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Inspiração e humildade de Bandeira dominam conferência de abertura da Flip

PARATY ¿ A formação e a inspiração do poeta Manuel Bandeira foram a tônica da conferência de abertura da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, na noite desta quarta-feira (01). O crítico Davi Arrigucci Jr., considerado um dos grandes intérpretes da obra de Bandeira, não poupou superlativos para se referir a ele: o grande poeta moderno e um dos maiores da nossa língua são apenas uma amostra do ufanismo extremo que deu ainda deu origem à frase um país que produziu alguém com essa poesia e fibra moral tem que dar certo. Felizmente, o foco da palestra foi outro, voltado para o amadurecimento do poeta do cotidiano.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Divulgação

Manuel Bandeira: mestre
da poesia do cotidiano

Através de citações e relatos do livro de memórias de Bandeira, "Itinerário de Pasárgada", Arrigucci, com ar professoral, buscou descrever o que ele entendia como emoção poética. Nas palavras do pesquisador, seriam os breves momentos de iluminação e de êxtase que o poeta vivencia e tenta imortalizar em versos. "É a sensação de um universo, um mundo completo, com os mesmos elementos do mundo banal, mas como que musicalizados, nos dando a sensação de totalidade completa."

A procura por esses momentos de iluminação, ou alumbramento, como Bandeira costumava se referir, o levaram ao Morro de Santa Teresa, na década de 1920. Foi lá, na antiga rua do Curvelo, que o poeta descobriu o cotidiano carioca e desenvolveu seu "estilo humilde", falando do que é complexo de modo simples. "Ele forjou um modo de dizer o alumbramento de uma forma humilde, dando sentido solene a palavras do dia-a-dia", explicou Arrigucci. Apesar de cansar a plateia ao analisar em detalhes poemas como "Momento num Café" e "Poema Só para Jaime Ovalle", o conferencista arrancou aplausos entusiasmados no final de sua palestra.

Poeta celebrado e professor, Manuel Bandeira (1886-1968) foi um dos expoentes do movimento modernista, apesar de não ter participado pessoalmente da Semana de Arte Moderna. Também produziu farto material crítico de arte, crônicas esclarecedoras e trabalhos disputados de tradução. Boa parte desse legado está voltando às prateleiras em reedições caprichadas nesta Flip, como "Poesia Completa e Prosa", com mais de 1,7 mil páginas, e "Crônicas Inéditas 2", volume de uma coleção que está reunindo em livro os textos pulverizados de Bandeira na imprensa. Uma curiosidade é que a nova edição de "Estrela da Vida Inteira", outra compilação do autor, traz em CD o próprio declamando amostras de seu trabalho.

A figura de Bandeira ainda vai inspirar diversas atividades na programação principal e na Casa de Cultura, cujo ponto alto deve ser a conferência, no domingo, de Edson Nery da Fonseca, pesquisador, professor emérito da UnB e amigo pessoal do poeta, saudado com palmas ao adentrar a Tenda dos Autores. Os passos do homenageado também são lembrados na exposição fotográfica Os lugares de Bandeira, organizada em parceria com o Instituto Moreira Salles. Recife, Ouro Preto e Rio de Janeiro servem de cenário para imagens que recontam a trajetória de Bandeira.

Centro para e ouve Calcanhotto

Pouco depois, Romulo Fróes e banda subiram ao palco da Tenda do Telão, ao lado da Praça da Matriz, para o primeiro show da noite, enquanto funcionárias da Flip distribuíam champagne a quem entrava. O compositor paulistano pagou o preço de ser a atração de abertura e sofreu com a indiferença do público, que perdeu a excelente performance do grupo, em especial pelas atuações de Fábio Sá no baixo e Curumin na bateria.

Adriana Calcanhotto apareceu em seguida, entrando em cena enquanto declamava "Poética", um poema de Manoel Bandeira. Estou farto do lirismo comedido, do lirismo bem comportado, do lirismo funcionário público, diziam os versos, que a cantora interpretava com vigor, para ao final rasgar o papel e jogar os pedaços ao alto. Lotado, o centro histórico da cidade parou para assistir: a tenda aberta nas laterais e telões estratégicos permitiam que o povo sem ingresso também pudesse se divertir.

O repertório do álbum Maré não encantou muito a plateia, tanto que Adriana chegou a reclamar no microfone que todos estavam muito comportados. Mas foi só ela tocar Esquadros para todo mundo cantar junto e aplaudir forte. A gaúcha ainda lembrou da primeira vez em que se apresentou na Flip, quando o homenageado era Vinícius de Morais. Por isso, tratou de tirar da cartola uma redentora versão de Eu Sei Que Vou Te Amar, acompanhada por um coro de vozes do início ao fim. Sucessos como Devolva-me, Assim Sem Você e Mentiras ainda vieram para não deixar ninguém arrependido de sair de casa, mesmo com a chuva que passou rápida, mas molhou os desavisados.

A maratona da Flip começa nesta quinta-feira com a mesa Novos Traços, que reúne representantes da nova safra dos quadrinhos nacionais ¿ Rafael Grampá  e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, premiados no exterior, e o artista Rafael Coutinho. O cineasta Domingos de Oliveira vem na sequência em uma programação que ainda terá debates sobre ficção e realidade, literatura chinesa e fecha o dia com o discurso ateu do britânico Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio.

Confira abaixo a programação de quinta-feira:

- 10h, Mesa 1: "Novos traços"
Rafael Coutinho
Fábio Moon
Gabriel Bá
Rafael Grampá
Mediação: Joca Reiners Terron

- 11h45, Mesa 2: "Separações"
Rodrigo Lacerda
Domingos de Oliveira
Mediação: Paulo Roberto Pires

- 15h, Mesa 3: "Verdades inventadas"
Tatiana Salem Levy
Arnaldo Bloch
Sérgio Rodrigues
Mediação: Beatriz Resende

- 17h, Mesa 4: "China no divã"
Ma Jian
Xinran
Mediação: Angel Gurría-Quintana

- 19h, Mesa 5: "Deus, um delírio"
Richard Dawkins
Mediação: Silio Boccanera

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