Em "Somos Tão Jovens", Thiago Mendonça impressiona como Renato Russo

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Sem uso de playback, ator cantou ao vivo em todas as cenas do longa que retrata a adolescência do vocalista da Legião Urbana

Cinebiografias têm como principal requisito a escolha do protagonista ideal: um ator que seja parecido fisicamente com o biografado e saiba incorporar seus trejeitos e características, além de talentoso o suficiente para não limitar a interpretação a uma mera imitação.

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"Somos Tão Jovens", cinebiografia do cantor Renato Russo que estreia nesta sexta-feira (3), consegue passar por esse primeiro obstáculo. Entre todas as qualidades e defeitos do filme de Antonio Carlos da Fontoura, o que se sobressai é a atuação de Thiago Mendonça, que se apropriou de forma impressionante dos maneirismos e da voz marcante do cantor.

Thiago Mendonça em cena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoShow do Aborto Elétrico no filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoThiago Mendonça e Laila Zaid no filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Somos Tão Jovens'. Foto: Divulgação

O desafio de Mendonça era grande, já que a decisão de não utilizar playback durante as gravações significava que todas as canções do longa seriam cantadas e tocadas ao vivo. Sem experiência como músico, o ator treinou diariamente durante três meses no estúdio de Carlos Trilha, em Brasília, que produziu álbuns de Renato Russo e é o responsável pela direção musical de "Somos Tão Jovens".

O que era uma decisão arriscada se mostrou crucial. Além de conferir mais autenticidade e energia ao filme, as apresentações ao vivo também representam o momento em que Mendonça cresce em cena, mostrando o lado mais forte e fascinante de um cantor que, fora do palco, é temperamental, egocêntrico e por vezes imaturo.

Reprodução
Renato Russo e a versão de Thiago Mendonça em "Somos Tão Jovens"

Não que "Somos Tão Jovens" esteja disposto a questionar demais seu personagem principal. A ideia, aqui, é fazer um filme feliz, juvenil, que não entre a fundo em questões como fama, drogas e aids - distanciando-se, assim, de cinebiografias como "Cazuza" ou mesmo das internacionais "Johnny e June", sobre Johnny Cash, e "Ray", que mostra a trajetória de Ray Charles.

Não por acaso, Fontoura escolheu filmar um recorte muito particular da trajetória de Renato Russo - sua adolescência, deixando de fora a infância e a vida adulta. "Somos Tão Jovens" encontra seu protagonista no final dos anos 1970, quando uma doença degenerativa muscular o deixa isolado no quarto, com livros e discos que se tornam influências. O longa acompanha sua fase punk, fala da primeira banda, Aborto Elétrico, e termina no início dos anos 1980, quando a Legião Urbana se prepara para fazer o primeiro show no Rio de Janeiro.

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Se a parte musical é um acerto de "Somos Tão Jovens", outros elementos vão pelo caminho oposto e incomodam pela artificialidade. É o caso principalmente das cenas com André Pretorius (Sérgio Dalcin), sul-africano que integrou a primeira banda de Renato Russo e deixou o Brasil para servir carreira militar. Ainda que se trate de um personagem real, há algo de fake na caracterização, no sotaque e na atuação, fazendo com que todo o contexto pareça funcionar como desculpa para a inserção de comentários políticos óbvios.

Também há certa artificialidade na forma como as canções são inseridas na história, por vezes forçando conexões entre um momento da trajetória do músico e um verso escrito por ele. Há uma cena, por exemplo, em que Renato está entendiado em uma reunião de jovens certinhos, diferentes dele. É a deixa do filme para falar em "festa estranha com gente esquisita", um dos trechos mais conhecidos de "Eduardo e Mônica".

Há ainda o estranhamento causado por Aninha (Laila Zaid), uma das únicas personagens fictícias da trama. Segundo Fontoura, ela representa amigas e namoradas que o cantor teve durante a adolescência, uma fase em que ainda descobria a sexualidade.

É verdade que o filme pontua as paixões homossexuais do cantor - a principal, por Fávio Lemos, do Capital Inicial -, mas chama a atenção o fato de Aninha, que não existiu, ser mostrada na tela como melhor amiga, base de apoio e grande amor de Renato. Com isso, o filme parece querer seguir uma fórmula mais convencional e capaz de apelar a um público maior.

Há que se reconhecer, porém, que Aninha está no centro do momento mais emocionante de "Somos Tão Jovens", quando o cantor dedica a ela a canção "Ainda é Cedo". "Uma menina me ensinou quase tudo que eu sei", diz o primeiro verso. Não foi esta menina. Mas, como cinema, funciona.

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