"Dez Vezes Venceremos" escapa da armadilha do documentário político

Filme do argentino Cristian Jure sucede a ficção "Artigas" na competição latina de Gramado

Marco Tomazzoni - enviado a Gramado | - Atualizada às

Antes da 40ª edição do Festival de Gramado começar, o curador Rubens Ewald Filho havia comentado , irônico, que neste ano não haveria documentários sobre índios. Ele deve ter esquecido de "Diez Veces Venceremos", dirigido por Cristian Jure, que, embora não fale de indígenas brasileiros, levanta a bandeira dos povos no Chile.

Siga o iG Cultura no Twitter

Segundo longa-metragem da competição latina, exibido nesta terça-feira, "Dez Vez Venceremos" tem produção argentina, pois foi lá que Pascual Pichún se refugiou, na cidade de La Plata. Em meio a luta dos Mapuche para demarcar suas terras no sul chileno, Pascual e sua família foram acusados de atear fogo aos caminhões de uma empresa madeireira. Julgado e condenado, o rapaz, filho do líder local, conseguiu fugir e se exilar na Argentina, onde se matriculou no curso de jornalismo – uma forma, ele imaginou, de combater as "acusações mentirosas" da mídia.

Divulgação
O documentário argentino "Diez Veces Venceremos", rodado na Argentina e Chile

Sete anos depois, Pascual, ainda procurado pela polícia, resolve voltar para as terras de seus ancestrais e enfrentar as consequências, numa realidade um pouco melhor, mas não isenta da influência de empresas hidrelétricas, florestais e de mineração. Por quê? "Podia ter terminado minha faculdade, ganho uma profissão e ter viajado o mundo falando dos Mapuche, mas estaria falando de algo que não conheço mais, de uma história da qual não sou protagonista", justifica.

O diretor Cristian Jure acompanha o retorno do índio para a região de Temulemu e o que se segue é um registro do impacto inicial, da emoção de rever a família e a implantação de uma rádio comunitária pirata, e a esperada prisão do protagonista, que detona uma ampla campanha para sua libertação, na qual os índios passam a ser encarados como presos políticos.

Veja a cobertura do Festival de Gramado 2012

É um cinema militante, engajado, do qual Jure é veterano – já realizou filmes sobre Paraguai, Bolívia e o mundo midiático. O que não quer dizer, felizmente, que seja um mau cinema, pelo contrário. "Dez Vezes Venceremos", lema dos Mapuche em sua luta, emociona e estabelece intimidade entre o espectador e os personagens, papel auxiliado pelo diretor, que não tem problema em mostrar seu diálogo direto com Pascual. O roteiro seguro, sem se deixar prender pela rigidez do formato, deveria servir de exemplo para quem milita no Brasil – a mensagem pode ser o que mais importa, mas transformá-la em cinema de qualidade só a tornaria mais contundente.

Divulgação
O uruguaio "Artigas, La Redota", de Cesar Charlone

Herói uruguaio

No final de semana, foi exibido o primeiro concorrente latino, "Artigas, La Redota", de Cesar Charlone. Uruguaio de nascimento, Charlone se lançou no cinema no Brasil, onde se tornou um requisitado diretor de fotografia, inclusive ganhando uma indicação ao Oscar por "Cidade de Deus". Como cineasta, havia voltado a seu país para realizar o delicioso "O Banheiro do Papa" (2007). Agora, com "Artigas", integra um projeto da TV espanhola, que, em oito longas-metragens, vai retratar os libertadores das nações da América hispânica.

Verdadeiro herói nacional, com estátuas e retratos espalhados por Montevidéu e país afora, José Artigas se tornou célebre através dos quadros do pintor Juan Manuel Blanes, cuja obra está agrupada num belo museu na capital uruguaia. Escrito por Charlone e Pablo Vierci, o roteiro, engenhoso, investiga justamente a fabricação de um ícone para a jovem nação uruguaia – depois da independência, Artigas morreu esquecido no Paraguai. O próprio general revolucionário, interpretado por Jorge Esmoris, reflete sobre isso em certo momento: "Eu sou o que eles querem", diz.

Leia também:  Gramado acerta parceria com Festival de Cinema de Havana

A trama começa com Blanes, em 1884, encarregado de pintar um quadro sobre Artigas, que ninguém sabe direito como era, e retorna a 1811, quando o espião espanhol Guzmán Larra, disfarçado de jornalista, viaja ao acampamento de Artigas e seus seguidores com a missão de matá-lo. A temporada de Larra por ali serve de pretexto para o público entender os ideais do líder, o contexto histórico da região, disputada por Espanha e Portugal, e as bases do estado uruguaio.

Com orçamento para fazer apenas um telefime, Charlone se virou para criar um longa-metragem de época, e conseguiu. "Artigas" se insere com propriedade no contexto do cinema gaúcho histórico, há anos explorado no Rio Grande do Sul, que prima por retomar as tradições próprias do "gaucho", comum ao sul do Brasil, Argentina e Uruguai. Mais do que fazer parte desse movimento, "Artigas" se torna, isso sim, seu expoente. Um exemplo para diretores como Henrique de Freitas Lima ("Contos Gauchescos") e Tabajara Ruas ("Netto Perde Sua Alma").

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG