'Aqui é o único lugar que achei que nunca ia acontecer', diz aluna

Na volta às aulas, pais e alunos dizem que culpa pela tragédia em que um menino de 10 anos atirou contra a professora e se matou não é da escola

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

Celso Lima / Futura Press
Alunos da Escola Municipal Professora Alcina Dantas Feijão voltam às aulas após tragédia
Os alunos da Escola Municipal Professora Alcina Dantas Feijão, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, retornaram às aulas nesta quarta-feira, depois da tragédia em que o aluno D.M.N., de 10 anos, atirou contra a professora dentro da sala de aula e se matou em seguida . A primeira turma do ensino médio, que inicia as aulas às 7h, ressaltou a qualidade da escola e a surpresa com o fato ter acontecido na unidade, considerada uma das melhores do Estado.

“A gente sabe que acontece, mas o único lugar em que eu não esperava era aqui”, disse Dafynie Teixeira Sampaio Garcia, 14 anos, aluna do 1° ano do ensino médio e a primeira a chegar ao colégio nesta manhã. “Quando aconteceu em Realengo, os professores diziam que isso nunca ia acontecer aqui”. Os estudantes do ensino médio ficaram sabendo da tragédia pela televisão e se organizaram para voltarem às aulas vestindo uma camiseta branca por baixo do uniforme azul e alguns levavam nas mãos rosas também brancas.

Segundo Isabela Rossi, 16 anos, também estudante do 1º ano, a intenção é chamar atenção para a necessidade da paz e não para o crime. “Pedimos para ninguém vir de preto, símbolo do luto, porque daqui para frente a gente quer paz”. Elizabeth de Souza, professora, ex-aluna do colégio e mãe de uma estudante, disse que apesar de o episódio ter sido chocante, é preciso “erguer a cabeça”. Para ela, essa é a melhor instituição para a filha estudar. “Eu teria condições de pagar uma escola particular. Sinceramente, se achasse que a escola é culpada não teria nem trazido minha filha mais. Escola, aluno, pai, todo mundo é vítima nesse caso.”

O comerciante Osmar Lázaro de Souza, que tem três filhos na Alcina Dantas Feijão, também isenta a escola da culpa. “Eu tenho uma marcenaria, se os meus filhos cortassem a mão, ia ser minha culpa”, diz ele, triste pelo foco do caso estar no colégio. “A escola não tem nada a ver com isso, ela é excelente, podia ter acontecido na igreja, em qualquer lugar. O que não pode é ter uma arma em casa, mesmo legalizada.”

Psicólogos de plantão

Nesse retorno às aulas, seis psicólogos da prefeitura de São Caetano vão acompanhar as aulas. Segundo Sérgio Mayer, um dos profissionais, não há cronograma de trabalho e as atividades serão definidas conforme a demanda. “Nós vamos apoiá-los, abraça-los, se precisar chorar junto, a gente chora. Estamos aqui para apoiá-los”. A turma do ensino fundamental, a qual pertencia D.M.N. e pode ter sido mais afetada pela tragédia, por ter presenciado o fato, também volta às aulas nesta quarta-feira, mas inicia as atividades no período da tarde.

Homenagem

Um ato pela paz foi realizado, às 10h, em um pátio do colégio. Os cerca de 900 estudantes se reuniram no local, rezaram um Pai Nosso de mãos dadas, soltaram diversas bexigas brancas e gritaram repetidas vezes 'força Alcina', em referência ao nome da escola. Depois cantaram a música 'É Preciso Amar', do grupo Legião Urbana. A homenagem será repetida no intervalo das aulas do período da tarde, às 15h.

Diogo Moreira/Futura Press
Alunos seguram faixa e soltam bexigas em escola onde aluno atirou em professora e se matou

Durante o ato, os alunos seguraram uma faixa de aproximadamente três metros de comprimento com os dizeres: Que Deus acolha a alma de Davi e conforte os corações. Na faixa a assinatura está como Família Alcina, maneira como os estudantes se chamam nas redes sociais, usadas para organizar a homenagem.

Durante o intervalo das aulas desta manhã, professores discursaram no pátio da escola e os alunos aplaudiram todas as falas. Segundo o psicólogo Mayer, os professores passaram aos estudantes palavras de amor e de pensamento no futuro.

Caso

Na última quinta-feira (22), o aluno D.M.N. atirou contra a professora Rosileide Queirós Oliveira, de 38 anos, que estava de frente para a lousa, saiu da sala de aula e se matou. Os dois foram socorridos com vida. O aluno foi atendido no hospital de Emergência Albert Sabin, teve duas paradas cardíacas e morreu.

A professora foi socorrida pelo helicóptero Águia da Polícia Militar e levada para o Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde continua internada. Ela passou por uma cirurgia para retirar a bala que estava alojada na região do quadril e nesta quarta-feira deve passar por outra operação porque foi detectada uma fratura na patela do joelho esquerdo, que pode ter sido causada pela queda da professora, depois de ser baleada.

A arma usada por D. é de seu pai, o guarda civil municipal Milton Nogueira. O revólver é particular, e não da corporação. Nogueira deve ser ouvido pela polícia para esclarecer como guardava a arma em casa e pode responder por negligência.


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