políticos.

"A agenda da educação é genérica. 'A educação é importante'... 'Vamos aumentar os investimentos e a carga horária'... 'País bom é país educado'. Nunca nada é objetivo", critica.

O pesquisador afirma que o cotidiano das escolas, ponto crucial na discussão, passa à margem do discurso político.

"Educação e segurança estão sempre no topo das preocupações do eleitorado. Mas os candidatos não entenderam que há cruzamento entre estes temas. Num país como o Brasil, com taxas de morte tão altas (somos um país sem guerra), os conflitos são resolvidos sempre de forma violenta. Dentro da escola inclusive. Então a violência na escola não é algo que vem só da vizinhança, das famílias, é algo que faz parte da nossa sociedade e aparece em todos os setores", diz.

Wherthein diz que uma "nova cultura da solução não-violenta de conflitos" deve ser construída dentro das escolas.

"O caminho não é, portanto, aumentar os mecanismos de repressão, mas aumentar a prevenção por meio da educação e da disseminação de uma cultura pacífica. Escolas e universidades têm que discutir violência! Só assim se transforma as coisas - e essa responsabilidade está nas mãos dos candidatos", afirma.

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