Máfia do jogo do bicho bancou churrasco em batalhão da PM

Preso durante operação Dedo de Deus teria doado 100 kg de carne para festa de PMs, em Teresópolis, aponta investigação

Mario Hugo Monken, iG Rio de Janeiro |

Guto Maia/News Free/Agência O Globo
Dinheiro apreendido durante a Operação Dedo de Deus
Um empresário suspeito de integrar a máfia do jogo do bicho que foi preso na última operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro contra a contravenção teria doado 100 kg de carne para o batalhão da PM de Teresópolis (30º BPM), na região serrana, realizar um churrasco de confraternização de fim de ano, em 2010, disse ao iG um delegado da Corregedoria da Polícia Civil.

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A denúncia sobre a suposta doação consta também em processo que tramita na Vara Criminal de Teresópolis e que resultou na Operação Dedo de Deus , responsável pela prisão de 44 pessoas envolvidas com o jogo ilegal há cerca de duas semanas. Entre os presos, estava o ex-prefeito de Teresópolis Mário Tricano .

Segundo o delegado, o responsável pela suposta doação da carne é o proprietário de um dos maiores haras de Teresópolis, Ronaldo Calaça. De acordo com as investigações, seria o encarregado de estreitar os laços entre os bicheiros e autoridades ligadas à segurança pública. O mesmo recebeu, em julho, do batalhão de Teresópolis, um diploma intitulado de "Amigo da Polícia".

Procurada pelo iG , a assessoria de imprensa da Polícia Militar informou desconhecer o assunto sobre a suposta doação. Segundo a corporação, se houver uma denúncia formal, ela “com certeza” será investigada.

Divulgação/Polícia Civil
Policiais apreenderam joias que pertenciam aos contraventores
Devolução de máquinas

Consta nos autos do processo que policiais, ainda não identificados, seriam suspeitos de devolver aos bicheiros equipamentos eletrônicos que eram apreendidos durante operações. Eles substituiriam o material recolhido por carcaças inutilizáveis. Essas máquinas mencionadas pela Justiça seriam idênticas às de cartões de débito ou crédito e eram utilizadas pela quadrilha para a realização das apostas.

De acordo com os autos, há interceptações telefônicas em que suspeitos não identificados falavam sobre uma operação contra o jogo do bicho. Nas gravações, eles mencionam a substituição dos equipamentos apreendidos por carcaças sem utilização para que o material recolhido fosse recuperado.

Apesar da suspeita levantada pela investigação sobre a participação dos policiais no esquema, apenas dois PMs e um policial civil foram presos na Dedo de Deus, já que outros suspeitos não foram identificados.

A Corregedoria da Polícia Civil, responsável pelo trabalho junto com a Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais), tentará identificar os nomes de outros agentes envolvidos com a contravenção.

Outros bicheiros, como Aniz Abrahão David , o Anísio, patrono da escola de samba Beija-Flor, Luiz Pacheco Drumond, presidente da Imperatriz Leopoldinense, e Hélio Ribeiro, o Helinho , presidente da Acadêmicos do Grande Rio, também eram alvos da operação Dedo de Deus, mas conseguiram escapar. Helinho e Luizinho obtiveram habeas corpus e os mandados contra eles foram revogados.

Pablo Jacob / Agência O Globo
Parte dos R$ 3,9 milhões apreendidos na casa do tio do bicheiro Helinho. Dinheiro estava em rede de esgoto
Homicídio

Durante as investigações, a polícia descobriu que a quadrilha dos bicheiros estaria envolvida em pelo menos um homicídio. A suspeita surgiu a partir de uma conversa em que um suposto PM pede a um contraventor convites para um camarote de uma escola de samba. Na gravação, o homem que seria policial alega que merecia o agrado por ter realizado o serviço de "quebrar alguém".

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Segundo o inquérito, um delegado, cujo nome não foi revelado, é investigado por supostamente colaborar com a quadrilha. A investigação indica que o policial teria determinado a subordinados que consultassem dados de um carro para um dos integrantes do grupo.

A apuração revela também que, mediante ameaças, policiais obrigavam comerciantes da cidade de Teresópolis a instalarem máquinas caça-níqueis em seus estabelecimentos. Dois PMs, que não estão entre os presos, teriam ficado responsáveis por mapear os locais onde os equipamentos seriam colocados. Um deles, inclusive, chegou a comandar um órgão municipal em Cantagalo, no interior fluminense.

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Os policiais também costumavam avisar aos contraventores com antecedência sobre ações para reprimir o jogo ilegal. Com isso, os apontadores substituíam as anotações dos jogos (as chamadas pules) por talonários em branco e só deixavam nas bancas de apostas pouca quantidade de dinheiro.

Policiais presos

Um dos PMs presos suspeitos de ligação com os bicheiros foi identificado como Marco Antônio Coelho Anchieta, lotado no Batalhão de Choque. Segundo as investigações, ele é irmão e homem de confiança de Duivis Coelho Anchieta, apontado como o gerente da Central de Apuração do Jogo do Bicho e responsável pelos pagamentos de propinas.

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O outro PM preso, Luiz Cláudio Laudino, do 22º BPM (Complexo da Maré), é suspeito de transportar o dinheiro das bancas de apostas para a Central de Apuração do Jogo do Bicho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

O policial civil preso, identificado como Eduardo Murilo Dantas Sampaio, é suspeito de ter recebido propina na 64ª DP (Vilar dos Teles, Baixada Fluminense) de uma advogada de Duivis para não autuar pessoas envolvidas com a contravenção

Agência O Globo
Agentes desceram de rapel do helicóptero da polícia na cobertura do prédio do bicheiro Anísio
Lavagem de dinheiro

A investigação sobre os bicheiros também identificou como era lavado o dinheiro obtido com as apostas. Além da aquisição de bens, como hotéis e apartamentos de luxo, veículos, uma emissora de rádio e até haras, os contraventores usariam contas bancárias de uma construtora para movimentar as quantias obtidas com a exploração dos jogos de azar, além de um lava-jato e uma loja de cortinas.

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Consta no inquérito que uma mulher envolvida com os bicheiros tinha um apartamento em um condomínio luxuoso em Fort Lauderdale, na Flórida, que fica próximo de uma das mais famosas praias da costa dos Estados Unidos. O valor do imóvel, segundo a polícia, é incompatível com a condição financeira da suspeita.

Durante a Operação Dedo de Deus, a polícia fez grandes apreensões de dinheiro. Em uma delas, foram arrecadados cerca de R$ 3,9 milhões na casa do tio do bicheiro Hélio Ribeiro, na Barra da Tijuca, na zona oeste da capital. A quantia estava escondida em forros e paredes falsos, plantas, geladeira, vaso sanitário e até na rede de esgoto.

No primeiro dia da operação, os agentes já haviam recolhido R$ 1 milhão, além de joias, oito carros e obras de arte.

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