"No" recupera plebiscito que encerrou Era Pinochet no Chile

Estrelado por Gael García Bernal, filme de Pablo Larraín abre Mostra de São Paulo com olhar interessante sobre moral e marketing político

Marco Tomazzoni - iG São Paulo | - Atualizada às

A obra do diretor Pablo Larraín é assombrada pela ditadura chilena. A não ser por sua estreia, "Fuga", os seus três trabalhos posteriores no cinema são marcados pela sombra do governo repressivo de Augusto Pinochet. "No" ("não" em espanhol), filme de abertura da Mostra de São Paulo 2012 , nesta quinta-feira (18), e representante do Chile no Oscar 2013 , fecha essa trilogia expurgando o general do poder, ao recuperar o plebiscito que colocou o país na rota da democracia.

Traz, por isso, um ingrediente novo à obra de Larraín, que cresceu contrário ao regime militar, mesmo sendo filho de um expressivo líder de direita. Em "Tony Manero" (2008), primeiro capítulo da série, há uma mistura de alienação e violência, pontuada pelo fascínio do protagonista por "Embalos de Sábado à Noite". Com "Post Mortem" (2010), exibido em Veneza, um legista antissocial perambula por Santiago na ressaca do golpe que derrubou Salvador Allende. Em comum aos dois, oportunamente também incluídos na programação da Mostra, há uma sensação de terror e impotência que não se dissipa e a presença do fantástico ator Alfredo Castro.

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Castro volta em "No", mas o protagonista agora é o mexicano Gael García Bernal, em um de seus melhores trabalhos. Ele interpreta René Saavedra, publicitário jovem e talentoso em franca ascensão, convidado para assumir a campanha do "não" no plebiscito. Pressionado pela comunidade internacional após 15 anos na presidência, Pinochet convoca um pleito para perguntar à população se deveria continuar à frente do país por mais oito anos, certo de que iria ganhar.

Getty Images
O cineasta chileno Pablo Larraín, de 'No'

A campanha na televisão reservaria 15 minutos para o "sim" e outros 15 para o "não". Aí é que entra Saavedra – enquanto os partidos de esquerda pretendem usar o espaço como plataforma de denúncia das barbaridades cometidas pelo governo, o publicitário quer tratá-lo da mesma maneira que faria com um refrigerante ou qualquer produto na década de 1980 (a cena de abertura, aliás, é hilária).

A partir disso, se chega ao arco-íris utilizado no logo do "não" e ao slogan, "Chile, a alegria está chegando".

Não foi, claro, tão fácil assim. Tachados de "comunistas", os apoiadores do "não" sofriam ameaças constantes, censura e o patrulhamento da parcela pró-Pinochet. Nisso, Luis Guzmán, o chefe de Saavedra (interpretado por Castro com seu brilhantismo habitual), é exemplar.

Logo no início, ele defende uma propaganda como aquilo que os jovens mais necessitam: "rebeldia e destemor, mas com ordem e respeito". Não surpreende que, pouco depois, Guzmán assuma a campanha do "sim" e a carapuça de vilão.

Vencedor do prêmio principal da Quinzena dos Realizadores, mostra paralela do Festival de Cannes, "No" oferece um olhar realista sobre o marketing político, bem na época em que as campanhas passaram a ser seriamente encaradas como um negócio.

A reconstituição histórica, aliás, é exemplar. Os coloridos anos 1980 surgem cristalinos não só na direção de arte, mas na forma – Larraín filmou tudo com câmeras Umatic, trazendo aquela estética lavada e antiga do VHS. O resultado é tão bom que o diretor reconheceu que em certo momento não sabia mais diferenciar o material do arquivo daquele que ele mesmo havia rodado.

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A força do filme, porém, está numa discussão moral. O final feliz traz, sim, uma sensação de redenção, mas não dissipa a ideia de que, mais do que uma luta por ideais, Saavedra estava interessado em vencer e provar um ponto de vista comercial. Por outro lado, a experiência do personagem no exílio e o engajamento de sua ex-mulher (Antonia Zegers, casada com o diretor) alimentam uma dualidade que torna "No" ainda mais interessante e necessário. O longa-metragem entra em cartaz no Brasil em dezembro.

"No" na Mostra de São Paulo 2012 – confira no site oficial
Sexta (19), às 22h30, no Reserva Cultural; sábado (20), às 17h20, no Cine Livraria Cultura 1; domingo (21), às 21h, no Cinemark Cidade Jardim; terça (30), às 14h, no Cine Livraria Cultura 1; quarta (31), às 19h50, no Espaço Itaú Frei Caneca 5

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