Na China, famílias apostam tudo para filhos chegarem à universidade

Por NYT |

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Conheça a história e os sacrifícios de um casal de agricultores que priorizou educação da filha ao longo da vida, mas não tem certeza de que recompensa virá

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Wu Yiebing desce centenas de metros até uma mina de carvão praticamente todos os dias e lá empunha uma furadeira elétrica por um salário de R$ 1000 por mês com um único objetivo em mente: pagar pela educação da filha. A esposa, Cao Weiping trabalha do amanhecer ao pôr do sol em pomares de maçã durante a temporada, de maio a junho, quando ganha R$ 25 por dia para amarrar pequenos sacos de plástico em torno de cerca de 3.000 maçãs verdes, ainda nas árvores, para protegê-las de insetos. O resto do ano, ela trabalha como balconista substituta, também ganhando pouco por dia, com o mesmo propósito.

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O esforço do casal é o de milhões de famílias chinesas de baixa renda que suportam uma carga financeira pesadíssima para tentar prover aos seus o maior nível educacional possível. No entanto, um diploma universitário já não garante um trabalho bem remunerado, porque o número de diplomados na China quadruplicou na última década.

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Wu Caoying, 19 anos, está no primeiro ano de faculdade e é esperança dos pais para o fim da vida

Wu e Cao, que cresceram em pequenas aldeias no oeste do país e migraram em busca de melhor remuneração, tiveram uma vida pobre. Por quase duas décadas, eles viveram em um apertado apartamento de 19 metros quadrados, com um telhado de sapé. Eles nunca tiveram um carro, não tiram férias – e nunca viram o mar. Ignoraram tradicionais viagens de Ano Novo para a aldeia ancestral por cinco anos seguidos para economizar em tarifas de ônibus e presentes, e para que Wu ganhasse o subsídio de férias extra nas minas. Apesar de sua fragilidade, eles não têm reserva alguma para a aposentadoria.

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Graças a esses sacrifícios, a filha do casal, Wu Caoying, 19, agora está no primeiro ano da faculdade. Ela está entre os milhões de estudantes universitários chineses que foram muito mais longe do que seus pais poderiam ter sonhado. Mas apesar de todo o trabalho duro, ninguém têm certeza se o estudo irá compensar. A filha é ambivalente a respeito de permanecer na escola, onde o custo da anuidade, moradia e alimentação é mais da metade da renda anual combinada dos pais. Mesmo sendo uma estudante ligeiramente acima da média, pensa em desistir, encontrar um emprego e ganhar dinheiro.

"Toda vez que minha filha liga para casa, diz: 'Eu não quero continuar isso'", disse Cao. "E eu digo: 'Você tem que continuar estudando para cuidar de nós quando ficarmos velhos', e ela diz: 'É muita pressão, eu não quero ter toda essa responsabilidade'".

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Cao Weiping e Wu Yiebing no quarto da família com paredes cobertas por cartazes de atriz. Eles investiram tudo para dar educação à filha

Wu sonha em trabalhar em uma grande empresa, mas sabe que muitos graduados acabam desempregados. "Eu acho que posso começar minha própria pequena empresa", diz ela, apesar de reconhecer que não tem o dinheiro ou a experiência necessários.

Para um pai agricultor na China, cada ano de ensino superior custa em média de seis a 15 meses de trabalho, e é difícil para os filhos de famílias pobres obter bolsas de estudo ou outros apoios governamentais. Além disso, eles ainda pagam muitas taxas associadas com o envio de seus filhos para o ensino elementar, médio e superior. Muitos pais também contratam tutores para que seus filhos possam ter notas altas o suficiente nos exames de admissão para entrar na faculdade. E no fim das contas, os cidadãos chineses que apostam todas as suas economias na educação dos filhos têm poucas opções de sobrevivência se a prole for incapaz de encontrar um trabalho após a graduação.

As experiências de Wu Caoying, cuja família o The New York Times acompanha há sete anos, são uma janela para as oportunidades de expansão de ensino e os obstáculos financeiros enfrentados por famílias de toda a China. Os sacrifícios dos pais para educarem sua filha explica como o país consegue formar 8 milhões de chineses anualmente em universidades e faculdades comunitárias.

