Selton Mello, já não é de hoje, quer ser algo mais do que um ator. Em “O Palhaço”, seu segundo filme como cineasta, é também o protagonista, Benjamim, um palhaço em crise de identidade, que ele admite ter enfrentado na época de escrever o roteiro, também de sua autoria.
É isso: Selton Mello quer ser um autor, provocar reflexão, e ao mesmo tempo, feito Dom Quixote, como ele define, dialogar com a multidão de pessoas que o tem como referência de cinema popular.
Selton Mello em "O Palhaço": ator protagoniza e assina o roteiro de seu segundo trabalho como diretor
”É o meu romantismo de acreditar que é possível fazer um filme que se comunique com muita gente, mas que tenha apelo para quem tem possibilidade de fazer outras leituras”, disse o ator em entrevista ao iG, se referindo às “camadas” de interpretação da história.
A julgar pela reação do público no Paulínia Festival de Cinema, onde o filme abriu a competição de longas-metragens de ficção, Selton chegou lá. Filas imensas na porta do Theatro Municipal, princípio de tumulto, sessão dupla para acalmar os fãs e aplausos calorosos em cena aberta. Contudo, ele ainda é reticente. “Era um ambiente favorável, filmamos aqui e boa parte da equipe estava na sessão.”
A estreia de Selton na direção aconteceu com “Feliz Natal” (2008), drama denso sobre uma família desestruturada, com relações emocionais aos cacos. Agora, a família aparece de novo, mas no picadeiro, na forma de uma trupe circense. Na coletiva de imprensa que seguiu a exibição, disse que desta vez, menos afobado, tirou o peso dos ombros e não se preocupou com referências. Mesmo assim, citou várias: Renato Aragão, Hans Christian Andersen, Pinóquio, Chagall, Jacques Tatit e Peter Sellers em “Muito Além do Jardim” (1979).
O ator e diretor mostrou discurso articulado sobre o que faz – “a arte é um organograma emocional, em que se ordena as ideias e sentimentos para criar algo palpável” – e, apesar das referências a sua vida – a crise profissional, a homenagem à sua cidade natal, Passos (MG) –, negou qualquer conteúdo autobiográfico. “Se fizesse um filme autobiográfico, eu mesmo sairia no meio”, brincou.
Na entrevista ao iG, Selton Mello relembra sua estreia no cinema, sua admiração pela figura do palhaço, suas ambições.
iG: Como você vê o "Feliz Natal" hoje?
Selton Mello: Como um filme muito importante de ter feito, como uma coisa até um tanto afobada, de querer me expressar. O primeiro filme é algo querendo falar "sou também isso aqui". Já o segundo é conduzido e concebido de uma forma muito mais plácida. Saiu o peso do primeiro. Então agora quis contar uma história sobre identidade, vocação, sobre o talento nato que você tem, ou o que a vida lhe ofereceu e os dilemas que você tem sobre isso.
Podia ser sobre um advogado que tem pai advogado, mas a figura do palhaço foi a primeira que me veio. Acho que ele representa o artista mais puro e pensei que poderia ser bonito contar isso a partir do ponto de vista de um palhaço. E por ser um palhaço, por ser o circo, coloca toda a discussão também em outro terreno, da imaginação, da fantasia. Torna tudo mais bonito.
iG: O movimento do seu personagem fala não só de vocação, mas de uma jornada de autoconhecimento.
Selton Mello: Quando a gente apresenta o personagem, ele está muito incomodado que não tem uma identidade, que fica andando só com uma certidão de nascimento. Isso é um assunto muito caro ao artista circense, nas pesquisas que a gente fez. São nômades, ciganos, pessoas que não têm um CEP, comprovante de residência...
iG: Quando você teve a ideia para fazer o roteiro, estava com alguma dúvida com relação à sua carreira? O que te balançou?
