
Recém-convocado para a Copa, Neymar já fez mais pela extrema-direita brasileira nas eleições deste ano do que quando decidiu gravar um vídeo dançando e fazendo o número da legenda do então candidato à reeleição Jair Bolsonaro em 2022.
Sem saber muito como sair das cordas, aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) precisavam urgentemente de um fato novo para deixar o centro do noticiário. Tentaram driblar os questionamentos e inundaram as redes para pedir Neymar no Mundial. Conseguiram. Por pouco tempo, mas conseguiram.
Nas próximas horas, a presença do atacante santista na lista de Carlo Ancelotti será o prato principal dos assuntos na mesa de jantar. Mesmo que a seleção já não mobilize as emoções como antes.
A cerca de 20 dias para o início do Mundial, o chamado “clima da Copa” certamente já ajuda a abafar a novela Bolsomaster. A eleição é logo ali, mas tudo pode ficar pra depois.
Momentaneamente fora das manchetes, Flávio seguirá fingindo que o escândalo não é com ele e cumprindo agenda normalmente. Como se fosse mesmo muito normal um pré-candidato à Presidência pedir dinheiro a um banqueiro investigado para fazer campanha política travestida de cinema.
Se é que o dinheiro prometido pelo dono do Banco Master chegou à produtora responsável pelo filme “Dark Horse”.
Desse novelo, quanto mais fio se puxa, mais lama vem. A última suspeita é que o gestor de um fundo que recebeu recursos de Vorcaro comprou uma bela casa na mesma cidade onde vive Eduardo Bolsonaro (PL). É quando a plateia lembrou de se perguntar como é que o deputado licenciado se banca por lá.
O gestor foi secretário do audiovisual do governo Bolsonaro e sócio do filho Zero Três.
Coisa fina.
A politização forçada e cheia de atalhos proposta pela extrema-direita, com base em jornadas de heroi que não param em pé e de sentimento anti-política (ou anti-sistema) transformou o eleitor médio num ator vigilante que sabe a escalação dos 11 ministros do STF mas desconhece quem atua pela seleção. Mas terá em Neymar um representante da espécie em campo -- e uma brecha pra resgatar o orgulho supostamente patriótico.
Neymar já não tem a capacidade de mudar os rumos de uma partida como antes. Mas, ao menos por hoje, será capaz de driblar as atenções da novela favorita dos brasileiros nos últimos dias.