
Pela sétima vez desde 1998 uma disputa presidencial será decidida no segundo turno.
De lá pra cá, nunca nenhum candidato que largou em desvantagem na reta final da campanha conseguiu terminar à frente. Foi assim com José Serra (PSDB), em 2002, Geraldo Alckmin (PSDB), em 2006, Serra novamente, em 2010, Aécio Neves (PSDB), em 2014, Fernando Haddad (PT), em 2018, e Jair Bolsonaro (PL), em 2022.
Dessa vez é Lula (PT), quem terá de subir a montanha e reverter uma ladeira de pouco mais de 2 milhões de votos de distância para Flávio Bolsonaro (PL). O presidente conquistou 45,16%, contra 47,4% do rival.
No topo dessa montanha, se chegar lá, o atual presidente terá como prêmio um cenário de terra arrasada. O principal adversário até lá será o desnânimo.
O Partido Liberal elegeu as maiores bancadas na Câmara (121 das 513 cadeiras) e do Senado (28 de 81). A união com os partidos alinhados à extrema-direita, como Republicanos e a federação União Brasil/PP, fatalmente dará ao bolsonarismo o controle da agenda no Congresso e a possibilidade de escolher quem entra e quem sai, a partir de agora, no Supremo Tribunal Federal, a grande bandeira da turma.
Ao todo, 20 das 27 disputas pelos governos estaduais terminaram já no primeiro turno. O bolsonarismo manteve ou emplacou governadores aliados em disputas-chave em São Paulo, Minas Gerais e os três estados do Sul. É provável que leve também o Rio de Janeiro, onde Douglas Ruas (PL) sobrevoou o tempo abaixo do radar dos institutos de pesquisa e por pouco não venceu já neste domingo. Eduardo Paes (PSD), aliado de Lula, terá três semanas para evitar a tragédia no reduto do bolsonarismo.
Lula tem campo para crescer. Nesta semana o Senado vota o fim da escala 6 por 1. O reajuse no Bolsa Família começa a pingar.
Ele pode ser beneficiado com uma possível reversão de uma abstenção recorde de eleitores que preferiram não sair de casa para votar ou que saíram para votar em branco ou nulo. Foram quase 33 milhões de pessoas, 21% do eleitorado.
Se conseguir, Lula será um presidente de mãos amarradas, cercado por um Congresso e governadores hostis à sua agenda.
Flávio, se mantiver a vantagem, recebe um país praticamente com o portão alargado. Poderá decretar que, a partir de 2027, as pessoas devem obrigatoriamente andar de quatro, como quadrúpedes, que não haverá quem conteste. Os sistemas de freios e contrapesos estarão sem freios e com os pesos todos a seu favor.
A exceção, ainda, é a cúpula do Judiciário. Ainda. Até 2030, o próximo presidente poderá indicar ao menos quatro ministros do Supremo Tribunal Federal. Isso os que vão se aposentar.
Há uma guilhotina sendo preparada neste momento contra Alexandre de Moraes e outros nomes identificados como inimigos do bolsonaris mo. Reforçada, a base bolsonarista no Congresso já tem votos para eleger os próximos líderes do Congresso e pautar o impeachment de ministros do Supremo.
Se não ganhar licença para governar sem amarras, fará da vida do próximo mandatário um inferno.