Selton Mello: Tive uma fase logo depois de começar a dirigir de que não estava tão feliz como ator. Mas a minha capitulação foi bem menos romântica do que a do Benjamim, e mais rápida. No fundo, mesmo assim, tudo é assunto. Quando se vai fazer um filme, você precisa descobrir sobre o que quer falar, qual é o assunto. Como ator, posso topar filmes em que o assunto principal às vezes não me interessa tanto, porque tenho muito interesse em trabalhar com determinado diretor, ou porque o personagem é interessantíssimo, muito louco. Mas como diretor, penso que tem de ser algo que você queira falar, uma mensagem que eu queira mandar. Acho que a mensagem aqui é, primeiro, doce. Isso tem a ver com a fase da minha vida e também porque acho que tem poucos filmes assim. Gostaria como espectador de ver mais filmes assim, que façam bem para o espírito, façam você pensar. Façam bem, mas sem ser algo simplório.
Selton Mello sobre o colega Paulo José: "Um dos atores mais importantes do cinema brasileiro"
iG: O que você achou da reação do público na exibição?
Selton Mello: Eu e minha equipe estamos muito felizes. Foi uma sessão memorável, a maneira como o público entrou no filme e seguiu aquele personagem, a trupe, aquelas aventuras internas e externas. Me deixou bem comovido. Vir aqui com o Paulo [José], que eu acho um dos atores mais importantes do cinema brasileiro, ao lado do José Dumont, por quem tenho a maior admiração e tenho vontade de algum dia fazer alguma coisa junto. Tudo isso é muito rico.
iG: "O Palhaço" lembra um pouco "Bye, Bye Brasil" (79), em que Cacá Diegues flagra uma época em que o entretenimento artesanal, de rua, perdia espaço para a TV. Apesar de não localizar o filme historicamente, você parece ter um olhar mais esperançoso para a sobrevivência dessa arte.
Selton Mello: A fé no produto manufaturado... Romântico, né? Tem isso, essa é a história que a gente fez. Tem também outra coisa, nada fácil, que é tentar fazer um filme que se comunique com um público grande, mas sem perder algumas camadas de entendimento mais finas. Isso é algo dificílimo de conseguir, e nem sei se consegui. A julgar pela sessão, parece que deu certo. Foi uma reação popular no humor, nas coisas engraçadas, e nas emocionantes também. É uma coisa que estou percorrendo, é o meu romantismo de acreditar que é possível fazer um filme que se comunique com muita gente, mas que tenha apelo para quem tem possibilidades de fazer outras leituras. Ele tem elementos e profundidade real para você entender a humanidade daqueles personagens em camadas, e capacidade para se comunicar ao mesmo tempo. Essa é a tentativa, meio quixotesca, que vou tentar até o fim.
Selton Mello no Paulínia Festival de Cinema
iG: O Plínio Profeta, compositor da trilha sonora, comentou que você colaborou muito, chegando até a sugerir notas. Você sente essa necessidade de participar de todas as etapas do filme, como um autor?
Selton Mello: Falando especificamente do Plínio, somos amigos há muito tempo e também sou músico. A música é mais uma etapa do negócio, então eu participava das gravações. Ficava ali, o clarinetista tocando, e eu falava "puxa, isso foi lindo, mas aquela frase que você tocou antes me serve mais".
É legal quando você trabalha num ambiente afetuoso, independente de ser amigo ou não, onde as pessoas se respeitam e trabalham com calma. Mas sim, é isso [postura autoral]. Precisa desse acabamento, para enxergar o filme como um todo. Tenho interesse, prazer nisso. Estive colado na edição de som, na mixagem, em cada plin, póin, tóin... Um trabalho bem meticuloso.
iG: Há cenas inteiras de você e do Paulo no picadeiro. Como foi a preparação para sustentar isso? Houve algum trabalho especial?
Selton Mello: A gente teve um preparador espetacular chamado palhaço Cuxixo [creditado no filme como “personal palhacetor”]. Ele se apresenta no circo do Beto Carrero e é um dos melhores em atividade no país. Nos ensinou gags físicas e me ajudou a detalhar as sequências dos palhaços no picadeiro. Depois já entra a decupagem, o cinema. A sequência inicial no circo, por exemplo, é enorme. Foram dois dias de trabalho: bota câmera de um lado, faz só o Paulo, no dia seguinte, só o meu. É um trabalho de organização mental para enxergar que aquilo tudo vai dar certo, vai montar.
Assista ao trailer de "O Palhaço"