Cena do filme 'O Convite', de Olivia Wilde
Reprodução
Cena do filme 'O Convite', de Olivia Wilde

Não tem nada mais constrangedor do que sair para jantar com casais que vivem em guerra intermitente. Os estilhaços entre eles costumam voar quando menos se espera. Nem precisa de um bom motivo. Um diz A, o outro replica, fala B. Emburra. Bufa. Vira o olho. Torce o nariz. Chora. E o conflito está armado.

“Você é burro/a?”. “Presta atenção!”. “Eu já falei mil vezes”. “Como você é difícil”.

A plateia nunca sabe exatamente o que fazer. Levanta e sai? Oferece abraço? Termina de comer o quanto antes? Pede para ir ao banheiro e não volta?

O esporte favorito dos casais do tipo é se queixar um do outro – geralmente com o outro do lado do um.

Por isso “O Convite”, por mais esforço que a diretora Olivia Wilde tenha feito para soar anedótico, soa tão verossímil para quem conhece pessoas que vivem como Angela (Wilde) e Joe (Seth Rogen), dupla presa a uma instituição chamada casamento incapaz de chegar a consensos mínimos sobre situações básicas da rotina.

Um dia Joe chega em casa e descobre que a mulher preparou o jantar para um casal vizinho, com quem até então só trocava cumprimentos protocolares e alguma antipatia no elevador. Joe descobre, então, que aquela não é uma surpresa. Angela avisou que chamaria os vizinhos. Inclusive pediu a ele que não esquecesse de trazer vinho para casa. Ele esqueceu porque, como tantos, não costuma prestar atenção no que a companheira fala.

Angela pensou em tudo. Fez compras, preparou um suflê, arrumou a casa e até comprou um tapete novo. Joe fez o que aparentemente costuma fazer todas as noites: reclamou de tudo. Do convite, da data escolhida para receber vizinhos, do menu, dos vizinhos, do barulho dos vizinhos, do tapete recém-comprado. Diante da resistência, jogou na mesa o zap de sua onipresente dor nas costas – agravada, segundo ele, pela pressão de Angela para que ele abandonasse a vida sedentária de professor frustrado de música e ao menos voltasse do conservatório de bicicleta.

Aos poucos a plateia percebe que aquele casal já não vê se vê nem vê ninguém há muito tempo. Angela não é daquelas que ouvem queixas e se cala e chora. Ela retruca. 

Adepta até a segunda página da comunicação não-violenta, pede para o marido dar meia-volta e entrar novamente em casa para reiniciar o que não deu certo na tentativa anterior. Quem sabe assim o clima não muda naquela casa de pouca luz e poucos pontos de fuga. Spoiler: não muda. É tudo um grande dia da marmota na vida dos dois.

A gritaria só acaba quando Hawk e Pina, personagens interpretados por Edward Norton e Penélope Cruz, batem à porta. 

Dali em diante tudo se ilumina. É o prenúncio de uma explosão.

As visitas são a antítese dos anfitriões. 

Hawk é educado, não economiza elogios à companheira, nunca ergue a voz e parece sempre medir o passo seguinte para não desagradar o interlocutor. Pina é sarcástica, comunicativa e desinibida.

Angela passa boa parte do encontro à beira de uma crise de pânico ao lidar, finalmente, com pessoas tão amáveis e aparentemente seguras de si. Quase tem um colapso ao ver um homem elogiar o que o marido já não vê. Hawk reconhece pelo selo a qualidade do tapete que Joe detestou. Hawk nota um certo viés artístico da vizinha que, sem grandes pretensões mundo afora, fez da casa uma pequena obra de arte, idealizada até nos ladrilhos do banheiro.

Joe, diante da nova plateia, segue um rabugento de primeira, mas um pouco mais carismático do que quando está sozinho com a mulher. Vai desarmando e resgatando um pouco da autoestima (auto?) mutilada por anos à medida que Pina nota nele uma presença de espírito também invisível aos olhos da companheira.

Angela odeia que ele fume na biblioteca. Odeia sobretudo a disposição caótica dos livros naquela biblioteca. Pina vê ali um princípio criativo.

A troca de olhares resulta numa troca de lugar. Pessoas invisibilizadas dentro da relação finalmente são olhadas. Ouvidas. Notadas. A tensão sexual é a consequência natural.

Joe (e parte da plateia) começa a desconfiar se aquele jantar é o início ou o desenlace de uma relação anterior, construída a partir de pequenas transgressões. Hawk já notava Angela quando ela passava nua na única janela com vista para o apartamento acima. E Angela já tinha desenvolvido uma atração por Pina só de ouvir os sussurros da vizinha nas noites em que os dois transavam como animais, segundo a descrição de Joe – um ressentido que anula o ressentimento quando nota que o desejo reprimido terá alguma vazão naquele jantar.

O desejo cura tudo, certo?

Bem.

Pina e Hawk não são só um casal sexualmente bem resolvido entre eles. São bem resolvidos também numa configuração de relacionamento que comporta outras pessoas, outros desejos, outros riscos. O que parece estranho da janela do casal que mal se toca e não se entende se torna muito atrativo quando nomeado.

