Subsidiado e subutilizado, símbolo do PAC leva apenas 10 mil usuários por dia e só atende a 11% da população do complexo, muito abaixo dos 70% previstos na inauguração

Teleférico de R$ 210 milhões tem apenas 10 mil usuários por dia, 11% da população do Alemão
Raphael Gomide
Teleférico de R$ 210 milhões tem apenas 10 mil usuários por dia, 11% da população do Alemão
Símbolo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o teleférico do Alemão transporta apenas 10 mil passageiros por dia e custa ao Estado do Rio R$ 2 milhões por mês, em subsídios. O equipamento foi inaugurado em 8 de julho de 2011 , com a presença da presidenta Dilma Rousseff e do governador do Rio, Sérgio Cabral.

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Cada viagem do teleférico custa ao Estado R$ 6,70. Na foto, estação do Adeus
Raphael Gomide
Cada viagem do teleférico custa ao Estado R$ 6,70. Na foto, estação do Adeus
Com passagem social a R$ 1 e 55% dos usuários desfrutando de gratuidade, a empreitada é antieconômica, bancada pelo governo estadual e operada pela Supervia.

A se tomar pelos números, cada viagem de até 3,5km (da estação inicial, Bonsucesso, até a final, Palmeiras) custa aos cofres públicos R$ 6,70 – R$ 2 milhões divididos por 300 mil passageiros/mês. Equivale a 2,4 vezes o preço da passagem do ônibus municipal no Rio (R$ 2,75), 2,3 vezes o valor do trem (R$ 2,90) da mesma Supervia e 2,2 vezes a do metrô (R$ 3,10) – que percorrem caminhos mais longos e tem muito mais passageiros.

Na atual taxa de ocupação, ainda que todos os clientes fizessem viagens só de ida (o normal é o percurso de ida e volta) e fossem moradores dos complexos do Alemão e da Penha, o equipamento de transporte sobre cabos atenderia a apenas 11% da população da região – 94.684 pessoas, de acordo com o IBGE. O percentual está longe da previsão oficial: na inauguração, o governo informou que 70% dos habitantes locais usariam o transporte.

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Eduardo Paes, Sérgio Cabral e Dilma Rousseff em uma das 152 gôndolas do teleférico do Alemão, na inauguração do símbolo do PAC
Roberto Stuckert Filho/PR
Eduardo Paes, Sérgio Cabral e Dilma Rousseff em uma das 152 gôndolas do teleférico do Alemão, na inauguração do símbolo do PAC

Para efeito de comparação, a Supervia tem 540 mil usuários por dia no sistema de trens, com 8 mil km de trilhos. Os passageiros do teleférico representam apenas 0,019% desse total.

Há hoje entre 7 mil e 8 mil habitantes do Alemão cadastrados no sistema, o que lhes permite usufruir de duas viagens diárias gratuitas. Eles correspondem a apenas 8,4% da população dos complexos de favelas, o que demonstra que o equipamento atende apenas a uma pequena parcela dos habitantes da área – razão da instalação do meio de transporte.

Há quem questione a utilidade do equipamento, muito lembrado em peças publicitárias dos governos Sérgio Cabral e Lula/Dilma. Em visita de militares reformados ao Complexo do Alemão, em fevereiro, um oficial da Força de Pacificação do Exército, guia do grupo na estação do Adeus, descreveu assim o equipamento: “Esse teleférico leva de nada a lugar nenhum. É só para aparecer. O uso é reduzido”, afirmou.

Para operar as 152 gôndolas, de 6h às 21h, a Supervia, que administra o teleférico por um contrato provisório, tem 130 funcionários próprios e 70 terceirizados, no total de 200 pessoas. É um funcionário para cada grupo de 50 usuários.

