Manifestações que se espalharam pelo Brasil nos últimos meses ainda registraram oito mortes e ao menos 2 mil detenções

Patrícia, Tércio, Sérgio, Vitor, Giuliana, Júlio. Cidadãos paulistanos de origens e criações distintas que provavelmente teriam pouco em comum além do fato de fazerem parte do cotidiano de uma cidade com população de quase 12 milhões. Mas, de alguma forma, de um ano para cá suas histórias se cruzaram. Assim como tantos outros, os seis entraram para as estatísticas de vítimas de ferimentos das manifestações realizadas na capital paulista desde junho de 2013, movimentos que reverberam pelas ruas da metrópole e de tantos outros municípios do País até hoje, a poucos dias do início da Copa do Mundo.

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Não há números oficiais, mas os dados disponíveis deixam claro que foi grande o volume de feridos nos protestos nos últimos meses. Levantamento feito pela ONG Artigo 19 usando como base reportagens, dados de movimentos sociais e da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) calcula em ao menos 837 as vítimas, a maioria cidadãos comuns, nos 696 atos do tipo realizados entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2013. Foram registradas oito mortes, como a do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago de Andrade, vítima de um explosivo de rojão atirado por um manifestante no Rio, em fevereiro, além de 2 mil pessoas encaminhadas a delegacias do País no período - 1212 só em junho, auge dos protestos.

Para ter um balanço mais próximo à realidade, na última semana o iG entrou em contato com a secretária de Segurança Pública do Estado de São Paulo e com a Polícia Militar do Rio de Janeiro solicitando dados oficiais das vítimas dos atos nos dois maiores municípios da federação. Ambas as instituições se recusaram a fornecer o número de civis feridos nos protestos, se limitando a enviar números de detenções e, no caso fluminense, também de casos de PMs machucados nas operações.

A professora Patrícia Rodsenko após ser atingida em São Paulo, no dia 15 de maio de 2014
Facebook/Reprodução
A professora Patrícia Rodsenko após ser atingida em São Paulo, no dia 15 de maio de 2014


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No total, 304 pessoas foram conduzidas a delegacias pela polícia do Rio de Janeiro em atos entre junho de 2013 e o mesmo mês deste ano, período em que 56 PMs foram feridos. Na capital paulista, a SSP afirma não possuir os números totais, fornecendo apenas dados sobre detenções em quatro datas escolhidas pela reportagem para o balanço - 13 de junho, 7 de setembro, 22 de fevereiro e 15 de maio. Somados os quatro protestos, foram 542 indivíduos detidos para averiguação. Alguns deles por portar substâncias como vinagre, caso do repórter Piero Locatelli , da revista Carta Capital.

O dia 13 de junho acabou se tornando um símbolo dessas ações. Na ocasião, ao menos cem civis ficaram feridos só na capital paulista, segundo o MPL. Entre eles, 24 repórteres e fotógrafos, boa parte mesmo portando identificação que os qualificava como imprensa. Três foram atingidos por balas de borracha no rosto: os fotógrafos Fábio Braga e Sérgio Silva e a repórter Giuliana Vallone.

"Naquela noite, a polícia não estava preocupada onde iria atingir e de que forma usaria o armamento. Estava atirando na direção da cabeça das pessoas, do peito. Mirando realmente regiões delicadas", recorda o fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu o olho esquerdo na ocasião após ter levado o tiro.

Arbitrariedades contra a imprensa, por sinal, se tornaram comuns nos mais diferentes protestos. Levantamento da Abraji calcula que ao menos 138 profissionais da área sofreram algum tipo de violação de seu trabalho durante coberturas nas ruas. Destes, 12 foram detidos, sendo que dois deles permanceram presos por quatro dias; 25 foram agredidos e/ou hostilizados por manifestantes; mais de 80, por policiais, a maioria com balas de borracha, gás de pimenta ou golpes de cassetetes.

"Em relação a eventuais abusos cometidos por policiais durante as manifestações, a SSP esclarece que ainda não foram finalizadas as apurações pela Corregedoria da PM. As apurações esbarram na dificuldade de identificar eventuais policiais que tenham cometido abusos ou crimes, uma vez que muitas pessoas arroladas como testemunhas não compareceram para depor", diz em nota a assessoria de comunicação da Secretária de Segurança Pública de São Paulo. "Há, ainda, situações em que as próprias vítimas deixam de formular queixa na corporação, como no do caso do fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu a visão e, que por orientação de seu advogado, não registrou boletim de ocorrência. Essa forma de proceder também tem dificultado em muito a conclusão das apurações. É importante lembrar que as investigações da Corregedoria foram abertas para acompanhamento do Ministério Público."

Mas o cenário permaneceu e permanece complicado para quem vai às ruas. Meses depois da agressão a Silva, em protesto no dia 7 de setembro, data em que é celebrada a Independência do Brasil, o estudante Vitor Araújo também foi atingido por uma bomba no rosto e perdeu a visão do olho direito, além de ter precisado passar por cirurgia para reconstrução facial. No mesmo dia, o fotógrafo Tércio Teixeira, do Grupo Folha, foi ferido por um estilhaço de bala de arma de fogo na região central de São Paulo. Segundo ele, o tiro, que resvalou em seu queixo e perna, foi efetuado por um policial quando manifestantes indignados jogavam pedras em viaturas após um atropelamento de civis na região.

"O policial sacou a arma e efetuou dois disparos na direção das pessoas. Quando percebi, me protegi atrás de um poste a uns cinco metros de distância e comecei a fotografar", recorda ele. "Percebendo minha presença, o PM apontou a arma para mim e, mesmo depois de eu ter me identificado, ele efetuou vários disparos no chão, que era de pedra portuguesa, e acabaram ricocheteando em mim."

