À espera do fechamento, Juquery agoniza e vê funcionários virarem pacientes

Por Anderson Passos - iG São Paulo |

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Complexo psiquiátrico fundado em SP no final do século 19 mantém 151 internos. Reportagem do iG esteve no local

O corpo em turbilhão antes da cerimônia de horror do eletrochoque: rigidez muscular, olhos esbugalhados, saliva abundante. Gritos ecoando pelos corredores do Juquery. A cena do passado parece iminente a cada passo dado no complexo psiquiátrico localizado a 30 quilômetros de São Paulo. E segue viva, e perturbadora, na mente de quem participa ou participou da rotina do local.

Reprodução/Facebook
O Juquery foi fundado por Franco da Rocha em 1898 e chegou a abrigar 20 mil pessoas

O iG teve acesso ao conjunto de prédios projetado por Ramos Azevedo, fundado por Franco da Rocha em 1898 e que, nos anos 70 e 80, chegou a abrigar entre 16 mil e 20 mil pacientes. O local, uma área de 185 mil metros quadrados, vive um processo de desativação que já dura uma década. Continuam no Juquery 151 internos remanescentes de períodos anteriores. Segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, são pessoas que "estão internadas há mais de 30 anos e não possuem retaguarda para reinserção social, devido à ausência dos familiares".

"A despeito de todas as dificuldades, no decorrer da última década o Hospital concentrou esforços com intuito de localizá-los. Nos últimos três anos ocorreram cinco altas familiares", diz a Secretaria de Saúde, em nota.

A cenário atual é menos horripilante que os dias de eletrochoque, mas igualmente triste. Quase tudo está envolto em mato, com jardins em desalinho. Os pacientes que seguem na instituição são invisíveis. Os funcionários vivem pelas sombras. O Juquery, às vésperas de 2015, é um retrato da desolação. Cães perambulam às dezenas ocupando espaços como os assentos de madeira das antigas áreas de espera na parte externa dos prédios. “Tem mais cachorro que gente” é uma frase comum entre os servidores.

Veja imagens feitas pela reportagem do iG no Juquery:

“Deixamos de ser cuidadores dos pacientes para ser cuidadores dos funcionários”, desabafa uma servidora pedindo sigilo. O iG flagrou dois casos apontados por servidores: Terezinha (nome fictício) desentendeu-se com a chefia e foi transferida para a lavanderia. Lá, adoeceu e teve de se licenciar. Com dificuldades para falar e articular ideias, ela conta que estava no complexo para uma nova consulta – e um novo atestado médico. Narrou passagens desconexas de sua vida. “Sem foco não consigo resolver meus problemas”, reconheceu.

Outro funcionário que virou paciente cruzou com a reportagem acompanhado por dois cães nem uma passada agitada. Fumava um cigarro de palha. Chegando à porta de uma unidade disse algo ininteligível, aos gritos, a uma enfermeira e retomou o andar nervoso e sem destino. Tinha o olhar vazio e falava com alguém que não se podia ver.

Veja fotos do Complexo do Juquery:

Acesso principal do hospital Juquery em Franco da Rocha. Foto: Ricardo Shinji/iGOrganograma fixado na parede da 3ª Colônia, no Juquery. Foto: Ricardo Shinji/iGCorredores vazios e mato alto mostram abandono do Juquery. Foto: Ricardo Shinji/iGCerca recentemente colocada nos fundos da 3ª Colônia no Hospital Juquery. Foto: Ricardo Shinji/iGO Hospital Juquery visto do alto em imagem de 2005. Foto: Reprodução/FacebookUm dos acessos principais do Hospital Juquery em Franco da Rocha. Foto: Reprodução/FacebookParte externa do Hospital Juquery, em Franco da Rocha. Foto: Reprodução/FacebookO Juquery foi fundado por Franco da Rocha em 1898 e chegou a abrigar 20 mil pessoas. Foto: Reprodução/FacebookAntigo espaço dos tuberculosos no Juquery. Foto: Reprodução/FacebookDaniel Navarro Sonim (E) e Walter Farias (D) escreveram O Capa-Branca. Foto: Nicole Bressane

O Sindicato dos Trabalhadores Públicos na Saúde no Estado de São Paulo (Sindsaúde) confirma que há denúncias de que os funcionários que restam no Juquery vêm ficando doentes. São frequentes os relatos de internações, assim como os pedidos de afastamento por questões de saúde. 

A Secretaria de Saúde de São Paulo não se manifestou a respeito do quadro atual de funcionários ou do número atual de afastamentos de servidores.

Contagem regressiva

Os 151 internos do Juquery estão concentrados na chamada 3ª Colônia. Ao acessar os fundos do local, a reportagem do iG visualizou uma das enfermarias. O cheiro mais marcante é o de cigarro de palha ou industrializado – itens disputados como ouro e jamais compartilhados entre os pacientes. Tão logo a porta foi aberta por uma funcionária, uma paciente idosa tentou sair correndo. Foi imediatamente contida.

Um pátio nos fundos com árvores frutíferas permite aos pacientes realizarem atividades como confecção de tapetes, sacolas de pano e fronhas. Eles também pintam quadros. O grupo, inclusive, vai uma vez por mês ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) como atividade terapêutica.

Na medida em que os pacientes morrem, o leito é fechado. Vale o mesmo para o servidor que se aposenta. A vaga é encerrada. É uma contagem regressiva digna de filme de terror.

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Juquery em agonia

O quadro atual do complexo, um doente em estado terminal, tem uma causa específica: a reforma manicomial aprovada nos anos 90 e a Lei Federal 10.216/2011 que que veda internações de longo prazo com um desdobramento interminável: a ofensiva do governo de São Paulo para desativar o hospital, processo que já transcorre há dez anos. 

A mudança nos manuais de atendimento psiquiátrico baniu não apenas a terapia do eletrochoque, item comumente usado para acalmar pacientes em estado de surto, como barrou a ideia de que longas internações podem recuperar os doentes. Em consequência disso, provocou a migração de pacientes do Juquery para instituições privadas ou mantidas por organizações sociais vizinhas. 

Servidores relatam que os internos que não tiveram a sorte de ir para outro hospital passaram a perambular pela cidade de Franco da Rocha, sem destino. “Foi um negócio de deixar paciente na rua aqui que foi absurdo”, conta uma funcionária.

A última transferência massiva lotou quatro ônibus em um sem número de viagens num feriado de 7 de setembro prolongado. “Foi em 2011. Deram ponto facultativo para os funcionários numa terça, doparam os pacientes e na quarta, quinta e sexta seguintes levaram [os pacientes] embora. A gente fica se perguntando pra onde foram”, diz uma funcionária. 

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