O diretor do teleférico, Luiz de Souza, admite que a empreitada não se pagaria com a tarifa atual – que precisaria ser entre R$ 7 e R$ 8, nas atuais circunstâncias. “É um programa social. Só estamos operando. O foco é dar dignidade às pessoas para produzir economicamente. Tem um efeito enorme de multiplicação na região”, afirmou Luiz de Souza.

'Para eles (moradores), teleférico foi a melhor coisa que aconteceu', diz diretor

Para Luiz de Souza, diretor do teleférico, equipamento dá dignidade aos moradores
Raphael Gomide
Para Luiz de Souza, diretor do teleférico, equipamento dá dignidade aos moradores
Luiz de Souza contesta e diz que “o morador aceita o teleférico muito bem” e “o pessoal se arruma para andar”. “Para eles é a melhor coisa que aconteceu. Nossa imagem (da Supervia) aqui é sensacional, não é só a do trem que quebra”, disse, referindo-se a problemas de operação na linha férrea. Ele ponderou que há composições com até 60 anos de uso, mas disse que em dois anos os trens urbanos estarão novos.

A estudante Mariana Miranda, 17 anos, moradora do Morro do Alemão, elogia o teleférico, que lhe poupa uma caminhada de 30 minutos, do ponto de ônibus até em casa, no alto da comunidade.

Antes, pegava dois ônibus para ir à escola, em Vila Isabel, a 10km dali, mas agora toma uma gôndola e um coletivo. O tempo da volta caiu para menos de 10 minutos, no equipamento, sem esforço físico de subir a ladeira e as escadas de antes.

O diretor reconhece que boa parte dos usuários pagantes é de “turistas” – visitantes, a passeio –, não de moradores. Um desses usuários na manhã de segunda-feira (5) era o taxista Paulo César Florêncio, que pagou R$ 1 na estação de Bonsucesso para fazer o percurso, que leva 16 minutos. “Vou dar uma volta para ver como é, vou até lá em cima na Fazendinha e voltar”, disse ele, animado.

Com eficiência na operação, Supervia tem meta de triplicar usuários em 2013

Teleférico tem seis estações e 152 gôndolas
Raphael Gomide
Teleférico tem seis estações e 152 gôndolas
De acordo com Luiz de Souza, a eficiência da operação do teleférico é de 99,97% sem paradas; a dos trens varia de 82% a 90%, disse o diretor da Supervia.

A capacidade máxima é de 3 mil usuários por hora. Em cada gôndola cabem oito pessoas sentadas, mais duas em pé.

Atualmente, o cadastro de moradores é feito apenas na estação de Bonsucesso, de integração com o trem, mas a Supervia pretende montar postos ambulantes para estimular o uso.

A meta da empresa é triplicar os usuários em 2013.

“Queremos trazer mais gente. A população precisa ser transportada de maneira mais rápida e segura. As pessoas precisam se habituar. Esperamos ter 30 mil passageiros em 2013. A cada dia mais gente usa, as pessoas vão pegando confiança, veem que não tem risco”, afirmou Souza.

O
Raphael Gomide
O "turista" Paulo César passeou no teleférico
De acordo com ele, em Medellín (Colômbia) – fonte de inspiração para o Teleférico do Alemão –, os 5 mil usuários no primeiro ano se transformaram em 23 mil, oito anos depois.

O contrato da Supervia com o Estado vence em julho, mas é renovável por até cinco anos. Segundo Luiz, porém, uma licitação deve ser iniciada já no segundo semestre, e a empresa vai participar.

“Esta é uma tarifa social. Senão, o valor teria de ser R$ 7 ou R$ 8. O estado cobre as despesas. Mas temos interesse na licitação. Enquanto isso o governo vai dar subsídio e vai funcionar.”

O iG ligou para a Secretaria de Transportes do Estado do Rio e explicou o conteúdo da reportagem. A reportagem enviou e-mail com perguntas sobre o tema, mas não obteve resposta até a publicação. A assessoria da secretaria informou que daria uma resposta nesta quinta-feira.

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