Danilo contra Marrocos na Copa do Mundo
Rafael Ribeiro/CBF - Nelson Terme/CBF
Danilo contra Marrocos na Copa do Mundo

Muito tempo atrás, quando ainda alimentava pretensões literárias, escrevi um conto que era mais ou menos assim: mal a partida terminava, todo mundo rodeava o mesmo jogador. Entre cotoveladas, os repórteres perdiam a voz para fazer perguntas improváveis aos ídolo. Do tipo:

-E o Copom?

O craque, então, coçava o queixo, limpava a testa de suor e, sem disfarçar o cansaço, respondia:

-Acho que mantém a taxa como está. Não seria surpresa um aumento de 0,25% na Selic. A inflação parece sob controle, mas no trimestre passado saiu do centro da meta com a guerra no Oriente Médio e o impacto nos preços do petróleo. A merda é contratar uma recessão agora e encarecer o crédito em ano de eleição.

Do fundo vinha outra pergunta:

-Se, para Wittgenstein, conhecer uma regra implica apreender uma entidade abstrata, qual é a definição essencial de "jogo"?

-Ah, pula isso e vai direto para Karl Popper. Aqui estamos todos perdidos.

-Na vida?

-Não, no Brasileiro. Acabamos de perder para o Bahia.

O conto era tão ruim que nunca publiquei. Não tem registro dele em nenhum arquivo de esboços de 20 anos pra cá. Nem lembro bem como a história terminava. Se não me engano, o atleta virava uma espécie de oráculo de um país inteiro que não sabia para onde ir.

A ideia de colocar um jogador nesta posição vinha do inusitado. Atletas, em geral, não costumam falar de outros assuntos além do que acontece dentro das quatro linhas. Tirando flagrantes de traição ou novo affair, ninguém quer saber o que faz um artista fora do centro do espetáculo. A não ser que o mundo de fora afete o próprio espetáculo.

Mas o que eu queria mesmo, ao arriscar aquela história, era brincar com a capacidade de interlocução de um astro esportivo. Quem, afinal, tem mais alcance de público do que um jogador de futebol? 

Imagina se, em vez de campanhas de bets, um atleta de alto nível decidisse abraçar uma causa como o fim da violência contra meninas e mulheres?

Na história do futebol temos alguns exemplos de jogadores conscientes deste papel social. Homônimo de um filósofo, Sócrates puxa a fila. Raí, o irmão mais novo, herdou a causa. Afonsinho também ficou conhecido pela inteligência fora do comum. Tostão, que largou a bola e foi estudar medicina, nem se fala.

Ronaldo Fenômeno não era exatamente um homem culto, mas sempre chamou a atenção pela agilidade de raciocínio e o humor ácido, além da habilidade um tanto acima da média para fazer negócios extracampo.

No início dos anos 2020, o meia Gustavo Scarpa virou influencer literário ao postar nas redes resenhas curiosas sobre as obras que devorava na concentração. “Maneeeero, mlk inseto”, escreveu o atleta ao fim da leitura de “A Metamorfose”, de Franz Kafka.

Mais recentemente foi Danilo, lateral veterano da seleção, quem chamou a atenção em entrevistas sobre limites e a sensibilidades dos jogadores – este humano, demasiado humano.

Na pandemia, ao notar que a vida social tinha migrado de vez para os meios digitais, e que isso afetava o emocional de atletas de alto rendimento, cada vez mais vulneráveis a ataques nas redes, ele criou o Voz Futura, projeto de compartilhamento de informação sobre saúde mental.

Em 2026, tudo o que ele aprendeu nos livros foi testado na prática. Poucos acreditavam que ele teria condições de segurar a bucha de atuar na lateral da seleção, aos 33 anos, durante mais uma Copa do Mundo. E ele tem dado conta do trabalho.

Mais que isso, mais ou menos como o personagem da ficção que um dia criei e abandonei, ele se tornou uma referência para os companheiros ao falar da vida fora dos gramados – o que inclui falar sobre futuro, tema-tabu para quem mal consegue tirar os olhos e as atenções da próxima rodada.

Em uma entrevista coletiva nos Estados Unidos, Danilo disse que não quero jogar futebol “até muito tarde”. Tem planos para estudar psicologia e psicanálise. “É um campo que eu gosto muito, que eu sou apaixonado.”

O interesse vem da própria experiência como jogador. Muito cedo ele aprendeu que “mesmo quando temos uma vida que pode ser considerada completa, perfeita, muitas vezes estamos sempre buscando algo a mais. Existe uma sensação constante de insatisfação". 

Um fã de futebol incapaz de sorrir cada vez que a vida diz não ouve coisas do tipo e pensa: opa, pera lá, então não sou só eu. É como se alguém -- bem alguém que não pode, em tese, admitir falha -- finalmente estendesse a mão.

A crise de Danilo veio quando ele defendia o Real Madrid e estava no topo da carreira.

Por quê? A explicação está em autores como Sigmund Freud e Jacques Lacan, que investigaram o que acontece com o sujeito quando ele se compreende como indivíduo, e não uma extensão da mãe – ou, grifo meu, do técnico, do empresário, da torcida. "Essa ruptura, vivida ainda na primeira infância, deixa uma marca muito profunda no ser humano. E é justamente daí que vem essa sensação de que sempre está faltando alguma coisa na nossa vida", ensinou o lateral, que hoje fala abertamente sobre como a terapia o ajudou a enfrentar momentos emocionais desafiadores. 

Em outra entrevista, para o programa "Sem Censura", da TV Brasil, Danilo causou espanto entre os convidados e até a apresentadora, Cissa Guimarães, ao dizer que muitos buscam o dom da fala em cursos de oratória, mas poucos percebem a importância de fazer o contrário e aprender a escutar. Ele até cunhou um neologismo para o curso inexistente: escutatória. E é este um grande nó tático da humanidade.

Com a visibilidade que tem em campo, Danilo ajuda, assim, a desmistificar os mitos de herois que enfrentam tudo e todos mastigando as emoções como se fossem incapazes de sentir. Ou precisassem o tempo todo de anestésicos e performance para sobreviver à pressão de estar no centro do picadeiro e não poder desagradar nunca a uma torcida que não aceita menos do que toda a entrega. Nem os patrocinadores, que ele fez questão de peitar ao contestar jogos eletrônicos de azar que prometem muito e entregam nada.

Só por esta razão a convocação do veterano, por Carlo Ancelotti, já se mostrou acertada.

A seleção precisa, sim, dos dribles e gols de Vini Jr. e outros craques do meio para a frente. Mas também da lucidez de Danilo para lembrar que um jogo de futebol pode ser muitas vezes mais urgente do que a vida e a morte. Mesmo assim, é só um jogo. E é feito de gente de carne e osso que pensa, sonha, sofre, sente – e tem muito a dizer.

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