Para o principal líder da luta pelo sistema de cotas em universidades, visita do papa Francisco despertará na Igreja Católica do Brasil o compromisso com mudanças

O clamor por mudanças que vem das ruas no Brasil vai chegar ao clero. A previsão é do frei David Santos, um dos líderes do movimento que pressionou pelo sistema de cotas nas universidades públicas, que ainda acredita que a visita do papa Francisco pode mudar a atual estrutura da direção católica no País. O frade é diretor-executivo da Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), que já colocou 40 mil jovens negros e pobres no ensino superior. Sem temer a repercussão de suas convicções, afirma nesta entrevista ao iG ser inaceitável a omissão da Igreja com referência à matança de jovens negros. “A Igreja do Brasil está quase 100% omissa neste aspecto”, afirma.

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Frei David é um dos líderes do movimento que pressionou por cotas no ensino superior
Elcio Braga
Frei David é um dos líderes do movimento que pressionou por cotas no ensino superior

Em outro trecho, mira no carreirismo no sacerdócio: “É uma doença que contagiou muito a Igreja Católica do Brasil. Os novos padres não revelam garra para servir aos pobres.” E garante que boa parte está preocupada em reformar a casa paroquial e fazer passeios. “Toda mudança gera conflito. A juventude está nas ruas exigindo mudanças”.

O frade aguarda uma posição do papa sobre documentos já encaminhados ao Vaticano, sobretudo em relação à questão do negro. “Esperamos que o papa Francisco converta os cardeais do Brasil, arcebispos, bispos, padres, freis, freiras e leigos em geral para terem uma postura verdadeiramente do lado dos pobres.”

Leia a entrevista na íntegra:

iG - Como o senhor está vendo a vinda do Papa Francisco ao Brasil para a JMJ?
Frei David - Uma benção de Deus. A Igreja do Brasil tem feito poucos esforços para mudar. Está muito acomodada. Bispos, cardeais, padres e grande parte dos leigos estão vendo a queda acentuada da presença dos jovens na Igreja e “estão assistindo sentados, vendo a banda passar”. A juventude mereceu receber um papa mais dinâmico, e não o outro, já aposentado e sem entusiasmo para mudanças. O papa Francisco está mais em sintonia com a exigente realidade dos jovens de hoje. Compreende o Evangelho também pelo olhar social, sem abandonar as outras dimensões. Por este olhar, é inaceitável a omissão da Igreja com referência à matança de jovens negros. A Igreja do Brasil está quase 100% omissa neste aspecto. Segundo dados do Programa “Juventude Viva”, dos jovens assassinados no Brasil, dos 15 aos 29 anos, 74,6% são negros.

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iG - Quais as repercussões o senhor espera após a viagem do Santo Padre?
Frei David - Após a visita do papa, a Igreja, se for séria com o Evangelho, não será mais a mesma. Em 1988, na Campanha da Fraternidade, por pressão dos negros católicos, a Igreja assumiu o tema “A fraternidade e o negro”. A pergunta que não quer calar é: “O que mudou na prática da Igreja com essa campanha?” Por exemplo: de lá para cá, na escolha de seminaristas ou novos sacerdotes para estudar em Roma ou outra região, quantos por cento são brancos e quantos são negros? A Igreja ainda não percebeu que, contra a discriminação ela precisa ser “sal da terra e luz do mundo”. Esperemos que o papa desperte esse compromisso na Igreja do Brasil. Nossa meta é fazer uma campanha, conclamando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, para, em 2018, assumir como tema da Campanha da Fraternidade “a questão do negro”, celebrando os 30 anos da Campanha de 1988.

A Igreja precisa combater com garra os resquícios do colonialismo presente na sociedade. Quase todas as paróquias têm cozinheiras negras, mas as freiras, que são superioras, dificilmente são negras. Isso precisa incomodar, positivamente, a Igreja que leva a sério o Reino de Deus.

iG - Podemos prever que a visita de Francisco determinará uma mudança na linha da Igreja no Brasil?
Frei David - É o mínimo que esperamos. O carreirismo é uma doença que contagiou muito a Igreja Católica do Brasil. Os novos padres não revelam garra para servir aos pobres. Há exceções, graças a Deus. Ao serem ordenados, querem paróquias ricas, nas quais entram muito dinheiro. Querem carro do ano, reformar sua casa paroquial, comprar os últimos equipamentos eletrônicos. Querem ocupar cargos e sonham em ser bispo. Há uma perigosa perda de foco. Não se vê, ainda no tempo de seminário, jovens com forte amor pelos moradores de rua, Pastoral dos Pescadores, Pastoral dos Negros, Pastoral da Terra, Pastoral das Crianças, Pastoral dos indígenas, Movimento dos Desabrigados, dos Sem Terra, Pastoral Operária, Pastoral Carcerária etc.