Aqui as coisas começam a ganhar tons de conto de fadas, desses com moral da história explícita, nas mãos da direção.

O modelo de felicidade para Angela e Joe é um casal que está junto há cerca de um ano. Pina e Hawk são um automóvel que acaba de sair da concessionária e tem muito mais estrada pela frente do que urgência de consertos pelo caminho. É até covardia comparar com aquele Corcel 73 do apartamento de baixo que mal sai da garagem.

Mas eles não foram aquilo desde sempre. Já foram um Corcel 73 em 73.

Joan Baez cantou na música “Diamonds and Rust”, espécie de ritual de exorcismo do fantasma de Bob Dylan da vida dela, que os amantes sabem, com o tempo, o que as memórias são capazes de trazer. Trazem diamantes mas também ferrugens.

E aquele apartamento de Joe e Angela está todo enferrujado.

Em “O Convite”, os estereótipos vão ganhando forma num momento em que a trama tinha tudo para ganhar complexidade mas se infantiliza. 

Pina é a vizinha lascívia que entendeu que a felicidade é a vazão de todos os desejos. Hawk é o protótipo do homem atento, interessado e interessante, que não precisa gritar para emanar poder. Angela é a dona de casa desesperada para ser vista e desejada. E a Joe sobrou o arquétipo do fracassado que grita, reclama e transforma a própria ausência de libido pela vida numa interdição sexual ampla, geral e irrestrita.

Incapaz de falar sobre o fracasso de uma banda promissora que simplesmente não aconteceu, e que foi enterrada naquele apartamento com tudo o que ele já não quer lembrar, ele quem reivindica o centro do universo quando faz da dor nas costas um problema de todo mundo. Com ela, tudo o que podia ser e não foi.

Angela é a primeira a dizer que ele é só um homem médio que dá aulas num colégio de bairro. E que morre de vergonha de contar que o apartamento onde vivem é herança dos pais. Tanta frustração impede o personagem de perceber o que tem de bom na própria vida, segundo a esposa. A começar pelo amor da filha.

Oilá: aquele casal tem uma filha! Ela vai passar a noite fora para que os pais se lembrem um pouco de como era a vida adulta antes de se tornarem pais. E isso muda tudo.

Em certo momento, Pina, a sexóloga livre, leve e solta, faz um diagnóstico não solicitado pelos donos da casa e sentencia que aquele casal está morto. Que a filha é o único elo que os mantém unidos, e que a sobrevida é resultado da ausência de percepção do quanto aquele ambiente marinado de mágoas pode ser destruidora para uma criança. É uma meia verdade. Nunca se pode subestimar também a capacidade de estrago na cabeça de uma criança causada por casais separados que seguem se matando, só que à distância e por intermediários – geralmente, os próprios filhos.

O discurso é feito diante da câmera, como se alguém quisesse ensinar algo ao público diante da tela. Mais ou menos como fazia o He-Man ao fim de um episódio do desenho animado em que era preciso deixar claro para as crianças que não era legal colocar o garfo nos furos das tomadas de casa.

A palestra é o segundo momento mais constrangedor do filme todo. O primeiro é quando Joe tenta tirar a calça em um princípio de suruba, tropeça na estante de livros e recoloca a dor nas costas no centro da cena. Na guerra dos estereótipos, o papel dele é ser panaca.

A premissa ali é que a chave do sucesso é a liberdade, ainda que tardia, do desejo. E não dá para desejar um panaca. E que, quanto menos curvas e interdições a esse desejo, mais chances tem a plateia de se tornar Pina e Hawk quando crescer. Quando este desejo não tem eco, é bom lembrar de vez em quando que merecemos mais. E pular fora. Afinal, somos todos alecrins dourados que nascemos no campo e que, se não fomos ainda semeados, a culpa é sempre de quem escolhemos para viver eternamente de tédio.

Ok, isso qualquer livro de auto-ajuda diria. O problema é colocar, num filme de pretensões autorais, o mesmo desejo em fontes de natureza distinta. 

Um casal com apenas um ano de relacionamento tem tanto a ensinar a um casal que já esgotou os desejos quanto um carrossel de Instagram ao fim da sessão. Aqueles casais não partem da mesma base de comparação. Nem tem as mesmas responsabilidades. Não têm sequer as mesmas mágoas nem a mesma coleção de diamantes. Um é um papel ainda em branco. O outro está todo riscado, buscando espaço para encaixar uma novidade capaz de retomar um velho frio na barriga.

Dito isso, não deve ser mesmo fácil sustentar o desejo por quem grita tanto com a gente o tempo todo. Inclusive diante dos vizinhos. Principalmente se forem vizinhos tão sexualmente disponíveis.

A tese desenhada em traços quase infantis ali é que o desejo é um mecanismo acionado ou desativado quando nossas verdadeiras aptidões são finalmente notadas. É também. Mas há uma questão mais complexa, e menos visível no filme, do que a simples falta de interesse do parceiro nesse jogo de empurra. 

Angela não é só uma mulher não-notada. É uma mulher cansada. Basta ver quem preparou o jantar e cuidou de tudo. Até da pia suja quando o casal transão (e descansado) enfim vai embora.

    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes