Jude Bellingham fez os dois gols da vitória da Inglaterra sobre a Noruega
Reprodução X/@England
Jude Bellingham fez os dois gols da vitória da Inglaterra sobre a Noruega

Composta em 1945 por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para um musical da Broadway, "You'll Never Walk Alone" foi a música mais ouvida na Inglaterra depois de regravada, em 1963, pela banda Gerry and the Pacemakers.

A nova versão tocava em todos os lugares. Mesmo. Até no sistema de som do Anfield, o estádio do Liverpool. A letra sobre resiliência e camaradagem parecia falar à alma dos torcedores dos Reds, que seguiram caminhando e cantando e seguindo a canção mesmo quando ela deixou as paradas de sucesso e, consequentemente, os alto falantes da arena.

A identificação era tanta que "You'll Never Walk Alone" se tornou o hino informal do clube.

Começava ali uma salutar tradição inglesa de se apropriar de sucessos comerciais aleatórios e transformar em identidade clubístca.

Na temporada de 1986/1987, o Manchester City ficou 41 jogos seguidos sem vencer fora de casa. Quando finalmente a equipe triunfou longe de seus domínios, em uma partida contra o Aston Villa, a torcida cantou "Blue Moon", uma balada melancólica escrita em 1933 por Richard Rodgers e Lorenz Hart e que estourou nas vozes de Frank Sinatra e Elvis Presley. Era como cantar “aleluia!”, já que o fenômeno azulado no céu é tão raro que só acontece uma vez na vida e outra na morte. 

O cântico virou uma marca registrada do clube – que poderia ficar mais 40 jogos sem vencer fora, mas teria sempre a lealdade dos torcedores nos piores momentos. 

Na mesma cidade, o Manchester United transformou uma canção patriótica dos Estados Unidos do século 19 em hino. "The Battle Hymn of the Republic", adaptação da marcha militar "John Brown's Body", foi adaptada e gravada pelo elenco dos Demônios Vermelhos em 1983, antes da final da Copa da Inglaterra daquele ano. O refrão "Glory, Glory, Hallelujah" parecia falar com a alma de uma equipe acostumada a se superar.

Na Copa de 2026, a seleção inglesa seguiu o exemplo dos clubes do país e transformou um sucesso da rádio em hino informal. Quando terminou o jogo contra a República Democrática do Congo, o elenco se abraçou e cantou “Wonderwall”, do Oasis, com a torcida. Deu tão certo que o capitão Harry Kane descreveu aquele momento como o seu favorito de todos os tempos com a camisa da Inglaterra. E olha que ele tem na conta 54 gols pela seleção do país. E contando.

Liam Gallagher, vocalista da banda, assumiu para si o papel de regente da torcida. "Vamos, Inglaterra! Vamos de Wonderwall", ele escreveu nas redes sociais antes da partida contra a seleção africana. Foi como escolher a playlist de um time que chegou à semifinal da Copa por estradas tortuosas e luzes ofuscantes. O último título mundial da equipe foi em 1966, quando a Inglaterra sediou a competição. 

Fiel, a torcida agora desafia a própria equipe a sentir por si o que só os fãs são capazes de sentir por ela. No fim, um é a proteção do outro.

Dá ou não inveja?

No Brasil, se tem algo do qual não podemos nos ressentir é da ausência de talentos com a bola nos pés ou de sucessos que poderiam embalar a torcida em dias de jogos. O que falta é outra coisa.

As coisas desandaram um pouco desde que a seleção passou por um rebranding e foi chamada de “Brasa” por quem não viu o penta, mas canta as glórias de outras Copas como quem anuncia um grande passado pela frente e só. “Único penta é o Brasilzão”, diz a letra.

Sim, a crise é, antes de tudo, estética.

Durante a Copa, os brasileiros perderam a chance de transformar seus hinos de videokê em marcas da relação entre a torcida e os jogadores. O mais óbvio deles é “Evidências”, uma declaração de amor a quem (mal) fingimos não gostar quando nos decepciona.

A gente até nega as aparências, mas não dá pra viver mentindo a vida toda. Mais um pouco de Neymar em campo e já teria torcedor se arrastando para o malandro e perguntando se ele também tem saudade.

Ok, talvez seja clichê demais. A solução é buscar no pagode a redenção.

Minha favorita, “Volta pra ela”, de Eliana de Lima, poderia embalar nossa obsessão por uma taça que já foi nossa e desde então não para na mão de ninguém.

Ou “Temporal”, para quem hoje se ressente por não encontrar mais aquela noite de verão.

A gente também reclamava do apogeu de um time que nem sempre vencia e quando não vencia todo o céu desabava. Agora tudo parece tão normal quanto uma garoa que já não incomoda. Como um amor que acabou e já não dói.

Quem sabe emprestando da música popular a alma perdida em algum canto de escanteio torcida e equipe não voltem um dia a ser o mesmo par.

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