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iG - As mudanças poderão gerar conflitos. Que previsões o senhor faz?
Frei David - Toda mudança gera conflito. A juventude está nas ruas exigindo mudanças. O conflito está latente, estampado em todos os fatos. Minha previsão é que esta realidade é como um pêndulo amarrado: se alguém vem e o desamarra, ele não para no meio, mas vai até o outro lado. O pendulo não tem por meta ficar no outro lado. Ele quer conquistar o equilíbrio. Assim é o que esperamos dos conflitos por melhoria. A visita do papa, acreditamos, virá a despertar na Igreja o compromisso com as mudanças.

A Igreja inconsciente ou conscientemente não está tão sensível pela causa dos pobres como é sua missão enquanto construtora do Reino de Deus.

iG - O senhor poderia dar um exemplo?
Frei David - Ainda na véspera de viajar para o Rio, um grupo de jovens veio confessar comigo. Todos, em sua confissão apontaram ter raiva de seu padre porque ele é muito autoritário. Eram da mesma paróquia. Segundo eles, o padre gasta muito dinheiro da Igreja com seus passeios particulares e não quis dar um centavo para ajudar a juventude a comprar suas passagens para se encontrar com o papa. Um padre com esse perfil merece urgentemente um forte protesto dos jovens, exigindo que o bispo o suspenda da missão mal realizada. O que os bispos têm feito? De maneira irresponsável, não punem o padre equivocado. Apenas o transfere, empurrando o problema para outra paróquia, o que não resolve.

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iG - O senhor sempre foi um defensor da maior participação dos negros na sociedade, a partir do sistema de cotas. A Igreja precisa de um sistema de cotas?
Frei David - Não. A Igreja precisa estudar o fenômeno do racismo com os seminaristas, nos encontros do clero de cada diocese, nos encontros nacionais da CNBB etc. Como ele se dá e como se multiplica hoje? A Igreja precisa combater com garra os resquícios do colonialismo presente na sociedade. Quase todas as paróquias têm cozinheiras negras, mas as freiras, que são superioras, dificilmente são negras. Isso precisa incomodar, positivamente, a Igreja que leva a sério o Reino de Deus.

iG – O novo papa tem emitido sinais de mudanças, com menos ostentação.
Frei David - O papa Francisco tem dado muita ênfase à dedicação aos pobres. A Igreja inconsciente ou conscientemente não está tão sensível pela causa dos pobres como é sua missão enquanto construtora do Reino de Deus. Vamos fazer uma pergunta para medir a veracidade da afirmação anterior: o que a Igreja anunciou nos seus púlpitos, nos quatro cantos do Brasil, quando foi assinada a lei reconhecendo os direitos das empregadas domésticas? A assinatura da lei foi na Semana Santa deste ano. Todos os padres, bispos e cardeais, cada um de sua maneira, deveriam dar ênfase, nas missas de Páscoa, afirmando que a ressurreição de Cristo se solidificava um pouco mais com o reconhecimento dos direitos das nossas irmãs negras e brancas domésticas.

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iG - O pontificado de Francisco acarretará ações mais incisivas da Igreja no Brasil?
Frei David - O papa Francisco, com certeza, se estivesse no Brasil, daria um real destaque em seus sermões à conquista das empregadas domésticas! Esperamos que o papa Francisco converta os cardeais do Brasil, arcebispos, bispos, padres, freis, freiras e leigos em geral para terem uma postura verdadeiramente do lado dos pobres. A omissão da Igreja, com referência à vitória das nossas irmãs domésticas, deixou-me, enquanto frade franciscano, triste e envergonhado. Façam uma pesquisa: quantos jornais católicos deram espaço a essa conquista?

Elcio Braga
"É inaceitável a omissão da Igreja com referência à matança de jovens negros", diz Frei David

iG - Qual é a atual postura do alto clero em relação a maior participação dos sacerdotes negros?
Frei David - Somos 51,7% da população brasileira. Se a Igreja estivesse em sintonia com os mais pobres – que são os negros –, as equipes vocacionais dariam boa presença em animar vocações na periferia. No entanto, façam uma pesquisa: estimamos que 90% do tempo das equipes vocacionais da Igreja são aplicados em paróquias de maioria branca. Isso é um sintoma que mostra que a Igreja ainda não está renovada conforme quer o evangelho. Mais de 90% dos seminaristas negros atuais tiveram a iniciativa de bater às portas dos seminários, e não o contrário.

iG - O senhor encaminhou essas questões ao papa ou ao Vaticano?
Frei David - Enviamos e-mails para mais de 20 endereços do Vaticano e do Brasil, especialmente para as organizações responsáveis em fazer o primeiro rascunho dos discursos do papa, propondo que falasse sobre a matança de jovens negros. Não sei se a censura deixou passar essa proposta. Vamos ver ao longo das falas do papa.

iG - No Brasil, assistimos a várias manifestações. No Rio e em São Paulo, especialmente, ganham corpo com a participação de jovens brancos e de classe média. Como o senhor vê esse movimento?
Frei David - No mundo inteiro, não houve reais revoluções sem a decisiva participação da classe média, assumindo os dramas do povo. O Movimento do Passe Livre e outros movimentos são a nova maneira de Deus vir em socorro dos pobres. A Igreja precisa despertar para esta realidade. O protagonismo dos jovens na rua é aplaudido pelo papa Francisco.

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