
O presidente Lula (PT) tinha uma aposta para a campanha à reeleição de 2026: encher os eleitores de números sobre a economia, comparar dados do atual governo com o anterior, lembrar a condução desastrosa de Jair Bolsonaro na pandemia e, a conta gotas, lembrar que o herdeiro do ex-capitão não era flor que se cheirasse.
O debate sobre economia também interessava a Flávio Bolsonaro (PL), que tinha nos índices de endividamento do governo e das famílias e a queda no poder de compra dos últimos anos um trunfo para atrair o adversário para a briga.
A divulgação das mensagens entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro forçaram os dois candidatos a revisarem a estratégia.
Flávio viu na desmoralização do maior responsável pela prisão do pai uma chance de ouro de associar o ministro do Supremo Tribunal Federal ao adversário.
Na versão dele, Lula não teria sido eleito se não fosse Moraes. E, sabendo da má fama do ministro e do STF entre os eleitores, sobretudo após a sessão de terça-feira (15) que terminou em pancadaria verbal, ele repete agora como papagaio que votar em Lula é votar em Moraes.
O próximo presidente poderá indicar até cinco ministros da Corte a partir de 2027, caso Moraes seja mesmo jogado aos leões pelos pares.
É a chance que os bolsonaristas queriam para dominar o tribunal sem precisar nem de cabo nem de soldado. Como? Dizendo que, sob Lula, cinco novos Moraes estarão a caminho.
Flávio flerta com a própria armadilha. O banqueiro que nitidamente tentou cooptar ministros da Corte (não só Moraes) é o mesmo que cooptou parte do bolsonarismo com viagens, festas e patrocínios.
Flávio era o representante direto do clã com o dono do Banco Master, para quem pediu mais de R$ 100 milhões para financiar, às escuras, o filme “Dark Horse”, sobre o pai.
Agora a Polícia Federal quer saber por que a turma precisava de tantos recursos e se a grana foi mesmo usada para pagar uma produção cinematográfica.
A suspeita é que, no caminho, muita gente mordeu o dinheiro. Uma das pistas é o fundo Havengate, para onde Vorcaro enviou os milhões, administrado por um advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Lula tenta como pode tirar Moraes do colo. Em entrevistas, lembrou mais de uma vez que não foi ele quem indicou o ministro para a Corte. Foi Michel Temer, de quem Moraes foi secretário de Justiça.
A bancada do Partido dos Trabalhadores no Senado, inclusive, fez de tudo para barrar a indicação.
Mas, de fato, Moraes virou ídolo do campo progressista quando notou a intenção de Bolsonaro pai de transformar o Supremo em uma extensão dos negócios da família e barrou o golpe – que certamente atingiria a cúpula do Judiciário.
Havia, inclusive, planos de assassinato do ministro nos documentos apreendidos pela PF no curso das investigações da trama golpista.
O fato é que, ao dizer que não tem relação com Moraes, Lula já está falando de Moraes, e não da pauta econômica, que ele imaginava ser o tiro certo para encantar os eleitores pelo bolso. Por isso ele se engajou tanto na pauta do fim da escala 6 por 1, suspensa no Senado.
A arma estava engatilhada, mas virou festim diante do soterramento de notícias provocado pela cúpula do Judiciário.