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Mas os custos de educação superior coincidem com um crescimento mais lento da economia chinesa e a alta do desemprego entre os recém-formados. A possibilidade de jovens como Wu encontrarem empregos que lhes permitam ganhar a vida e ajudar seus pais após a graduação pode ser um grande teste da capacidade da China de manter um crescimento econômico rápido, além de sua estabilidade política e social nos próximos anos. Conheça a história:

Deixando a aldeia

A antiga vila de Mu Zhu Ba está situada em um penhasco com vista para um desfiladeiro íngreme no sudoeste da província de Shaanxi, a aproximadamente 1500 quilômetros de Pequim. Os poucos hectares de terra plana eram até recentemente dedicados para o plantio de milho, arroz e legumes.

Os moradores eram agricultores de subsistência. Todos trabalhavam de sol a sol no plantio, capina e colheita destes produtos que usavam para se alimentar. O trabalho incansável deixava pouca oportunidade para a educação. Cao, 39, aprendeu a ler alguns caracteres chineses nas aulas do primeiro e segundo ano realizadas em sua aldeia. Mas as séries posteriores eram ensinadas em uma escola em uma aldeia maior na outra extremidade do vale, uma caminhada de sete quilômetros de distância, que fez com que Cao abandonasse as aulas.

Seu marido, agora com 43, cresceu em uma vila pobre da mesma forma do outro lado da montanha e não frequentou a escola.

Eles se casaram cedo e Cao tinha acabado de fazer 20 anos quando deu à luz Wu Caoying. O casal ganhava apenas R$ 50 por mês. Quando o bebê cresceu, começaram a se preocupar que ela inevitavelmente abandonaria a escola cedo se tivesse que andar tão longe para frequentar as aulas. Assim como centenas de milhões de outros chineses nas últimas duas décadas, decidiram deixar sua aldeia e suas famílias.

"Todos os pais na aldeia querem que seus filhos frequentem a faculdade, porque só o conhecimento muda o destino", disse Cao.

Quando Wu chegou ao ensino fundamental, o ar da montanha cristalina de Mu Zhu Ba era uma lembrança distante. A família mudou-se para Hanjing, uma comunidade de mineração de carvão nas planícies ao norte da província de Shaanxi, a cerca de 300 km a nordeste de sua aldeia ancestral.

A filha de um mineiro de carvão

Wu Yiebing construiu a casa da família sozinho. Eles compraram a primeira pequena geladeira, um fogão de carvão, um aparelho de som usado e uma lâmpada para a sala de estar e outra para o quarto.

A casa, na periferia rural da cidade, fica ao lado de uma estrada de duas pistas pavimentadas, onde do outro lado existe uma mina de carvão pequena na qual Wu aprendeu a manobrar uma furadeira elétrica e trabalhou em turnos longos. Ele ganhava cerca de R$ 400 por mês, na época, mais o dinheiro para educar a filha.

No quarto da família, onde cartazes da atriz Zhang Ziyi foram colados nas paredes para fornecer isolamento extra, Cao cuidadosamente guardava todos os trabalhos escolares da filha. Wu Caoying estava na sétima série, mas sua escola já lhe ensinava geometria e álgebra em um nível muito mais avançado do que aquele ministrado a americanos na mesma série. Ela também estudava história, geografia e ciências, enchendo cadernos com uma caligrafia elegante.

O problema era o inglês, uma qualificação cada vez mais importante para os alunos que queriam entrar nas melhores universidades. A vila tinha um professor da língua, e Wu começou a aprender inglês na quarta série. Mas, então, o professor partiu e ela não foi capaz de estudar na quinta e sexta séries e só retomou no ano seguinte.

No ensino médio, Wu Caoying começou a frequentar uma escola estatal muito mais longe da casa da família. Muitas escolas na China são internatos, um acordo que permite que os governos locais imponham pesadas taxas sobre os pais. A mensalidade somava R$ 330 por semestre. Para a alimentação eram R$ 15 por semana. Livros, aulas particulares e taxas de exames eram todos extra.

