Relatório técnico aponta alto risco de incêndio da Biblioteca Nacional

iG teve acesso a documento que aponta perigo para funcionários. Há falta de extintores e de vias de escape, hidrantes obstruídos por móveis, portas bloqueadas, má conservação e escadas com lixo até o teto. Local armazena acervo com 9 milhões de obras

Raphael Gomide iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Três hidrantes são obstruídos por móveis em salas da Biblioteca Nacional, como o da foto, atrás da mesa

Os 9 milhões de volumes da Biblioteca Nacional (BN) , a maior da América Latina, estão em sério risco, por graves falhas de segurança de prevenção de incêndio na sede e no anexo da instituição, no Rio. Essa é a avaliação de um relatório de prevenção de incêndio contratado pela Biblioteca Nacional, ao qual o iG teve acesso com exclusividade. O documento de 28 páginas aponta que correções urgentes devem ser feitas “a fim de evitar consequências seríssimas ao acervo da Fundação Biblioteca Nacional”.

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Escada completamente obstruída no anexo da Biblioteca

Curiosamente, o imponente edifício de seis andares e 102 anos na Avenida Rio Branco teve como projetista o engenheiro Francisco de Souza Aguiar, ex-comandante do Corpo de Bombeiros do então Distrito Federal. Mais de um século depois, o prédio onde trabalham cerca de 600 pessoas é um símbolo do despreparo para a segurança contra o fogo, alerta o duro relatório técnico.

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O documento também aponta falhas de segurança graves no “anexo” da biblioteca, na Avenida Rodrigues Alves (Centro), onde há até um “lixão com cerca de 70 a 80 metros de profundidade, 5 metros de altura e 5 metros de largura”. O prédio de quatro andares onde trabalham 30 pessoas e se guardam acervos da BN e publicações de educação, é considerado em péssimo estado, com “dependências precárias, e um enorme acúmulo material variado (lixo), de grande risco para a edificação”.

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Hidrantes obstruídos por móveis e portas trancadas ou bloqueadas por mureta

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Sala com excesso de volumes na Biblioteca Nacional, sem precaução de incêndio

São inúmeras as falhas apontadas pela auditoria nos dois prédios da BN. Em ambos, faltam extintores de incêndio, há extintores de pó químico onde deveria haver de água – e vice-versa – e há três hidrantes de água confinados em salas e escritórios, completamente obstruídos por móveis. “(Localizamos) O primeiro hidrante da edificação, lamentavelmente com bloqueio total, fechado dentro de uma sala, com acesso difícil e equipamento precário, inclusivo com um esguicho danificado.”

Também não existe escada adequada de escape para o caso de fogo e há portas de escape bloqueadas por muretas de concreto, além de gambiarras elétricas e excesso de livros e volumes espalhados a esmo, sem arrumação ou precaução contra incêndios. Falta sinalização de equipamento preventivo, de rotas de fuga e de como proceder em situações de emergência.

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Mureta impede abertura de porta que seria usada para evacuação da biblioteca

Na sede da Biblioteca, há portas de escape trancadas magneticamente, e nenhum responsável pela segurança tem a chave. “Em situação emergencial deveria haver dispositivo disponível para a abertura das portas”, alerta o relatório.

Um acesso ao quinto andar, com porta de madeira, é bloqueado por mureta de cimento e só abre cerca de 20 centímetros, o que inviabiliza a passagem por ali. “Para situações emergenciais na área será de suma importância para o salvamento de pessoas que possam estar do 7º ao 9º andar do armazém”, diz o texto.

“Para situações emergenciais na área será de suma importância para o salvamento de pessoas que possam estar do 7º ao 9º andar do armazém”. Ocorre que próximo a essa porta há sinais confusos. “Atenção: saída pelo elevador. Utilize esta porta somente em caso de emergência”.

O relatório é de abril de 2011, mas o iG apurou junto a funcionários que a situação pouco mudou. Só em maio, chegaram 60 extintores para a biblioteca.

Escada com passagem só para um é risco para funcionários

O relatório alerta para o risco de vida dos servidores em caso de incêndio nos armazéns, que ocupam do segundo ao quinto andar. “É preocupante a situação dos funcionários que trabalham na área, tendo em vista a existência de uma escada em espiral que só permite uma pessoa de cada vez usá-la. Existem de três em três andares portas que teoricamente serviriam para que os funcionários pudessem abandonar o local em segurança, o que não ocorrerá face ao que constatamos no local”, afirma o documento.

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Lugar identificado como "lixão" pelo relatório fica no anexo da biblioteca

Os elevadores que dão acesso aos armazéns são descritos como “precários” e “em mau estado”. Segundo o documento, é “totalmente inadequado o sistema preventivo para o setor, sendo utilizados extintores que não irão proporcionar uma solução imediata em caso de incêndio.” O relatório alerta ainda: “É preocupante o número de volumes espalhados pelos diversos corredores, sendo que em determinados pontos era difícil o trânsito de pessoas”.

Os técnicos desconfiam da capacidade de bombeamento de água com força de jato até o último andar no caso de combate de incêndio. “No primeiro andar, foi possível verificar um sistema de bomba de pressurização dos hidrantes, não sabendo afirmar até que ponto se pode confiar no seu efetivo funcionamento regular.”

Em frente à casa de máquinas no primeiro andar, há um extintor de água, o que é inadequado. Em caso de curto-circuito, um jato de água poderia eletrocutar o operador da mangueira.

