A ministra do STF Carmen Lúcia
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A ministra do STF Carmen Lúcia

Quando dois ou mais marmanjos se estranham, incapazes de se comunicar, e se agridem, física e verbalmente, perto da gente ou dos nossos filhos, o protocolo de segurançã manda sair dali e se proteger dos estilhaços da sialorreia emocional. Brigas do tipo geralmente estouram no bar, na arquibancada, numa festa, no trânsito ou qualquer outro lugar onde os circuitos da liturgia civilizatória são interrompidos pela imposição da força.

Se a coisa sair do controle, recomenda-se chamar uma autoridade.

O problema, ao menos no Brasil, é que muitas vezes a autoridade é também marinada pelas botinadas. E o quiproquó vira outro, só que com garrafas e tiros para o alto. Quando são para o alto.

A ordem, nesses casos, é chamar o juiz. Ele saberá como desarmar os brigões.

O pronome masculino da frase acima se tornou uma contradição em termos desde a sessão que analisou, sem chegar a conclusão alguma, as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o bandido Daniel Vorcaro.

A ideia era buscar um consenso, entre os pares – alguns igualmente enroscados com o caso – e transmitir alguma credibilidade aos espectadores colados na TV numa terça-feira (15) à tarde. Deu tudo errado.

Os ânimos exaltados transformaram o STF numa rinha dessas que vemos no bar, na arquibancada, numa festa, no trânsito.

A diferença é que não dava para chamar a polícia porque quem emite o mandado estava ocupado. Ou enfiando o dedo na cara do coleguinha. Ou mandando o coleguinha baixar a mão porque não era moleque.

Como numa briga de colégio, o diretor de cabelos ralos, bigode feito no dia e óculos equibrados na ponta do nariz não podia pegar os pirralhos pelas orelhas porque também estava com medo de apanhar. (Na verdade apanhou).

A tentativa de debelar a crise foi uma prova em tempo real sobre como o STF entrou na crise em que entrou. Alas de em conflito da Corte reuniram paus e pedras para demolir quem pixou no muro da quebrada rival. E uns e outros partiram para o tudo ou nada.

Teve constrangimento, sarcasmo, gritaria, dedo em riste, exposição. Um grade “foi você quem começou”, só que de toga.

Enquanto o pau comia, lembrei do filme “E Agora, Aonde Vamos?”, em que a diretora Nadine Labaki interpreta uma personagem que lidera um grupo de mulheres dispostas a isolar os fatores que levaram uma área de conflito no Oriente Médio a uma pancadaria permanente. Os fatores eram os homens incapazes de sentar, admitir erros, recuar e estender bandeira branca.

A pacificação, então, é costurada quando as mulheres dos dois povoados tiram os marmanjos de cena e assumem os papeis de adultos da sala.

Por aqui, não é outra a razão para as mobilizações em torno da indicação de uma mulher toda vez que abre uma vaga na Corte. É uma luta inglória, quase sempre vencida pelos homens de sempre.

De um lado ou outro da disputa política (que afeta, sim, o julgamento e o juízo de quem julga), o que sobra de testosterona no tribunal falta em credibilidade, e é por isso que qualquer quintal de briga de galo hoje parece mais seguro para o bem-estar animal do que a Suprema Corte.

Sim, é estranho pensar em testosterona num ringue dominado pela máxima de Paulo Leminski, para quem o poder é o sexo dos velhos. (Às vezes a sentença se inverte, a se analisar as ofertas e demandas de Vorcaro por companhias pagas aos bons companheiros. Mas essa é só mais uma exceção que confirma a regra e alimenta a indústria da disfunção).

Quem está viciado na dopamina barata do conflito aberto pode até ter vibrado com as sapatadas dos ministros favoritos nos ministros malvadões. 

Quem não está há de concordar que um dos raros momentos de lucidez de toda a trama veio de Carmen Lúcia, a única mulher da Corte – e única capaz de pedir desculpas aos convidados (no caso, a audiência) e mostrar alguma humildade e espírito público no jogo.

"Eu peço, de certa maneira, desculpa ao povo brasileiro", disse a ministra, "um pouco até envergonhada" com o pampeiro dos pares.

Ela lamentou que, a menos de 20 dias da eleição (ou justamente por isso), a atenção esteja voltada para questões do Supremo e não as que deveriam guiar o debate político.

"O poder judicial existe para tranquilizar, e geramos intranquilidade", sentenciou, enquanto tentava acender as lanternas e iluminar a mina escura e funda do trem em que o STF se enfiou.

Para Cármen Lúcia, o quiproquó afetou o sentimento de justiça da população. “Se eu, como juíza desta casa, devesse ter me conduzido talvez com uma postura diferente para poder ter ajudado mais para evitar isso, eu estou pedindo a todos os colegas por não ter ajudado a que a gente superasse tudo isso de uma maneira mais ágil. Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente”, lamentou.

Desculpas, quem deve, é o povo brasileiro por naturalizar que uma ministra fique sozinha, com sua lanterninha, e atue como último fio de razão num mar de perdigotos, paus e pedras.

Dessa lanterninha saiu uma citação a Clarice Lispector, tirada de uma crônica sobre o espanto de ver um homem assassinado com muitos tiros: ‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição".

Se houvesse mais Cármen Lúcia e menos testosterona no tribunal, o tribunal não chegaria onde chegou. E todos teriam mais o que fazer numa terça-feira à tarde.

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