Artista faz campanha para salvar grafite em prédio de São Paulo

Mobilização online lançada por Daniel Melim arrecada mais de R$ 20 mil para renovar por um ano aluguel do espaço na região da Luz

Luísa Pécora - iG São Paulo | - Atualizada às

Quando a Lei Cidade Limpa forçou a retirada de um enorme outdoor em um prédio na avenida Prestes Maia, em São Paulo, o artista Daniel Melim ganhou a oportunidade de fazer o maior trabalho de sua vida: um mural de 25 x 30 metros que deixou a região da Luz mais colorida. Um ano e meio depois de finalizada, a obra deve continuar existindo graças a uma mobilização popular para arrecadar R$ 26 mil necessários para renovar o aluguel do espaço no prédio. Do contrário, o mural seria apagado e a parede ganharia uma só cor: verde-oliva.

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O mural criado por Daniel Melim em São Paulo

Mesmo acostumado ao caráter efêmero do grafite e das intervenções urbanas, Melim recorreu à internet para manter sua obra exposta por mais tempo. Sua campanha online buscou cem pessoas dispostas a doar R$ 260 reais ao projeto em troca de uma gravura assinada por ele (doações menores também são aceitas, mas não garantem o presente). O dinheiro será usado para pagar a administradora do prédio pelos últimos seis meses de aluguel, já vencidos, e garantir que a obra permaneça no local por mais um ano.

A rapidez com que o dinheiro está sendo arracadado (mais de R$ 20 mil em menos de dois dias) surpreendeu o artista. “Isso mostra que a população aceita esse tipo de arte e quer ver mais iniciativas como essa”, afirmou ao iG . “Talvez isso possa levar a prefeitura a pensar em incentivos e em espaços semelhantes que sejam liberados para o artista, sem que seja necessário pagar por ele.”

Divulgação
Mural de Daniel Melim na região da Luz

Apesar do otimismo, Melim nem tentou buscar ajuda do governo para arrecadar o dinheiro do aluguel do prédio, por se tratar de um espaço particular que sempre cobrou para exibir publicidade antes da Lei Cidade Limpa.

“Acho que a ideia de criar uma corrente é mostrar que murais como esse estendem a arte para todos, desde o pessoal que pega o trem na Estação de Luz até quem está dirigindo seu carro. Todo mundo tem acesso”, afirmou. “Apoiar o projeto significa ajudar a pensar em uma nova cidade e em formas de contribuir para esta cidade sem esperar muito do governo ou da iniciativa privada.”

Propaganda x arte

Foi o patrocínio de uma companhia aérea que permitiu a instalação da obra e o pagamento do primeiro ano de aluguel. Uma equipe de produção que incluía um arquiteto foi responsável pela escolha do local, que o artista considerou perfeito. “A obra tem um recuo legal e dá para ser vista de longe. Além disso, é perto da Estação da Luz, que tem muito movimento”, explicou.

Seis meses de produção culminaram em dez dias de pintura, feita com spray e tinta látex, mas preservando a textura e o aspecto sujo da parede do prédio. Com apenas um ajudante, Melim pintou uma obra cheia de referências à pop art. “Aquele lugar sempre foi conhecido por ter um grande outdoor. Então peguei elementos da propaganda – imagens clichês meio anos 50, a tipografia, balões – e fui desconstruindo cada um deles até criar um desenho”, disse.

Melim tem outros trabalhos semelhantes, embora menores, em São Bernardo do Campo, onde nasceu. No ano passado, foi convidado pela administração municipal para pintar o fundo de casas que formam um parque linear em um bairro periférico, ao lado de mais cinco artistas. Em 2012, fez um mural para o prédio da Pinacoteca da cidade.

Em São Paulo, o próximo projeto já tem data marcada para começar: 26 de dezembro, quando Melim criará uma obra para um prédio de 5 x 25 metros localizado no bairro do Itaim. Esta, a príncipio, não corre risco de desaparecer: quem pediu o desenho foi o próprio dono da propriedade.

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