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Wu Yiebi­ng acompanha os estudos de inglês da filha Wu Caoyi­ng, em Hanji­ng, China

No internato

Wu e outras sete adolescentes dormiam em beliches apertados em um dormitório. Ela vestia-se melhor do que as outras garotas, com um casaco azul apertado que sua mãe tinha acabado de lhe dar para o Ano Novo Chinês.

Ela acordava às 5h30 todas as manhãs para estudar, tomava café da manhã às 7h30, em seguida, assistia a aulas das 8h30 às 12h30, 13h30 às 17h30 e das 19h30 às 22h30. Para entretenimento, havia apresentações ocasionais de filmes patrióticos. Ela estudava parte do dia aos sábados e domingos. Mas também entrou para um grupo voluntário que visitava os idosos.

Seu pai, Wu Yiebing já não trabalhava na mina de carvão do outro lado da rua, que foi fechada por causa de uma combinação de preocupações dos reguladores de segurança e o esgotamento da camada de carvão. Ele havia migrado uma vez mais para um trabalho a 13 horas de distância de trem, em uma mina de carvão no deserto do norte. Wu trabalhava 10 horas por dia em períodos de até 30 dias consecutivos. As normas de segurança eram menores na nova mina - e essa é uma indústria que mata milhares de mineiros em acidentes de trabalho todos os anos, e mutila muitos mais.

O novo trabalho, no entanto, permitiu que Wu dobrasse sua renda, e ele trazia de volta o seu pagamento a cada dois meses para a sua esposa pagar a educação da filha.

Sua principal preocupação era o desempenho acadêmico dela, pois pensavam que não estudava o suficiente. "Ela gosta de conversar com os meninos, apesar de não ter um namorado", disse Cao na época.

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Após mina de carvão em frente à casa fechar, Wu Yiebing começou a trabalhar mais e mais longe

Sua filha ficava em 16º lugar em sua classe de 40 alunas, algo respeitável, mas não bom o suficiente a seus olhos. Mas eles se desesperavam por não poder ajudá-la quando chegava em casa no fim de semana. "Nós só temos o ensino fundamental. Nós realmente não sabemos o que ela está estudando", Cao reconheceu.

Sentado em casa enquanto sua filha estava na escola um dia há vários anos, Wu Yiebing disse que estava tão decepcionado com o desempenho de sua filha que não se importaria se ela abandonasse os estudos, pegasse um trem para a província de Guangdong, a 30 horas de distância da costa, e aceitasse um trabalho na linha de montagem de uma fábrica.

Probabilidades contra a juventude rural

À medida que Wu Caoying se aproximava dos exames nacionais para o ensino superior na Primavera de 2011, as probabilidades estavam contra ela, e custos mais pesados caíram sobre os seus pais, como resultado.

Jovens de famílias pobres e rurais acabam pagando mensalidades muito maiores na China do que as crianças de famílias abastadas e urbanas. No entanto, eles frequentam instituições consideravelmente piores, segundo especialistas em finanças educacionais.

O motivo é que poucos filhos de famílias pobres recebem notas altas nos exames nacionais. Então, eles são enviados para escolas de menor qualidade que recebem subsídios menores do governo.

O resultado é que o ensino superior está rapidamente perdendo o seu papel como um nivelador social na China e como uma válvula de segurança para jovens talentosos saírem da pobreza. "As pessoas que recebem o ensino superior tendem a ter vidas relativamente melhores", disse Wang Jiping, o diretor-geral do Instituto Central de Educação Profissional e Técnica na China.

As quatro melhores universidades da China têm resistido à pressão para expandir o número de alunos. Assim, cerca de metade de todos os estudantes universitários agora estudam em um número cada vez maior de universidades politécnicas de menos prestígio e três anos de duração.

Enquanto o governo oferece extenso apoio e empréstimos para estudantes de universidades de quatro anos, há pouca ajuda financeira disponível para estudantes de escolas politécnicas, cujas mensalidades são mais altas.

