Miranda Otto sobre "Flores Raras": "Não pensei muito sobre personagem ser gay"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Atriz de "O Senhor dos Anéis" fala sobre interpretar Elizabeth Bishop e a experiência de filmar no Brasil

Sem nunca ter visto um filme brasileiro ou lido um poema da norte-americana Elizabeth Bishop, a australiana Miranda Otto topou interpretá-la em "Flores Raras", longa do diretor Bruno Barreto que estreia nesta sexta-feira (16).

Para a atriz de "O Senhor dos Anéis" e "Guerra dos Mundos", o filme representou a chance de conhecer a obra da poeta, passar uma temporada no Rio de Janeiro e trabalhar de um modo diferente do qual estava acostumada. "Foi uma jornada muito emocionante para mim", afirmou, em entrevista ao iG.

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Divulgação
A atriz australiana Miranda Otto promove 'Flores Raras' em SP

Encontrar Otto pessoalmente após assisti-la em "Flores Raras" chega a ser surpreendente: aos 45 anos, ela é muito mais bonita do que aparenta em cena, envelhecida por uma peruca e roupas de época.

Sem a timidez de Bishop, ela fala com empolgação sobre o filme de Barreto, que narra o romance real entre a poeta norte-americana e a empresária brasileira Lota de Macedo Soares (Gloria Pires). 

"O roteiro me impressionou porque as mulheres me pareceram verdadeiras, identificáveis, inteligentes, multifacetadas. Admirei o modo como viveram suas vidas e as soluções que encontraram para seus problemas. É raro encontrar papéis assim", afirmou. "Não pensei muito sobre elas serem gays. Não quis limitar Bishop a isso. Ela era uma pessoa, uma poeta, que amava uma mulher."

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Para Otto, o apoio da comunidade homossexual a "Flores Raras" é bem-vindo, mas o filme tem capacidade de tocar um público mais amplo. "Este filme não é sobre as dificuldades de ser gay. É sobre as dificuldades de qualquer relação: as fases, o ciúme quando a outra pessoa trabalha mais...todo mundo pode se relacionar."

A arte de perder

Ao pesquisar sobre Bishop, Otto percebeu que sua vida foi marcada por perdas, a começar pela morte dos pais. Não por acaso, seu poema mais famoso é "A Arte de Perder" - título que Bruno Barreto lutou para dar ao filme, substituído por "Flores Raras" na hora da distribuição.

"Acho interessante perceber como alguém como Elizabeth, que teve uma vida de perdas, era mais capaz de lidar com elas. Para Lota, que sempre conquistou tudo o que queria, a perda era algo inconcebível, impossível de lidar", comparou a atriz. "Penso que a força de Elizabeth estava em seu compromisso com o pessimismo e a expectativa de que tudo iria acabar."

Imagem do filme 'Flores Raras'. Foto: Lisa Graham/DivulgaçãoImagem do filme 'Flores Raras'. Foto: Lisa Graham/DivulgaçãoCenas do filme “Flores Raras”, com Glória Pires e Miranda Otto . Foto: DivulgaçãoCenas do filme “Flores Raras”, com Glória Pires e Miranda Otto . Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Flores Raras'. Foto: Lisa Graham/DivulgaçãoImagem do filme 'Flores Raras'. Foto: Lisa Graham/DivulgaçãoCenas do filme “Flores Raras”, com Glória Pires e Miranda Otto . Foto: DivulgaçãoCenas do filme “Flores Raras”, com Glória Pires e Miranda Otto . Foto: DivulgaçãoCenas do filme “Flores Raras”, com Glória Pires e Miranda Otto . Foto: Divulgação

A australiana não poupou elogios ao dominío do inglês e à atuação de Pires, que chamou de "incrível, carismática e forte". "Tendo feito novelas, que sempre têm muito diálogo, ela trabalha muito rápido e é mestre em adaptar o roteiro para passar a ideia necessária", definiu.

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Antes de trabalhar com Pires, ela assistiu a um filme da atriz, cujo título não se recorda e do qual entendeu pouco, por não estar legendado. Quando disse a Barreto que não tinha visto "Cidade de Deus", a produção brasileira recente mais famosa do exterior, ele aconselhou: "Não veja antes de vir ao Brasil". "Acho que ele tinha medo de que eu me assustasse", brincou a atriz.

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Miranda Otto, Bruno Barreto e Glória Pires: a equipe de 'Flores Raras'

Apesar das diferenças culturais e de uma intoxicação alimentar que a levou ao hospital, a australiana diz que a experiência de filmar no Brasil foi positiva.

"Me impressionei muito com a questão estética, com o modo como tudo tinha muita beleza e estilo: a fotografia, os cenários, os móveis, os figurinos, os cabelos, a maquiagem. Em outros lugares, os figurantes que ficam lá no fundo vestem alguma coisa, mas nada muito maravilhoso. Aqui todo mundo estava incrível, todos podiam ser protagonistas", elogiou.

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Mas ela também não esconde a percepção de que os sets brasileiros são um pouco mais desorganizados do que aqueles nos quais costuma trabalhar na Austrália, nos Estados Unidos e em alguns lugares da Europa. 

"Por vezes achei um pouco mais caótico. De vez em quando foi difícil para mim não entender o motivo de as coisas estarem mudando ou não saber o que ia ter no dia seguinte. Sou um pouco controladora, gosto de saber exatamente o que está acontecendo", afirmou. "Mas acho que, no fim, foi bom estar numa situação em que eu era surpreendida em vários momentos."

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