
Por Rafael Simi, autor convidado *
O que acontece com um país que consegue, enfim, se libertar de uma longa ditadura?
Não tinha a pretensão de encontrar respostas quando escrevi “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”(Editora Jaguatirica). Quis, em vez disso, realizar uma viagem para lembrar da efervescência cultural do famoso ano da redemocratização. Essa viagem ganhou recentemente a companhia de “1985 – O ano que repaginou a música brasileira”(Organização de Célio Albuquerque/Garota FM Books).
Nenhuma das duas obras tem a arrogância de se arvorar a explicar o Brasil ou trazer teses sociológicas sobre o fim do Regime Militar. Nem teria como, porque marcos temporais servem apenas como balizas. O processo histórico é muito menos preciso do que imaginamos.
Quando José Sarney tomou posse, muita coisa já acontecia no país por conta de um regime que capengava a olhos vistos. Ao mesmo tempo, como podemos constatar nos dois livros, a censura não acabou num passe de mágica ao trocar de presidente.
“De volta para o passado” surgiu de uma pulga que ficou atrás de minha orelha enquanto assistia ao quebra-quebra em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023: “Por que parte tão expressiva do país desejava o retorno a um governo linha-dura?”.
Não cheguei nem perto de cravar uma resposta (e nem tentei), mas me dei conta de muita coisa assustadora, como o fato de que esse período iniciado em 1985 tem sido o mais longo ciclo democrático do Brasil desde que Cabral invadiu nossas terras. Ou seja: não só a democracia racial brasileira é um mito, como a própria democracia em si. Somos um país historicamente autoritário.
E isso não é opinião. É matemática: descontada a República Velha, que foi ditatorial, somamos 60 parcos anos democráticos contra 466 de repressão. Pode botar também no bolo 388 anos de escravidão oficial (fora a disfarçada) e a gente começa a achar que o 7 a 1 nem foi isso tudo, né?
Mas eu nunca quis escrever um livro triste e, traçando paralelos entre 1985 e 2023, misturei Anitta com RPM, o primeiro Rock in Rio e o primeiro The Town, o Bangu e a Mocidade do bicheiro Castor de Andrade com as BETs que invadiram o futebol e o carnaval e muitas outras curiosidades entre os dois períodos históricos. O resultado é uma crônica composta por sons, cores e energia.
Já o livro de Célio Albuquerque propõe uma viagem musical, com 85 pessoas diferentes escrevendo sobre 85 discos daquele ano. Mas música é cultura e cultura é reflexo da política, economia e condições sociais. Então, lendo sobre fenômenos variados, como o início da Axé Music com Luiz Caldas, o samba de roda que saía do Cacique de Ramos para as gravadoras, o Rock Nacional no auge e até o primeiro disco do Sepultura, o retrato que temos é de um país que explodia no bom sentido. Além do ano de 1985, ambos trazem em comum textos de Luiz André Alzer, autor do “Almanaque anos 80” ao lado de Mariana Claudino.
E olha: se pesei um pouco o clima refletindo sobre mitos democráticos e raciais, me despeço quebrando uma outra lenda e salvando um pouco nossa autoestima: tendemos a enxergar mudanças históricas vindas de cima (a Independência, a Lei Áurea, a República e a Redemocratização no Colégio Eleitoral) como provas de que nosso povo não sabe se mobilizar.
Bobagem. Manu da Cuíca, que escreveu um dos textos da coletânea do Célio, fez parte do time de compositores do samba campeão da Mangueira em 2019 e enumereu naquele carnaval uma longa lista de mobilizações e batalhas sociais, raciais e políticas que levaram à queda da escravidão e de governos repressores. Acredite: a própria derrota de Paulo Maluf numa eleição indireta se deu porque o movimento Diretas Já antecipou o funeral dos ditadores. Se houve algum tipo de acomodação dos poderosos, não faltou luta para pressioná-los.
E é isso. Num ano de mais uma eleição em que o militarismo nos espreita, acho que vale relembrar como foi bom voltar a respirar ares de liberdade.
*Rafael Simi é formado em jornalismo pela PUC-Rio, com especialização EAD em macroeconomia pela University of California