O exame nacional de admissão fortemente favorece jovens urbanos e mais ricos. As melhores universidades, concentradas em Pequim e Xangai, dão preferência a estudantes do ensino médio local admitindo-os com notas mais baixas do que os alunos de outros lugares. Estudantes rurais precisam de notas mais altas para conquistar um espaço.

Para Wu, vinda de uma família menos favorecida, o desafio de entrar em uma boa universidade se provaria muito grande.

Estudante em uma cidade grande

Wu passou no exame nacional de admissão da faculdade, mas por pouco.

Ela marcou 300 pontos de 750, um pouco acima do limite de 280 para ser autorizada a participar de uma instituição de ensino superior. Muito abaixo dos 600 pontos necessários para as melhores universidades de quatro anos do país. Então, ela entrou para uma politécnica na metrópole de Xi'an, capital da província de Shaanxi.

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Wu Caoying dividia dormitório com sete adolescentes no ensino médio

O que a prejudicou foi a sua fraqueza no inglês. Por outro lado, ela se saiu bem em assuntos chineses e outras matérias.

Sua escola primária em Hanjing já começou a ensinar inglês a partir de jardim de infância, ela disse, acrescentando que espera que a próxima geração se saia melhor no teste nacional.

Wu tentou, sem sucesso até o momento, ser uma aluna exemplar em sua escola politécnica para conseguir transferência para uma afiliada, universidade de quatro anos, onde a taxa de matrícula é 25% menor.

O governo chinês oferece algumas bolsas de estudo para estudantes de ensino politécnico, mas elas estão distribuídas principalmente com base nas notas, e não na necessidade financeira. Os melhores estudantes, muitas vezes de famílias mais abastadas que poderiam dar-lhes mais apoio acadêmico durante seus anos de formação, recebem bolsas que cobrem até três quartos de sua moradia e alimentação.

Estudantes medianos como Wu pagam o custo total e ouvem com frequência as queixas de seus pais. "Eu digo a minha filha para estudar mais para que possa reduzir sua anuidade escolar", disse Cao.

Mas estudar é quase tudo o que Wu faz. Ela diz que ainda não tem namorado: "Eu tenho amigos que têm namorados e eles discutem o tempo todo. É como um aborrecimento".

A grande questão para Wu e sua família está no que ela vai fazer depois da graduação. Ela escolheu se especializar em logística, aprendendo como os bens são distribuídos, uma indústria crescente na China, já que cada vez mais as famílias fazem compras online.

Mas a formação é a mais popular em sua universidade, o que poderia sinalizar um excesso futuro no campo. Essa é uma perspectiva preocupante num momento em que jovens recém-formados na China têm quatro vezes mais chances de ficarem desempregados do que os jovens que fizeram apenas o ensino fundamental, porque os empregos de fábrica são mais abundantes do que as tarefas de escritório.

Wu percebe as probabilidades contra ela. Entre aqueles que se formaram na última primavera, disse ela, "50% ou 60% ainda não têm um emprego".

Cao já está preocupado. A casa da família na rua em frente à mina de carvão abandonada está começando a se deteriorar com a poluição e o vento, e eles têm poupanças escassas para reconstruí-la. Seu marido foi capaz de mudar de casa depois de ter sido contratado em uma nova mina em Hanjing como líder da equipe de perfuração. A responsabilidade extra que lhe permite quase coincidir com o seu salário na mina de carvão deserto, mas na sua idade carregar uma broca pesada está se tornando cada vez mais difícil, e ele não será capaz de continuar a fazer o trabalho duro para sempre. Sua filha é a única esperança dos pais.

"Eu só tenho uma filha, então eu preciso ter certeza de que ela cuidará de mim quando ficar velho", disse Cao. "Minha cabeça está me matando pensando: 'O que será que pode acontecer se ela não conseguir um emprego depois de termos gastado tanto na sua educação?'"

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Após anos de sacrifícios, casal teme que filha não consiga emprego após a graduação

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