Produtos Ypê suspensos pela Anvisa
Marcela Gonzaga/iG
Produtos Ypê suspensos pela Anvisa

Não sei vocês, mas na minha terra quando alguém não anda bem das ideias costumamos dizer que a pessoa anda bebendo detergente.

Entre apoiadores de Jair Bolsonaro, já vi um pouco de tudo. Já vi chamarem de patriota quem bate continência para a bandeira dos Estados Unidos. Já vi gente chamando extraterrestre com a luz do celular. Já vi oração para pneu. Gente dizendo que nazismo era de esquerda. E gente divulgando a palavra da salvação (sanitária) como testemunhas da cloroquina.

Agora, se entupir de detergente para provar um ponto é a primeira vez. Ainda mais detergente contaminado.

Mas foi essa a trincheira encontrada pela turma, Michelle Bolsonaro (PL) inclusive, para mobilizar a tropa em uma semana de más notícias, com uma ação da Polícia Federal contra um ex-ministro de Jair Bolsonaro (e cotado a vice do filho, Flávio) envolvido no caso Master, o encontro entre Donald Trump e Lula e a recuperação, por parte do governo federal, do terreno do discurso da soberania nacional a partir de uma lei própria sobre minerais de terras raras.

A decisão da Anvisa de recolher produtos contaminados da Ypê, empresa administrada por apoiadores do ex-presidente, era a chance de a extrema-direita inventar uma causa para atacar um velho inimigo. Não só o governo Lula, mas a ideia de que existe um governo que persegue adversários (no caso, apoiadores de um adversário) e dita o que as pessoas devem consumir.

Para eles, a ideia de liberdade envolve a exclusão de qualquer autoridade regulatória entre desejo e ação. Mais ou menos quando Bolsonaro declarava guerra aos "pardais" que impediam motoristas de acelerar e matar quem estivesse no caminho.

O inimigo agora é uma agência reguladora que supostamente limou o direito a consumir um produto que coloca a saúde pública em risco. Dá pra entender? Dá.

Na crise da pandemia, diante da pressão de empresários que não queriam abrir mão dos lucros para salvar algumas milhares de vidas, a turma mirou as metralhadoras contra as autoridades sanitárias, inclusive a OMS, que orientava a população a restringir a população e esperar a vacina antes de voltar a circular em segurança.

Foi quando inventaram que cloroquina, um medicamento tão perigoso quanto ineficaz para o tratamento da Covid-19, virou símbolo da resistência da extrema-direita pela liberdade de morrer como bem quisessem.

Não sem antes a turma emplacar a teoria da conspiração de que a pandemia era só uma invenção para controlar corpos, desejos e instituições produtivas. Fazem o mesmo agora com a crise da Ypê.

Nesse ritmo, já tem quem conteste até a ausência de Neymar na lista de convocados de Carlo Ancelotti para a Copa sob o argumento de que o craque do Santos foi punido por apoiar Bolsonaro. Foi o que fez o deputado Helio Lopes (PL-RJ) ao acionar a CBF e exigir a presença do atleta no Mundial. É um jeito de transformar descompromisso e insuficiência física e técnica em complô. 

Fala se não parece que a turma não anda bebendo detergente?

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