Mais recentemente, no dia 15 de maio, quando diversas manifestações contra a Copa do Mundo se espalharam pelo País, foi a vez do padre Júlio Lancelotti engrossar as estatísticas. Figura conhecida por suas ações junto a pessoas carentes na cidade, ele acabou atingido por estilhaços de bomba na perna. "Foi uma ação truculenta, com claro intuito de abortar a manifestação, amplamente permitida por nossa Constituição", enfatiza Lancelotti. "A violência como um todo foi terrível. As pessoas fechadas dentro do Metrô sem poder sair, as bombas por todo lado, a fumaça. É difícil descrever. Foi terrível."

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Assim como vítimas de bala perdida em cidades grandes, pessoas sem qualquer ligação com os protestos também não têm segurança garantida se próximas e eles. É o caso da jovem Patrícia Rodsenko. No mesmo dia 15 de maio, a professora de 29 anos se aproximava da estação Paulista do Metrô, na rua da Consolação, quando percebeu a aproximação de duas viaturas da PM guiando pela contramão. De repente, sentiu uma forte pancada no rosto.

"Eu tinha ido ao cinema com uma amiga e, como percebi que o protesto ainda estava acontecendo na avenida Paulista, decidi esperar a poeira abaixar dentro de um café. Ficamos lá por uma hora, até termos a certeza de que tinha tudo acabado. Entretanto, quando chegávamos ao Metrô, com um pequeno grupo de uns 30 manifestantes atrás de nós, os policiais passaram e ouvi dois estouros de bomba perto de mim. Quando ouvi o terceiro, senti o impacto", conta ela, que só não perdeu o olho esquerdo por um milagre, segundo lhe disseram os médicos responsáveis por seu atendimento no Hospital das Clínicas.

"Tive uma fratura no nariz e no osso ocular abaixo do olho. Na semana retrasada, fiz uma cirurgia no nariz. Não sei se foi bala de borracha ou estilhaço de bomba. A única certeza que tenho é que foi um ataque dos policiais, uma verdadeira covardia porque não havia nada acontecendo, o grupo caminhava com tranquilidade."

Enquanto a violência de manifestantes, normalmente contra objetos e sedes de instituições, foi pouco comentada pelos entrevistados, as críticas ao comportamento da PM nos atos é unânime. De todos as pessoas consultadas pelo iG , não houve sequer um comentário elogioso às ações da polícia nos protestos. Segundo eles, em geral a violência é aplicada antes por PMs e, mesmo em casos de retaliação a agressões de civis, é feita de forma desproporcional.

Fotógrafo Sérgio Silva mostra a prótese ocular colocada no lugar do olho cego, em janeiro
Facebook/Reprodução
Fotógrafo Sérgio Silva mostra a prótese ocular colocada no lugar do olho cego, em janeiro

"A PM agiu de maneira arbitrária e excessiva em diferentes dias [...], mas não sofri nenhuma hostilização de manifestantes durante os protestos", conta Piero Locatelli, impedido de fazer seu trabalho de repórter devido a uma detenção de cerca de duas horas no dia 13 de junho. "Parece que a cada dia pioram essas ações da PM", relata Vanessa de Santos, uma das articuladoras do Comitê Popular da Copa, responsável pela organização da passeata 15M, realizada no dia dos ferimentos de Rodsenko e Lancelotti. "O Estado só prova que não tem diálogo com a população. Temos visto com frequência a PM atirando pelas costas dos manifestantes e imagens de vídeos só constatam essas ações, sempre marcados por gritos de 'polícia covarde' ao fundo."

Com a visibilidade mundial que a Copa do Mundo traz ao Brasil, o número de protestos pelo País deve aumentar nas próximas semanas, segundo discurso de lideranças dos principais movimentos atualmente nas ruas das grandes cidades do País. Com isso, há também o temor de que, concomitante a isso, para evitar uma imagem negativa na mídia, a polícia aumente sua truculência para enforcar protestos antes mesmo de começarem. "O que afasta a população das ruas é basicamente a violência policial", analisa Ruy Braga, do Departamento de Sociologia da USP. "O que eu acho que deve acontecer é um aumento da repressão policial sobre os manifestantes."

Ao menos em São Paulo, a SSP rechaça essa possibilidade. "A Polícia Militar está preparada para atuar em protestos com o objetivo de defender o direito à livre manifestação e conter indivíduos que se aproveitem desses episódios para violar a ordem pública, praticando depredações, tumultos e crimes. Os policiais receberam treinamentos específicos de técnicas não-letais, como uso progressivo da força e defesa pessoal, com o objetivo de habilitá-los a atuar na retirada de pessoas que estiverem promovendo depredações ao patrimônio público e privado, agressões a civis e policiais militares", afirma a nota.

O iG também tentou ouvir as vítimas do outro lado, pertencentes à PM. Foram solicitadas entrevistas com o soldado Wanderlei Vignoli, cujo rosto ensanguentado ficou conhecido após ser agredido com pedras e chutes por manifestantes no dia 11 de junho, e com o Coronel Reynaldo Simões Rossi, que sofreu agressão e teve a pistola roubada durante protesto que culminou com a invasão do Terminal Parque Dom Pedro II e consequente vandalismo contra ônibus em 25 de outubro. Até o fechamento desta reportagem, a corporação ainda não havia respondido às solicitações.

Ao lado de 28 colegas também feridos em protestos em São Paulo no ano passado, Vignoli foi homenageado na Câmara Municipal de São Paulo pelos bons serviços prestados durante os atos.

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