"Argo" cria ótimo suspense a partir de resgate real no Irã

Ben Affleck se afirma como diretor no thriller político, que combina retrato saboroso dos bastidores de Hollywood entre os anos 1970 e 1980

Marco Tomazzoni - iG São Paulo |

A história de "Argo" é tão incrível que fica difícil aceitar que aconteceu de verdade. No início de 1980, uma operação da CIA criou um filme de mentirinha para resgatar seis diplomatas norte-americanos de Teerã, pouco depois da Revolução Iraniana, que transformou o país numa república islâmica enfurecida. Em meio a uma verdadeira onda de ódio contra os Estados Unidos, o grupo conseguiu escapar se fazendo passar por uma equipe que procurava no Irã locações para uma ficção científica genérica a la "Star Wars".

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O resgate permaneceu secreto até 1997, quando Bill Clinton trouxe os detalhes a público. George Clooney se interessou em levar o caso para o cinema, mas depois de anos em desenvolvimento, o projeto caiu nas mãos de Ben Affleck, em seu terceiro filme como diretor (Clooney aparece apenas como produtor). Em cartaz a partir desta sexta-feira (9) no Brasil, na esteira de uma ótima carreira nos EUA , "Argo" não só afirma o talento de Aflleck como cineasta, como tem presença quase certa entre os indicados ao Oscar 2013 .

O mérito do filme reside em não só criar um excelente thriller político, mas também um delicioso e bem-humorado segundo ato sobre Hollywood – essa mistura confere um charme sem preço a "Argo".

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A trama começa tensa, quando um grupo de revolucionários invade a embaixada dos EUA em Teerã em apoio à ascensão do aitolá Khomeini ao poder, em novembro de 1979. Cerca de 50 norte-americanos permanecem reféns ali por mais um de ano, mas o objetivo do filme é seguir seis pessoas que conseguiram escapar pela porta dos fundos e se esconderam na casa do embaixador do Canadá. O clima nas ruas é preocupante, com execuções a torto e a direito, e certamente esse seria o destino dos "fugitivos" ianques, caso eles fossem descobertos.

Divulgação
Ben Affleck no set de "Argo": diretor talentoso

Especialista em expatriação, o agente da CIA Tony Mendez (Affleck, em bela participação) começa a planejar com o Departamento de Defesa um plano de resgate. Todas as ideias são estapafúrdias (há quem sugira que os seis pedalem, no inverno, 500 km até a Turquia), mas a "melhor má ideia" é mesmo, por incrível que pareça, simular um grupo de cineastas em busca de lugares exóticos para filmar uma aventura espacial com monstros, robôs, guerreiros e mulheres seminuas.

É aí que entra John Chambers, interpretado com gosto por John Goodman. Especialista em maquiagem e próteses – ganhou um Oscar honorário pelo trabalho em "O Planeta dos Macacos" (1968) –, foi ele quem serviu de contato no mundo cinematográfico para a CIA. Através dele, se chegou ao produtor Lester Siegel (Alan Arkin, sensacional), personagem fictício que colocou o projeto de pé.

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Enquanto se vê o circo formado para tornar "Argo" crível – há a confecção de cartazes, storyboards, lançamento oficial para a imprensa –, o filme aproveita para dar umas alfinetadas na indústria, da ação implacável do Sindicato dos Roteiristas a uma das pérolas do roteiro de Chris Terrio: "até um macaco da Índia aprende a ser diretor em um dia", comenta Chambers, para acalmar Mendez.

Affleck prova que, piadas à parte, na vida real não é bem assim. O galã levou um Oscar de roteiro por "Gênio Indomável" (1997), mas demorou para se afirmar como diretor. Ele veio numa escalada, do irregular "Medo da Verdade" (2007) para o ótimo "Atração Perigosa" (2010). Em "Argo", escalou um elenco acima da média, mesmo nos papéis secundários (destaque para Bryan Cranston como o chefe da CIA), e usou as convenções do suspense com maestria.

The New York Times: Ben Affleck fez equipe "imergir" nos anos 1970 para "Argo"

Não é nada de novo – carros que não pegam, vilões de cara feia, corrida contra o tempo –, mas Affleck segue a cartilha com confiança de veterano. Em combinação com a trilha sonora eficiente de Alexandre Desplat, cria-se um clima de tensão constante, que nunca dá trégua. Um thriller não é exatamente isso?

Pode-se criticar certas inatidões históricas, a demonização do Irã e o infalível americanismo, mas isso nem de longe compromete o todo. "Argo" é entretenimento de primeira.

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