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Em "gambiarra", lâmpada fica ao lado de sensor de fumaça na Biblioteca

Extintores inadequados e sem sinalização de tipo (água, pó químico, gás carbônico) são talvez os problemas mais recorrente – o mais comum são equipamentos de CO2 onde deveriam ser de água pressurizada. “Convém ressaltar que não é adequado utilizar extintores de pó-químico seco em ambientes fechados.”

Foram identificados ainda casos de esguichos de hidrante com defeito, hidrante sem mangueira, acúmulo de embalagens, livros e outros materiais de risco.

No armazém de obras gerais, o relatório alerta que “são necessárias algumas observações pertinentes, a fim de que não venha ocorrer um acidente irreparável.”

O acesso ao armazém é por um “elevador precário” e por corredores estreitos, entre estantes, aparelhos de refrigeração, ventiladores, mesas, extintores. A ligação entre os andares é por uma escada metálica, em espiral, pela qual só passa uma pessoa por vez.

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Casa de máquina da biblioteca tem fios soltos e "gatilhos"

No térreo da BN, o relatório aponta que causa “preocupação a grande quantidade de caixas, livros, embalagens e outros, aumentando consideravelmente a carga de incêndio e o risco em toda a edificação.”

Há “acentuada carência” de meio de comunicação para o caso de emergência, e o relatório sugere a instalação de sistema de áudio, com saídas de som estratégicas, abrangendo todas as áreas da Biblioteca Nacional e do anexo.

O documento também afirma que “a comunicação visual deverá ser padronizada, ostensiva e objetiva, com mensagens corretas, visíveis e chamativas, para alertar os funcionários e visitantes”.

O sistema de ar-condicionado e a casa de máquina dos elevadores dos armazéns ficam na cobertura, “sem nenhuma proteção adequada, nem física nem preventiva”, sem abrigo às intempéries; a manutenção é precária, e a segurança preventiva, nenhuma.

Em abril, um vazamento no sistema de refrigeração da biblioteca inundou o armazém de periódicos da instituição. Desde então, o ar-condicionado não funciona.

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Sistema de ar-condicionado da biblioteca fica exposto, sem proteção física ou preventiva

A obrigatória rede de para-raios não existe e há improvisações perigosas, como uma lâmpada pendurada a centímetros do sensor de fumaça.

“Desleixo completo, com fiação improvisada”, cupim e lixo no anexo

O prédio anexo, na Avenida Rodrigues Alves, está em situação ainda mais grave que a da sede da BN, segundo o documento.

Cheia de entulho, a escada que liga o térreo ao segundo andar está “obstruída até o teto” e “absurdamente bloqueada”, conforme o documento.

Dos dois elevadores existentes, um está em “péssima condição de uso, com as portas empenadas, podendo ocasionar acidentes”, e a casa de máquinas está “um desleixo complexo, com a fiação improvisada”.

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Anexo da Biblioteca Nacional tem acúmulo de material desordenado, sem precaução

“Deve o mais breve possível ser providenciada a recuperação total das dependências da casa de máquinas do elevador. Além da precariedade das instalações, sem nenhuma segurança preventiva de acordo com a legislação, fiação a descoberto, mau estado de conservação oferecendo risco a qualquer operador que tenha que realizar manutenção do equipamento.”

O segundo andar tem “grande infestação de cupim”. O quarto andar, foi descrito como de “total descuido, com os livros e documentos que deveriam estar mais bem armazenados e protegidos, principalmente levando-se em conta que em um dos locais existe um terminal de gás ativado, e encontramos várias guimbas de cigarro. Caso não seja tomada uma providência de imediato, não vai demorar muito para que o jirau dessa dependência venha a desabar, devido ao cupim”.

A inspeção afirmou ser difícil saber o tipo de material armazenado no local “por falta de indicação apropriada e em virtude da promiscuidade dos volumes ali jogados”.

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Acúmulo de material impede circulação no anexo

Também “há pacotes espalhados e amontoados, muitas vezes impedindo o trânsito pelos corredores”. A parte elétrica está "totalmente comprometida" e alguns locais não puderam ser vistoriados por estarem fechados com “trincos, cadeados, chave, etc.”, o que poderia ser grave no caso de fogo.

“A área é muito extensa, sendo necessário redobrar os cuidados voltados para a prevenção de incêndio. Encontramos quatro hidrantes antigos desativados, incompatíveis com os sistemas atuais. Toda a área do quarto andar necessita de uma verificação profunda em todo o sistema elétrico”, afirma o documento.

Não há lá nenhuma sinalização junto às escadas, nem corrimão, “o que dificultará a sua utilização em uma situação de emergência”, avisa o documento.

Chamou a atenção da equipe de vistoria ainda a grande quantidade de puffs coloridos armazenados no jirau, “oferecendo grande risco”. Em um cômodo, havia “garrafa de álcool, tênis, desinfetante, cola, fita adesiva e até documentos da biblioteca jogados”.

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Centenas de puffs coloridos são armazenados no anexo da biblioteca

A desolação do técnico se manifestou quando visitou o terceiro andar da edificação.

“Em algumas situações, o terceiro andar conseguia quase o impossível de estar pior que o quarto andar”.

O documento afirma ainda que não há ordenação adequada na guarda dos livros e outras publicações, havendo "proliferação de publicações, colocando toda a área em risco".

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